IV. BULGULAR VE YORUM
4.4 ÇALIŞMALARIN SONUÇ VE ÖNERİLERİYLE İLGİLİ BULGULAR
Beppe Fenoglio, alguns anos depois, viveria essa guerra: a Segunda Grande Guerra, mas principalmente a Guerra Civil de Resistência aos alemães. E ali teria início a experiência/vivência57 na vida do autor que modificaria por completo sua atuação como escritor: a Resistência italiana58.
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A distinção benjaminiana dos dois conceitos será mais bem abordada ainda neste capítulo.
58É consenso na crítica especializada da obra de Fenoglio que ―a Resistência se tornara o centro da sua
vida, o evento que o revelou a si mesmo determinando o seu destino como homem e como escritor‖ (BUFANO, 2007, p. 12).
Fenoglio foi um autor profundamente marcado pela experiência da Resistência, vivida em primeira pessoa. Aquela experiência iria ditar o principal filão da sua produção literária, daí a pertinência em acompanhá-la também a partir da biografia do autor, que, nesse caso, e como era característico do Neorrealismo, se utilizou do artifício de um pacto de verossimilhança e autobiografismo com seus leitores para alcançar e partilhar sua experiência narrativa.
Fenoglio nasceu em 1º de março de 1922, em Alba, pequena cidade de vocação primordialmente rural, no norte da Itália. O irmão Walter nasceu em 1923 e a irmã Marisa dez anos depois, em 1933. Seus pais, Amilcare e Margherita, eram de origem humilde; o pai, açougueiro num tempo em que carne se comia apenas aos domingos ou em ocasiões festivas, a mãe, dona de casa, a quem Beppe chamaria sempre madre, nunca mamma.
O autor, que sofria de certa gagueira desde a infância, muito cedo chamou a atenção dos professores e, ao final de cada ano de escola não obrigatória, seus pais eram convocados pelos professores, que insistiam para que Beppe continuasse estudando. Os pais, como não era comum à época, tentaram criar os três filhos para uma perspectiva melhor que a deles: por isso eles puderam continuar estudando.
O impacto do filho do açougueiro com os filhos da burguesia de Alba, estudantes habituais do liceu clássico, não foi por nada suave. Quando Beppe precisava passar na frente da escola, empurrando com Walter o carrinho de açougueiro, sofria por um pouco de vergonha mas prosseguia enrijecendo ainda mais os músculos do rosto59.
Até que no Liceo Classico Gavone di Alba encontrou os três professores que mudaram sua vida: Pietro Chiodi, Leonardo Cocito e Lucia Marchiaro. O primeiro, professor de filosofia e história, e o segundo, de italiano e latim, juntos, foram decisivos para o antifascismo ainda pouco sistematizado do jovem Fenoglio. Chiodi e Cocito participaram das greves de 1943, se colocaram publicamente como antifascistas a partir de 25 de julho e estiveram entre os primeiros organizadores e chefes daqueles grupos resistentes que responderam armados aos invasores nazistas e aos fascistas que os
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apoiavam60. Chiodi foi preso e mantido num campo de concentração. Com o fim da guerra, permaneceu fortemente ligado a Fenoglio. Cocito foi morto, enforcado pelos nazistas, em setembro de 1944. Lucia Marchiaro foi responsável pelo English and englished things, professora de inglês de quem Fenoglio foi o aluno preferido, tamanha dedicação e paixão mostrada ao estudo da língua e da literatura inglesa.
Seus ensinamentos foram decisivos para a relação de Fenoglio com o mundo anglo-saxão ao qual se sentia naturalmente ligado pelo seu temperamento e pelas suas juvenis aspirações a um tipo de sociedade e civilização que fosse mais justa, mais aberta, mais livre do que aquela que se vivia na Itália sob o fascismo e à sombra das tantas organizações clericais em Alba (LAJOLO, 1978, p. 117).
Em 1942, estava no segundo ano da Faculdade de Letras, em Turim, quando recebeu a convocação para lutar no Exército Régio Fascista. Abandonou a Faculdade e foi para Roma. Àquela altura, Fenoglio era um típico jovem nascido no Piemonte, que, crescido sob o fascismo, distinguia claramente dele os Savoia61. Segundo grande parte desses jovens, os Savoia apenas tinham cometido um grave erro aliando-se a Mussolini. Portanto, separando bem um do outro, Fenoglio, em juventude, nutria forte admiração pelo rei e pela monarquia. Sua ida a Roma ainda foi animada por certo sentido de aventura juvenil, mas também por alguma esperança de contribuir para recuperar o prestígio da monarquia e uma imagem de pátria que caía em decadência62. De lá mandou ao pai um cartão-postal dizendo: ―Ao meu pai, velho alpino, viva o rei!‖ 63.
