Esta micro-esfera diz respeito às manifestações culturais abordadas de modo a contribuir para que os alunos compreendam sua própria cultura. A reciprocidade se aproxima, assim, da prática intercultural, visto que propicia aos alunos refletir sobre elementos da cultura estrangeira e da própria(PAIVA, 2009, p. 63).
A reciprocidade, um dos princípios do ensino intercultural, deve ser entendida como um processo de cooperação e interdependência entre culturas para a aprendizagem de uma nova língua, conforme define Mendes (2004):
esse princípio destaca que a aprendizagem intercultural não deve ser um processo em uma única via, ou seja, como o prefixo ‘inter’ sugere, um processo
entre culturas, uma aprendizagem que atravessa limites e fronteiras interculturais (p. 112)
É importante reforçar que não é o foco deste trabalho a prática de ensino voltada exclusivamente para o desenvolvimento da perspectiva intercultural, embora reconheçamos seu potencial para a aprendizagem de língua comprometida culturalmente. Dessa forma, nesse item nos deteremos apenas em explorar, conforme os registros efetuados, as possibilidades de trabalhos com a canção a partir dessa perspectiva.
Para os observadores, o curso ofereceu momentos de diálogo entre culturas. Consideraremos as duas indicações feitas pelos mesmos a fim de observar como a canção está relacionada ao trabalho com conteúdos culturais.
A atividade realizada no início da aula 5, com o texto “ONU critica Brasil por desapropriações para Copa e Olimpíada”, foi indicada por promover a reflexão entre culturas. Em conversa posterior à reportagem, a PP, como estímulo à problematização do tema, comenta com os aprendentes alguns outros fatos que ocorreram no Brasil marcados pela desapropriação de moradores. Em seguida, os alunos apresentam outros contextos relacionados à questão da moradia, conforme trecho a seguir:
P: E o que mais? Há outras situações em que precisa desalojar?
Angélica: Em todo os grandes projetos de infraestrutura, grande... sempre, sempre... por exemplo, ficam fazendo uma pressão para desalojar.
Renata Maria: Mas também, infelizmente, é... na Colômbia por causa dessa luta de guerrilha, de paramilitares e de ((...)) das FARC.
P: Ahamm...
Renata Maria: Ou mesmo o narcotráfico também desaloja porque eles precisam de essa área, desse terreno para fazer suas atividades ilegais. Então desaloja muita gente. E... as guerras civis que agora estamos escutando na África, como desalojam comunidades por guerras civis.
(...)
Renata Maria: Ah, também escutei aqui, no sé se era ilegal, mas também ha desalojado muitos povos indígenas para cultivar a soj... so...
P: Aham... Soja. Ah... mas você está dando o exemplo de onde? Daqui do Brasil?
Renata Maria: Aqui, na Amazonia. Escutei de um governador muito... importante. E ele ainda... ele estava fazendo negócios para comprar terras em ((...)) orientales da Colômbia...
(Transcrição A 5 – T 1)
Podemos notar que os exemplos apresentados não se restringem ao Brasil, embora a PP, ao abordar o tema, só tenha se referido ao contexto deste país. Por meio desta sequência, podemos perceber que Renata Maria relata situações de desapropriação de diferentes localidades: Colômbia (seu país de origem), Brasil e África. Dessa forma, entendemos que a compreensão da estudante sobre esse fenômeno cultural29 está pautada em uma visão ampla do social, na medida em que não se fecha a apenas um contexto isolado, conforme aponta Mendes (s/d):
incorporar a cultura e as relações interculturais como forma de inclusão e cooperação dos participantes do processo de aprendizagem. Isto significa adotar a perspectiva da cultura como meio de promover a integração e o respeito à diversidade dos povo, à diferença, permitindo ao aprendiz encontrar-se com outra cultura sem deixar de ser ele mesmo. (p. 51)
A reportagem trabalhada foi selecionada com o intuito de servir como porta de entrada para a reflexão cultural que seria depois retratada pela canção “Saudosa maloca”, de Adoniran Barbosa. Isso seria possível porque a canção, embora datada de 1955, apresenta temática atual, próxima ao contexto da reportagem, que é de 2011. Ao narrar um episódio de desapropriação de moradores para a construção de uma grande obra, o samba põe em pauta questões políticas, sociais, econômicas e culturais que pudessem ter sido plantadas já no momento de leitura da reportagem.
Durante o trabalho com a canção selecionada de Adoniran Barbosa, os estudantes sentem dificuldade em compreendê-la devido a sua gravação, que é antiga e apresenta andamento rápido. De acordo com os registros presentes no Portfólio da aula 5, na qual foi trabalhada a canção, a atividade com o samba esteve mais focada na análise da língua e suas variantes culto e coloquial, já que se trata de uma composição
29Entendemos a discussão sobre a desapropriação de moradores como uma questão cultural por tratar de
elaborada de acordo com o linguajar caipira - fugindo ao padrão das canções, que fazem uso da variante padrão.
Assim, consideramos que, neste caso, a canção possui potencial para a reflexão cultural na perspectiva da reciprocidade. Aprofundando este caso, ao tratar de aspectos relacionados especificamente à língua, podemos elaborar uma nova categoria subjacente à micro-esfera reciprocidade. Desse modo, sugerimos a elaboração da categoria sociolingüística, destinada a abordar questões inerentes ao uso da linguagem, tais como aspectos da variação linguística e oralidade. A elaboração de uma categoria específica dentro da micro-esfera reciprocidade se justifica pelo fato de tratarmos de um contexto de ensino/aprendizagem no qual, portanto, se recorre frequentemente à reflexão sobre o funcionamento da língua estudada.
Passamos à análise de outro momento indicado por um dos observadores pelo trabalho com a micro-esfera reciprocidade. Segundo informação efetuada no relatório de observação, a referenciação à própria cultura por parte dos estudantes aconteceu de modo significativo durante a terceira aula. De acordo com os registros do Portfólio, os alunos se engajaram em falar a respeito de como era o Carnaval em seu país, apresentando eventos culturais correspondentes ao carnaval brasileiro:
Os alunos falam sobre o carnaval em seus países, apresentando as proximidades e diferenças com o carnaval do Brasil. É um momento um pouco tumultuado, pois vários alunos querem dar sua contribuição. Eles falam sobre o carnaval de Barranquilla, tombado como patrimônio nacional, Carnaval das Flores, em Medellin e o Carnaval de Negros e Brancos de Pasto e Popayan.
(Portfólio – Aula 3)
Não somente no registro da aula 3, como também em outros momentos indicados no Portfólio, é possível verificar que os aprendentes recorrem frequentemente a elementos da sua cultura como forma de contribuir para as discussões culturais que surgem em sala de aula. Acreditamos que isso se deva ao processo de ensino/aprendizagem construído ao longo das aulas, pois a PP, desde o início do curso, indagava seus alunos sobre questões relacionadas à língua e à cultura dos mesmos.
Os dados coletados por meio dos Relatórios de observação, do Portfólio das aulas e das gravações de áudio revelam momentos de interação entre a PP e os
aprendentes que envolvem a reflexão de aspectos não apenas da cultura brasileira, como também da cultura dos estudantes. Verificamos que a abordagem da canção no trabalho da cultura se deu ora previamente, isto é, o samba como elemento desencadeador da reflexão cultural, ora posteriormente, como contribuição para as discussões sobre cultura plantadas em sala de aula.
Passamos, a seguir à análise dos dados a fim de responder a segunda questão de pesquisa.
4.2 Segunda questão: quais os posicionamentos e impressões de hispanofalantes