Viu-se que na teoria unitária do tributo, posicionamento adotado nesta dissertação, há uma conexão lógica e inseparável entre a hipótese e a consequência tributárias: a tipificação é essencialmente tributabilidade. Sem uma das duas proposições, a outra não existe. Sempre coexistem. Pois não há comando sem previsão de conduta e sem imputação de uma relação deonticamente qualificada como obrigação, proibição ou permissão. É um sem sentido uma construção normativa que se preste a prescrever tão-somente “matar, em qualquer momento, em qualquer lugar do território brasileiro” ou “auferir renda, durante o ano fiscal, no território nacional ou no território internacional para residentes e domiciliados no Brasil”. Uma hipótese normativa, para ser hipótese, exige invariavelmente uma consequência, seja conotativa ou denotativa, no mundo jurídico para possa se estabelecer, efetivamente, como norma, como comando.
Não restam dúvidas de que há uma relação íntima entre a norma de isenção e a norma de tributação. Contudo, aparentemente estas normas entram em conflito. Enquanto a primeira serve para indicar pessoas, coisas ou situações que não estão sujeitas à tributação, a outra determina o contrário: sujeita pessoas, coisas ou situações à incidência de determinado tributo.
209 DERZI, Misabel Abreu Machado. Direito Tributário, Direito Penal e Tipo. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 1988, p. 209.
210 COÊLHO, Sacha Calmon Navarro. Teoria Geral do Tributo, da Interpretação e da Exoneração Tributária
A isenção perfaz uma norma jurídica em sentido estrito, que, além de delimitar a norma de tributação, compõe-se na estrutura do condicional, com antecedente e consequente, ou apenas serve para conformar a norma de tributação, sem existir em autonomia?
Ademais, deve-se também analisar mais especificamente a teoria da norma de isenção como norma impeditiva da eficácia da norma de tributação, em que há autonomia para estas duas figuras jurídicas: podem coexistir no ordenamento jurídico duas normas em que uma impede a incidência da outra ou seria um caso de revogação?
Estas são as perguntas que se buscam responder satisfatoriamente nos dois próximos capítulos. Porém, para que se possa adentrar na intimidade da composição da norma de isenção e buscar responder se ela se apresenta de forma autônoma, deve-se buscar inicialmente observar a relação da norma de tributação com a norma de isenção para solucionar, se possível, o conflito de normas.
3 SEGUNDA APROXIMAÇÃO DA NORMA ISENTIVA: ANÁLISE RELACIONAL DAS NORMAS DE TRIBUTAÇÃO E DE ISENÇÃO
O direito é um plexo de normas que se relaciona em formas de coordenação e de subordinação e tecem o contexto jurídico, prescrevendo e motivando as condutas humanas com fins a reduzir conflitos mediante garantia de um mínimo de segurança e estabilidade nas relações sociais que se tornam cada mais complexas. Essas normas, contudo, são produzidas pelos mais diversos sujeitos autorizados e em momentos distintos, sendo inevitável que, eventualmente, novas regulações proíbam o que era obrigatório ou permitido, permitam o que era proibido ou obrigatório e obriguem o que era proibido ou permitido, sem expressamente cessar o mandamento anterior.
Não raro, o agente competente, por ser um órgão, pode ser composto de mais de uma pessoa. A aprovação de uma lei, por exemplo, ao passar pelo Congresso Nacional, em cada uma de suas casas, com possibilidades de retornar à casa revisora em caso de alterações substanciais, implica que o agente competente é o conjunto da vontade de 594 pessoas, sendo 513 na Câmara dos Deputados e 81 no Senado Federal. Em cada lei votada podem haver posicionamentos diversos a depender de quantos e quais deputados e senadores estavam presentes no dia, o que pode alterar, em um segunda lei, a vontade expressa em uma lei anterior. É assim que se demonstra irrelevante a vontade do legislador na produção da lei, ao contrário da visão clássica em que este legislador e o Deus dos teólogos são uma e a mesma pessoa com atributos indiscerníveis, cabendo ao legislador a posição de Deus e ao direito positivo o papel de sagrado211.
A diferença nos momentos em que as normas são produzidas talvez se demonstre ainda mais importante. A sociedade em seu constante processo de aprofundamento de relações em um mundo com distâncias cada vez mais curtas e o estreitamento de culturas tão diversas implica uma inafastável complexidade. É cada dia mais constante a diminuição ou o aumento da intensidade de determinados valores que são absorvidos no seio das comunidades, sobremaneira em um país tão culturalmente rico como o Brasil. Em decorrência da
211 “Ocorre que o legislador dos exegetas, titular dessa vontade, e o Deus dos teólogos são a mesma pessoa, já
que, como observa Vernengo [1977:85], seus atributos são indiscerníveis. Em uma palavra: o legislador dos exegetas é Deus; e, como legislador é Deus, o direito positivo é sagrado. Essa doutrina, assim, nos conduz de retorno ao passado e à recusa de qualquer mudança (social e jurídica), pois o passado é imutável. No seu bojo o direito instrumenta o governo dos vivos pelos mortos [Wróblewski 1985:76].” (GRAU, Eros Roberto. Ensaio e Discurso sobre a Interpretação/Aplicação do Direito. 5. ed. rev. amp. São Paulo: Maleiros, 2009, p. 125).
importância social deste alargamento de horizontes culturais, essas infusões e modificações de valores terminam por ser considerados pelo Poder Legislativo e são introduzidos no direito, resultando na alteração das condutas regidas, bem como na regulação de novas condutas, antes não juridicizadas. Esses mesmos valores, por outro lado, não passam despercebidos pelo Poder Executivo, na edição de regulamentos, pelo Poder Judiciário, ao modificar as interpretações e alterar posicionamentos, nem pelos particulares, que passam a agir diferentemente, inclusive na produção de normas que lhe são cabíveis.
Com a quantidade enorme de normas jurídicas incessantemente produzidas pelos mais diversos agentes competentes, não é surpresa alguma que nascerão conflitos. Porém, o direito positivo pode prever, explícita ou implicitamente, certas normas (sobrenormas) que tratam desses conflitos no tempo e no espaço e impor formas para solucioná-los, com fins a manter sua própria salubridade: manter-se funcional e atualizado.