O explícito comportamento filo monárquico de Beppe Fenoglio não constitui de todo modo motivo de surpresa não apenas pela fé nos valores da tradição própria da sua família, mas também porque mesmo a população de Alba nutre sentimentos
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LAJOLO (1978, p. 146).
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Os Savoia foram uma dinastia real europeia que, no início do século XVIII, obteve o domínio sobre o Reino da Sicília (1713) e em seguida sobre o da Sardegna (1720). No século XIX, se colocou à frente do movimento de unificação nacional italiano, que conduziu à proclamação do Reino da Itália, em 17 de março de 1861. Por cerca de oitenta anos reinaram na Itália. Até que, com o fim da Segunda Guerra, o resultado do plebiscito tornou a Itália uma República e os Savoia foram mandados ao exílio por tempo indeterminado.
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LAJOLO (1978, p. 156).
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igualmente conservadores e ainda os nutrirá no pós-guerra (LAJOLO, 1978, p. 151).
Fenoglio terminou o curso de soldado e estava à espera da guerra quando veio o 25 de julho, seguido do 8 de setembro. Naqueles dias de ausência institucional, Fenoglio foi um dos muitos soldados que, aos 21 anos, cruzou a Itália como desertor de volta para casa. Após um breve lapso trancafiado na casa de uma tia, subiu as montanhas das Langhe (região montanhosa nos arredores de Alba) para ser partigiano. O depoimento do irmão Walter denota a relação da região com o universo de Fenoglio, importância essa que não está ligada a uma experiência juvenil mitificada, mas, ao contrário, trata de uma escolha adulta por um universo mítico e literário.
Devo dizer que eu gostava mais da cidade que dos vilarejos das Langhe, Beppe ao contrário era inclusive apaixonado por elas. E não é que passasse muito tempo lá, principalmente nos primeiros anos. Íamos lá pra cima nas férias porque em casa já era dificíl nos manter estudando e não podiam claro nos mandar pro litoral como acontecia com alguns dos nossos amigos. Mas eu acredito que as langhe tenham sido também pra ele, embora diferentemente de Pavese, ligado à escrita como motivo de narração literária64.
Fenoglio iniciou sua trajetória partigiana junto a um grupo de Rossi – comunistas –,
mas, avesso a toda e qualquer forma de dogmatismo, preceito, ou grupo restrito, rapidamente abandona os Rossi e passa a lutar junto a um grupo de Azzurri, principal vertente das ditas ―formações autônomas‖. Sem ligação com partidos, o grupo formado por patriotas foi conhecido também por badogliani, pela ligação estabelecida com o rei e o novo marechal por ele nomeado ao governo da Itália, Pietro Badoglio. Nessa escolha, há que se levar em conta certa margem de casualidade na politização e no direcionamento tomado por alguns partigiani ou formações ao longo da Resistência. E para Fenoglio o cenário dessa escolha não foi diferente.
Um chefe da formação do Mauri, Nando, passou para as GL pelo único motivo que eles eram mais bem armados e ―se pudesse ter fornecimentos maiores – disse –,
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passaria até aos garibaldinos porque a guerra se faz com armas e não com política65.
Muito já se discutiu, na biografia e na obra de Fenoglio, sobre a relevância dessa escolha. Eu partilho da ideia defendida por, entre outros, um biógrafo de Fenoglio, Davide Lajolo, de que esse fato revela nada mais do que certo provincianismo monarquista juvenil – ―é fato que em Fenoglio a escolha ideológica é lenta e distante [da juventude] (...), começando a partir de 1947‖66–, misturado à teimosia e ao individualismo característicos do temperamento do autor. Acredito, portanto, que nenhuma teoria política já consciente estivesse por trás daquela decisão e, principalmente, essa escolha não traria nenhuma consequência decisiva para a constituição humana e literária de Beppe Fenoglio.
Durante a guerra partigiana os três baluartes do espírito puritano de Fenoglio era sua majestade o Rei, a missão inglesa e ―o major‖ (Mauri) [chefe da formação em que lutava], e ―os Rossi‖ um incompreensível subproduto da guerrilha. (...) Mas tudo isso deveria durar pouco. À medida que o velho mundo reemergia e a Resistência era comprimida e desvalorizada, Fenoglio aprendeu (...) como se não houvesse grande diferença entre partigiani Azzurri e Rossi67.
