O primeiro oráculo de Obadias (1-14+15) é o que possui maior ligação com o texto profético de Jeremias (49,7-22). Como visto acima, entre esses textos podem ser encontradas muitas repetições fraseológicas, identificando-os em seus conteúdos. Todavia, há distinções
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A análise abaixo destaca as referidas repetições textuais: 1) Após a introdução de Obadias 1, à partir de sua 3ª sentença, o texto se assemelha com várias repetições em Jeremias 49,14: em sua 3ª sentença o texto de Obadias apresenta o verbo flexionado na 1ª pcp [* #("-ouvimos] e em Jr na 1ª pcs [ #("- ouvi], destacando em Jeremias
uma comunicação muito particular ao profeta e em Obadias sendo destacada uma mensagem mais comunitária; A 4ª sentença do verso 1 de Obadias pode ser encontrada em Jeremias 49,14 na forma idêntica [ " @ -
e um mensageiro entre as nações foi enviado]; A 5ª e 6ª sentenças de Obadias são idênticas em conteúdo a Jeremias, mas apresentam pequenas diferenças na composição literária: os imperativos da 5ª sentença são diferentes, em Obadias o imperativo é “levantai”[*(* ] e em Jeremias é “ajuntai-vos e virei sobre ela”[ # * * * ]; A 6ª sentença também se diferencia no uso do verbo, em Obadias, pois foi usado o imperfeito consecutivo na 1ª pcp [a levantaremos- (* ] acrescida de preposição com sufixo pronominal da 3pfs, mais o complemento do objeto “sobre ela para a batalha”[ ( ) # (* ] e em Jr o verbo usado foi o imperativo com o complemento do objeto “levantai para a batalha”[ ( ) *(* ]; 2) Obadias 2 corresponde a Jeremias 49,15. Entre esses versos, há uma pequena diferença de estilo na 1ª sentença: em Obadias encontra-se “Eis que pequeno te fiz entre as nações”[ @ ? 5 : ] e em Jeremias “Eis que pequeno fiz a ti entre as nações”[ @ ? 5 : 0]; Já na 2ª sentença há um mesmo conteúdo com composição literária diferente: em Obadias o profeta afirmou “Desprezado tu és muito”[ ( *; ] e em Jeremias “aquele que foi desprezado entre os seres humanos”[ *; ]; 3) Obadias 3 e 4 relaciona-se com Jeremias 49,16. Esses versos, tanto em Obadias como em Jeremias, destacam o orgulho[ ;] de Edom por viverem no alto das montanhas rochosas. A 1ª sentença de Obadias 3 corresponde identicamente a primeira parte da 2ª sentença de 49,16 “orgulhoso foi o teu coração”[?
;]. Além desta repetição, várias sentenças são correspondentes: “o que habita nas grutas da rocha”[# u 6 ,"-Ob 3 e Jr 49,16b]; “dali te farei descer”[? +(-Ob 4 e Jr 49,16e]; “se fizestes exaltar como a águia”[ ":0 2 6 -Ob 4] e “Eis que fizestes exaltar como a águia...”[?: ":0 6 0-Jr 49,16d]; 4)
Obadias 5 relaciona-se com Jeremias 49,9. A 1ª sentença de Obadias 5 repete-se identicamente em Jeremias 49,9a “se os ladrões vierem a ti”[? * :@ ], todavia esta sentença e idéia foi utilizada de forma distinta, a saber: a idéia comum dos ladrões que destroem em Obadias 5 está no início e em Jeremias 49,9 essa idéia é apresentada no fim. A seqüência desta idéia apresenta uma pequena mudança estilística: Em Obadias 5 encontra-se “Acaso não farão restar cachos?”[ # * " ] e em Jeremias 49,9b a expressão “não farão restar cachos”[ # * " ] não possui partícula interrogativa, denotando uma forte afirmação, embora também seja essa a idéia do recurso através da interrogação retórica como em Obadias; 5) Obadias 6 relaciona-se com Jeremias 49,10. Obadias 6 expressa o conteúdo na forma interrogativa “como foram descobertos os de Esaú?”[ # * ' 4 ] e em Jeremias 49,10 o conteúdo foi expresso através de uma afirmação interjetiva “Eis que eu deixei descoberto Esaú”[ # = 0]; 6) Obadias 8 relaciona-se com Jeremias 49,7. Tratam da idéia da “sabedoria em Edom”, mas sem repetições fraseológicas.7) Obadias 9 relaciona-se com 49,22. Tratam da temática da matança em Edom e do enfraquecimento dos seus valentes, mas sem repetições fraseológicas.
