Se, por outro lado, olharmos para a obra de Fenoglio com o conceito de Erlebnis em mente, encontramos, também aqui, muitos pontos de ressonância que poderiam nos levar a compreender sua literatura como fruto de uma vivência, em que a impossibilidade de narrar conduz a voz solitária de um único indivíduo aos ouvidos de uma comunidade ouvinte que perdeu o dom da audição.
Se pensarmos na recepção das obras de Fenoglio, à época de sua publicação, logo poderíamos supor que ali não mais residia aquela partilha que Benjamin via na obra do contista russo Leskov. Fenoglio foi inicialmente muito criticado por narrar uma Resistência que para alguns era vista como um desserviço para a Itália e para os
italianos. Seus partigiani eram muito violentos, muito oportunistas, muito pouco conscientes politicamente. Suas escolhas formais foram acusadas de cair em certo apelo fácil ao dialeto e ele foi, por isso, lentamente incorporado e lido.
Poderíamos afirmar então que a partilha era aparente, mas não efetiva. E que mesmo partindo de um contexto aparentemente comum, a Resistência, quando se tinha tentado transformá-la em texto, em literatura, quando se tinha tentado narrar aquela História, exatamente na sua pretensa objetividade, na sua tentativa de literalidade, a arte de narrar desaparecera por completo e os envolvidos, embora insistissem na tentativa, estavam privados da faculdade de intercambiar experiências. Por isso, em poucos anos, a Itália se perceberia ainda imersa na mesma impossibilidade de revisão de seu passado.
Poderíamos argumentar que o que se publicou nos dez anos que se seguiram ao fim da Guerra, nada tinha em ―comum com uma experiência transmitida de boca em boca‖:
mas aquela vivência individual que contava de um herói isolado denominada Neorrealismo, tinha sido a ilusão de que isso seria possível. Seguido imediatamente da constatação de que a épica popular que poderia ter nascido não nasceu e tudo havia sido apenas um fruto subjetivo e moderno de uma vivência por um sujeito solitário, radicalmente desmoralizado por uma guerra de trincheiras seguida de uma guerra civil, que viu sua cidade, sua casa, sua família tocada por uma violência que deveria ficar longe de casa, principalmente para a expectativa dos italianos.
Poderíamos localizar Fenoglio como o homem moderno que testemunhou a cisão entre a vivência subjetiva e o universo coletivo da experiência, em que o ―eu‖, mesmo participando da luta, se sente dela separado e dividido91. Afirmaríamos então que o Neorrealismo foi a ilusão de que uma vivência poderia ser narrada como uma experiência, mas essa ilusão frustrada não passaria de um desejo de partilha, que duraria um episódio fugaz, apenas o tempo de desfazer tamanha ilusão: pois vivemos um tempo
91 ―O ‗eu‘, mesmo participando da luta, se sente daquela separado e dividido. Toda a produção de Beppe
Fenoglio, grande escritor de uma ‗literatura da Resistência‘, é marcada pela contradição entre o ‗eu‘ e a participação na luta‖ (FERRONI, Giulio. ―La letteratura come esperienza dell‘io‖. In: Il Grillo. Disponível em: http://www.emsf.rai.it/grillo/trasmissioni.asp?d=652#letteraturaresistenza. Acesso em: 12/ jul./ 2010).
em que não é possível partilhar experiências e, no máximo, podemos fazer literatura dessa impossibilidade.
Aquela literatura não teria passado então de um falso suspiro ilusório, em que a ―concisão, que facilita a memorização‖ teria desaparecido, embora, em ilusórias tentativas, os neorrealistas tivessem se dedicado profundamente a textos breves, como os contos e as narrativas curtas. Mas os tipos textuais, naquele caso, teriam sido o artifício de fé para encobrir a falência, apenas casca, sem raiz, apenas invólucro, sem espírito. Porque era inútil a ilusão de que haveria, na cidade de Alba em meio a uma guerra civil, uma comunidade de ouvintes cercada pelo ―tédio‖ e pela ―distensão psíquica‖.
Além disso, as formas de produção já estavam, também em Alba, profundamente alteradas: afinal, não podemos esquecer que a grande empresa Fiat já existia naqueles anos, mudança essencial nas cidades próximas de Turim, como Alba. Não podemos não aceitar que uma etapa fundamental para a rendição do rei Vittorio Emanuele aos Aliados tinha sido o episódio das greves de 1943, que ali já estava arregimentado um sistema de sindicatos e fábricas que já teria extinguido – ou estava em vias de extinguir – qualquer ―antiga forma de trabalho manual‖.
Com isso, teria sido extinto também o ―dom da audição‖ e ―quem contava não é mais ouvido e se cala‖, dedicando-se, a partir desse momento, a uma escrita que para o leitor desavisado poderia ser fruto da tradição oral, mas que, na verdade, dialogava em si e por si com uma vivência individual. Que operava diante da morte um engano: apesar de parecer afrontá-la de frente numa descrição crua, na verdade, o Neorrealismo e a obra de Fenoglio se aproximariam da morte já a partir do sujeito que a vivencia, nunca da comunidade que a vive enquanto experiência comum, extirpando, assim, de vez ―a possibilidade de vivenciar e de contar da morte‖. Uma vivência que, em aproximação com a morte – experiência individual máxima –, demonstre uma coletividade escandalizada ou o impedimento que gera silêncio.
Constataríamos ainda que o sujeito neorrealista narra uma ruptura com a natureza, nunca uma harmonia com ela. Ao contrário do narrador de Benjamin, ele nunca
representa a figura do justo, nunca é ingênuo e nunca oferece ao leitor uma moral da história.