Fenoglio permaneceu convicto de sua escolha pela guerrilha dos partigiani e esteve nas montanhas ao longo dos vinte meses de guerra civil. Durante esse período, a família lidava com as represálias – a casa dos pais foi investigada seguidas vezes e eles chegaram a ser presos pela RSI por apoiarem um desertor. Nessa ocasião, o irmão Walter voltou para casa para que os pais fossem liberados; Fenoglio permaneceu, reforçando novamente sua escolha no inverno de 1944, período mais complicado, em que muitos partigiani acabaram encontrando um porto seguro onde esperar pelo fim da Guerra.
65―Si veda la relazione del commissario politico della 8a divisione Asti, Nestore, alla delegazione per il
Piemonte, 18 febbraio 1945‖. (PAVONE, 1991, p. 159).
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LAJOLO (1978, p. 150).
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Nos últimos meses, sempre junto aos Azzurri, desempenhou também a função de intérprete das missões aliadas cuja sede era no comando em que ele continuou combatendo até a liberação de Turim e o fim definitivo da Guerra.
Com o fim da Guerra, Fenoglio permaneceu em Alba e tornou-se funcionário da Empresa Marenco, exportadora de vinhos, trabalhando na tradução da correspondência do setor de exportação para o inglês, função que desempenharia até a morte.
Em 1960, aos 38 anos de idade, casou-se com Luciana. O casamento foi apenas no civil, fato que escandalizou a provinciana Alba, e nenhum familiar dos noivos quis presenciar a cerimônia. No ano seguinte nasceu Margherita, a única filha de Fenoglio, a quem ele deu o nome da mãe.
Após um ano de estadia no campo devido a uma tosse não diagnosticada, em 1963, aos 41 anos de idade, Beppe Fenoglio faleceu por um câncer de pulmão que se alastrou muito rapidamente. Ele mesmo dispôs sobre o funeral: laico, sem flores, sem paradas, sem discursos.
Entre o Fenoglio filo inglês da adolescência e o Fenoglio escritor do pós-guerra há aquela terrível experiência que foi a guerrilha no Cuneese. Talvez para viver seja necessário esquecer, mas certamente para entender é necessário lembrar. É desta viagem ao inferno que foi a guerrilha que nasce o Fenoglio escritor (LAJOLO, 1978, p. 132).
2 O Neorrealismo fenogliano e a teoria da narração benjaminiana
Como acenei anteriormente, acredito ser a Resistência o fenômeno que perpassa grande parte da obra de Fenoglio, bem como o Neorrealismo literário como um todo, e que impõe àqueles escritores o desafio da tentativa de narrar a partir de uma experiência/vivência. Para tentar uma maior compreensão dessa problemática, proponho uma aproximação da problemática à teoria benjaminiana sobre a relação entre ―experiência‖, ―vivência‖ e literatura. As questões colocadas por Benjamin e os conceitos por ele elaborados, dialogam intensamente com as obras daqueles autores na
Itália do pós-guerra, principalmente as de Beppe Fenoglio, único a persistir nessa problemática por cerca de vinte anos: como narrar a Resistência a partir de uma ―experiência/vivência‖, do que se trata e por que fazê-lo.
Para auxílio na análise dos textos de Benjamin, me servi de renomados estudiosos da obra do autor, principalmente Michael Löwy e Jeanne Marie Gagnebin, autores que nem sempre concordam sobre muitos dos conceitos benjaminianos. Preferi, por motivos metodológicos, não entrar profundamente nas discordâncias, mas, à luz da obra de Fenoglio, tentar levantar os pontos relevantes desses comentaristas no que diz respeito aos conceitos de experiência (Erfahrung), vivência (Erlebnis) e rememoração, desenvolvidos por Benjamin principalmente nos textos ―Experiência e pobreza‖, ―Sobre alguns temas em Baudelaire‖ e ―O Narrador‖68.
No texto ―Experiência e pobreza‖, de 1933, Benjamin trata mais sistematicamente de uma temática recorrente em sua produção: o declínio da experiência (Erfahrung) na modernidade. A partir de outro caráter muito importante de sua obra, a crítica ao progresso, Benjamin argumenta que a modernidade condicionou os homens a um novo modo de produção repetitivo, similar ao autômato, que os afastou da possibilidade de experienciar.