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A tendência natural das ciências bíblicas é a de considerar o fragmento menor como o mais antigo e anterior às grandes seções. Mas, além disto, através da comparação textual parece que o texto de Jeremias apresenta maior nível de dependência de outros textos proféticos e, não apenas de Obadias. Por isto, parece que o texto de Obadias pode ser visto como mais primitivo que o de Jeremias, como afirma Alonso Schöekel: o texto de Jeremias sobre Edom “inspira-se, em parte, na profecia de Abdias”. ALONSO SCHOKEL, Luiz. Profetas II, p.653.
significativas na composição dos dois oráculos, sobretudo, na organização e na delimitação proposta para a mensagem.
O primeiro oráculo de Obadias (1-14 +15) apresenta uma mensagem contra Edom através de um texto formal e literariamente organizado (aproximando-se mais das características poéticas), a saber: A introdução oracular indicou a aparição de um mensageiro que portava uma mensagem convocatória de batalha contra Edom (v.1b); Em seguida, foi exposto o conteúdo do orgulho edomita e as ações divinas para o quebrantamento de sua segurança nacional (v.2-9). A composição desta seção possui um estilo muito particular, especialmente, nos versos 4 – 6a, pois estes foram compostos com sentenças condicionais respondidas imediatamente com sentenças retóricas (interrogativo-negativas); A seqüência do oráculo apresentou as razões da necessária destruição de Edom. Nesta seção houve, pelo menos, cinco razões declaradas (10-12), sendo a última (a ausência de compaixão) desdobrada em oito ações contra os judaítas (12-14). Esta última razão com os seus desdobramentos foram compostos através de ações jussivas201 iniciadas com a partícula de
negação ´al [ ], revelando um estilo de composição particular.
A organização estrutural do primeiro oráculo de Obadias focalizou com muita claridade as ações de Javé contra o povo de Edom. Em seu conteúdo, o oráculo, denuncia o comportamento auto-confiante e soberbo de Edom, baseado em suas estruturas culturais, geográficas, políticas e militares. Além disto, a mensagem denunciou os vários delitos cometidos por esse povo contra Judá e sua população. O oráculo asseverou a postura impiedosa em favor da destruição de um país irmão (Judá/Israel) e, por causa disto, Javé agiria com rigor contra essa nação.
A seguir segue um esquema que facilita a visualização estrutural do primeiro oráculo de Obadias:
Estrutura do 1º Oráculo de Obadias (1-14+15) Introdução (v.1): mensagem para a batalha
As ações divinas para o quebrantamento do orgulho de Edom (v.2)
201 O jussivo é uma das formas verbais volitivas. A forma do jussivo expressa a vontade do falante. Refere-se,
etimologicamente, a expressões absolutas da vontade, podendo exprimir graus de volição. Através das formas volitivas um falante almeja impor sua vontade em outra pessoa. As variações das formas volitivas (coortativo, jussivo e imperativo) podem variar da ordem, da advertência, permissão de pedir, desejo. É possível a construção de sentenças jussivas com a partícula negativa ´al [ ]: a combinação de ´al [ ] com a 2ª pessoa do jussivo constitui o imperativo negativo e a forma não-perfectiva do jussivo também pode ter o mesmo sentido. Além disto, a construção de sentenças jussivas com a partícula negativa ´al [ ] tende a refletir urgência. Como tais sentenças tornam-se desafiadoras em seu entendimento o melhor é que: “em passagens problemáticas dessa natureza, ser orientado mais pelo sentido do que pela forma”. WALTKE, Bruce K. e O´CONNOR, Michael P. Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, pp.564-567.