O início do texto é logo pautado pela renomada afirmação de que ―as ações da experiência estão em baixa‖69 e que, aliada ao desenvolvimento técnico da humanidade, teria surgido uma ―nova forma de miséria‖70. E diante dessa miséria (bem como diante do fascismo), era preciso dispor dos instrumentos certos para poder combatê-la. Convinha, então, encarar o fato de que ―é hoje em dia uma prova de honradez confessar nossa pobreza‖, que não é mais ―uma pobreza [de experiência] privada, mas de toda a humanidade. Surge assim uma nova barbárie‖. Para o Benjamin do texto ―Experiência e pobreza‖, num movimento sempre dialético entre ganhos e perdas, essa barbárie tem um
68 BENJAMIN (1994a, p. 114). BENJAMIN (1994b, p.103). BENJAMIN (1994a, p. 197). 69 BENJAMIN (1994a, p. 114). 70 BENJAMIN (1994b, p.115).
sentido ―novo e positivo‖, pois a partir dela o bárbaro seria impelido ―a partir para a frente, a começar de novo, a contentar-se com pouco, a construir com pouco‖71.
Os grandes homens do seu tempo, segundo o autor, se distinguiam pela precoce percepção de sua pobreza e do fato de que produziriam com e a partir dela, ―sua característica é uma desilusão radical com o século e ao mesmo tempo uma total fidelidade a esse século‖72. Diante dessa pobreza, nenhuma nostalgia. Ao contrário disso, uma quase celebração diante da clareza de perceber o século como ele de fato se mostrava:
Pobreza de experiência: não se deve imaginar que os homens aspirem a novas experiências. Não, eles aspiram a libertar-se de toda experiência, aspiram a um mundo em que possam ostentar tão pura e tão claramente sua pobreza externa e interna, que algo de decente possa resultar disso73.
O Walter Benjamin, aqui profundamente dialético e nada nostálgico, encerra esse texto propositivo abrindo espaço para que o novo possa surgir, fruto do momento de maior pobreza e barbárie (também no mau sentido) do século, uma nova missão surgiria: aquela de encontrar um novo modo de narrar para um novo tempo de uma nova narração. Porque ―ao cansaço, segue-se o sonho‖74: a literatura.
Em outro texto fundamental para a discussão aqui proposta, ―O Narrador‖, de 1936, Benjamin, segundo Gagnebin75, estaria proibido de utilizar o conceito de nova barbárie do texto de 1933 porque a barbárie real já havia se instalado. ―O Narrador‖ seria então ―uma nova tentativa de pensar juntos, de um lado, o fim da experiência e das narrativas tradicionais, de outro, a possibilidade de uma narrativa diferente‖.
Assim, a partir de uma argumentação romântica de que havia algo que não há mais, mas com a concepção dialética de que alguma outra coisa tomaria o lugar deixado vazio, 71 BENJAMIN (1994b, p. 116). 72 BENJAMIN (1994b, p. 116). 73 BENJAMIN (1994a, p. 118). 74 BENJAMIN (1994a, p. 118). 75 GAGNEBIN (2007, p. 62).
Benjamin sustenta mais uma vez a tese de que ―a arte de narrar está em vias de extinção porque é como se estivéssemos privados (...) da faculdade de intercambiar experiências‖. E a esse declínio da experiência está ligado também o declínio da função social do narrador, que era antes o encarregado por narrar uma ―experiência‖ e que, agora, limitado a ―vivenciar‖, encontra-se também impossibilitado de narrar.
No mesmo texto, Benjamin diz ainda, desenvolvendo uma tese já enunciada no texto de 1933, numa repetição exata do trecho a seguir, que:
no final da Guerra [da Primeira], observou-se que os combatentes voltavam mudos do campo de batalha, não mais ricos, e sim mais pobres em experiência comunicável. E o que se difundiu dez anos depois, na enxurrada de livros sobre a guerra, nada tinha em comum com uma experiência transmitida de boca em boca. Não havia nada de anormal nisso. Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela guerra de material e a experiência ética pelos governantes76.
Com lucidez, prosseguia em sua conceituação a partir de argumentos quase irrevogáveis: a memorização só é conseguida com a concisão, a não explicação, a não necessária confirmação pela experiência de uma narrativa. Essa memorização só pode se realizar no ―tédio (distensão psíquica)‖, o tédio está ligado a ―antigas formas de trabalho manual [que] estão extintas nas cidades e em vias de extinção no campo‖. O fim dessa possibilidade de distensão psíquica leva também ao fim do dom da audição, que, por sua vez, estaria vinculado a uma ―comunidade de ouvintes‖que propicia a possibilidade de recontar; sem ela, o narrador permaneceria em silêncio, pois quem contava não é mais ouvido e se cala.
Assim, o dom narrativo, tecido há milênios em torno das formas de trabalho manuais, e a narrativa, forma artesanal de comunicação, estariam em extinção. Como também a possibilidade de vivenciar e de contar da morte, que antes era cultivada, e de morte
76 BENJAMIN (1994a, p. 198). Trecho também presente, com sutis alterações, em ―Experiência e
eram feitas as narrativas. Na tradição – no passado –, na morte, estaria a origem da narrativa.
Em ritmos geológicos, algo se perdia: a capacidade de, a partir de uma experiência partilhável vinculada à tradição, narrar uma história que possa ser narrada novamente, que perpetue uma lição, um conselho. A Erfahrung é essa experiência que ―se inscreve numa temporalidade comum a várias gerações‖, que não diz respeito apenas à religião ou à literatura, mas que alcança também ―uma prática comum‖, por isso, o fruto dessa experiência é a narrativa, que não apenas conta uma história, mas também gera ―uma verdadeira formação (Bildung) para todos os indivíduos de uma mesma coletividade‖77.
Para compreendermos a origem da ―verdadeira transmissão da experiência‖ e a origem da ―narração tradicional‖, devemos atentar para uma ―autoridade que não é devida a uma sabedoria particular‖78, mas de que é imbuído ―mesmo um pobre-diabo‖79 na hora de sua morte, daí o fato de que o narrador poderia estar bem exemplificado na figura do ―moribundo‖.
A arte de narrar, que definhava desde ―o surgimento do romance no início do período moderno‖80, agora se extinguia também graças à ascensão da ―informação‖ – forma de comunicação ―mais ameaçadora [à narrativa] que o romance‖ e provocadora de ―uma crise no próprio romance‖. A informação se distingue profundamente da narrativa, pois aspira a uma ―verificação imediata‖ e deve ser ―plausível e nisso é incompatível com (...) a narrativa‖81.
Algo novo tinha surgido: um narrador que, diante da impossibilidade de uma narrativa partilhável, tinha se voltado para dentro, dentro de suas casas, dentro de um livro, em que um romance fala da história de um herói, e assim a ―história do si vai preencher o papel deixado vago pela história comum‖82. Essa forma de narrar estaria ligada a um 77 GAGNEBIN (2007, p. 57). 78 GAGNEBIN (2007, p. 58). 79 BENJAMIN (1994a, p. 207). 80 BENJAMIN (1994a, p. 201). 81 BENJAMIN (1994a, p. 202). 82 GAGNEBIN (2007, p. 59).
novo conceito de experiência (Erlebnis), não partilhável, que ―reenvia à vida do indivíduo particular, na sua inefável preciosidade, mas também na sua solidão‖83.
Segundo Benjamin, porém, algo mais novo ainda precisava emergir: ―uma forma narrativa diferente das baseadas na prioridade da Erlebnis‖84, algo que se localizasse na rachadura entre a Erfahrung e a Erlebnis. Nem a ―obsoleta‖ narrativa de uma experiência partilhada, coletiva e pautada na tradição – para a qual a morte não apresenta perigo – mas a que os modernos não mais teriam acesso. Nem a escolha burguesa diante da não partilha, o romance, a informação – para os quais a morte representa um escândalo. Sendo essa segunda postura entendida por Benjamin nas ―Teses‖ como não adequada para o narrador, nem para o historiador materialista preocupado em atualizar o passado na apropriação de uma reminiscência.
Num ―entre‖85 estaria localizado o conceito benjaminiano de ―rememoração‖: conceito que englobaria certa ―produtividade da perda e da morte‖86. Trata-se aqui da concepção de que ―declínio histórico da narração e recalque social do morrer‖são transformações que caminham lado a lado. E que ―o fim da narração e o declínio da experiência são inseparáveis (...) das transformações profundas que a morte, como processo social, sofreu no decorrer do século XIX‖. Portanto, para se pensar a ―construção de um novo tipo de narratividade‖devemos, inevitavelmente, passar também ―pelo estabelecimento de uma outra relação, tanto social como individual, com a morte e com o morrer‖87, e, consequentemente, também com a experiência.
83 GAGNEBIN, (2007, p. 59). 84 GAGNEBIN (2007, p. 62). 85
O termo, de enorme eco na tradição filosófica ocidental, é aqui utilizado apenas na tentativa de propor que o conceito benjaminiano de ―rememoração‖ ocupe um outro lugar, ―entre‖ e ―a partir‖ do conceito de