Orgulho e segurança quebrados (v.3-9) - Fazer um povo pequeno e desprezível (v.3) - Fazer descer dos lugares altos (v.4)
- Vitimados por ladrões-vindimadores que recolheriam seus tesouros (v.5-6) - Vitimados pelos seus aliados (v.7)
- Auto-confiança:
- Sua sabedoria e entendimento (vv.8b-9) - Sua força de guerra-valentes (v.9) As razões para toda essa destruição (v.10-14)
A prática da violência contra o irmão (v.10) Fazer os irmãos cativos no dia da batalha (v.11) Apoiou os estrangeiros contra os irmãos (v.11) Lançaram sortes sobre Jerusalém (v.11)
Ausência de compaixão no sofrimento dos irmãos (v.12a) - Não ver o irmão na calamidade
- Não se entristecer por causa dos destruidores dos irmãos
- Não evitar o discurso de satisfação diante da calamidade do irmão - Não socorrer o irmão na calamidade
- Não se ver na experiência de calamidade
- Não enviar apoio de guerra para o irmão na calamidade - Não poupar a vida dos irmãos fugitivos e, tão pouco, seus bens - Não preservar o sobrevivente no dia da angústia
O oráculo contra Edom na Coleção dos OCN, no Livro de Jeremias (49,7-22), apresenta uma composição com frases semelhantes (também encontradas em Obadias), mas com um estilo literário diferente. Não se percebe uma preocupação com um estilo formal- literário na composição, como em Obadias. A preocupação mais clara foi a de redigir um oráculo, com várias sentenças (encontradas também em outros textos), que externasse uma mensagem coerente com o tema central do castigo contra Edom. Este oráculo foi assim estruturado: Uma curtíssima introdução, em Jeremias, apresentou o destinatário da mensagem [ Para ‘Edom - v.7a] e em seguida a fórmula do mensageiro atribuindo o conteúdo do oráculo a Javé dos Exércitos [
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Assim disse Javé dos Exércitos - 7a]; Após esta introdução foi elaborada uma pergunta retórica sobre a sabedoria de Edom, que foi prontamente respondida apontando para seu desaparecimento (v.7b); A partir daí, o texto apresentou ações de fuga (v.8) por causa da calamidade [ ] que viria sobre Edom (8-11). A calamidade sobre Edom foi sendo aprofundada, no texto, através de ações crescentes e destruidoras da segurança de Edom até a metáfora do “copo da ira divina” apontando a razão- clímax para sua destruição (v.12-13); Após essa primeira parte composta também com sentenças encontradas em Obadias (v.8 [7], 5 [9], 10 [6]), o texto de Jeremias (vv.14-16), apresenta uma seção idêntica a Obadias (v.1-4), destacando a convocação para a batalha contra Edom reafirmando as ações que destruiriam o orgulho e a segurança desta nação; A seção final deste oráculo em Jeremias, é mais autônoma (com um único verso encontradotambém em Obadias, a saber: v.22 [9]) e retomou o anúncio da desolação [
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] sobre Edom de forma definitiva (vv.17-22).A seguir segue um esquema que facilita a visualização estrutural do oráculo contra Edom no livro de Jeremias:
Estrutura do Oráculo contra Edom em Jeremias (49,7-22) Introdução (v.7a)
A sabedoria de Edom “em cheque” (v.7b) Fuga por causa da calamidade [ ] (v. 8-13)
- Vitimados por ladrões-vindimadores (v. 9-10) - Deixados descobertos, sem abrigo (v. 10a) - Semente exterminada (v.10b)
- Amparo aos desfavorecidos da sociedade (v.11) - A metáfora do copo da ira divina (v. 12-13) O anúncio da batalha (v. 14)
As ações divinas para o quebrantamento do orgulho de Edom (v.2) Orgulho e segurança quebrados (v.15-16)
- Fazer um povo pequeno e desprezível (v.15) - Fazer descer dos lugares altos (v.16) Anúncio da desolação definitiva (v. 17-22)
- Desprezo e horror (v.17)
- Destruídos como Sodoma e Gomorra (v.18) - O leão e o pastor (v.19-21)
- Javé como águia (v.22a)
- Os valentes de Edom como coração feminino que sofre (v.22b)
Os dois oráculos contra Edom (Obadias 1-14+15 e Jeremias 49,7-22) apresentam as ações de Javé como juízo sobre essa nação impenitente. Todavia, o juízo anunciado por Obadias focaliza a insensibilidade e a crueldade dos edomitas quando Judá e seus fugitivos precisavam de refúgio. Já o oráculo de Jeremias apresenta o juízo sem mencionar de forma objetiva esta calamidade. Menciona a imagem do “copo da ira divina” como razão para a destruição de Edom e sua capital [Bozra – v.13.22], ou seja: a iniqüidade chegara a limites insuportáveis para Javé.