O desenvolvimento deste trabalho científico está baseado na observação e interpretação dos dados produzidos por uma turma de alunos estrangeiros falantes de Espanhol como língua materna em contexto de imersão. Por contexto de imersão, podemos entender como a prática da língua estrangeira no local onde ela é falada oficialmente.
A escolha por falantes de espanhol se deu por dois motivos. O primeiro diz respeito à experiência da PP e seu interesse em seguir trabalhando com esse público. O outro motivo que leva à proposta de organização de uma turma composta exclusivamente por hispanofalantes está relacionado à proximidade entre as línguas Português e Espanhol, que demanda algumas especificidades metodológicas em seu ensino (ALMEIDA FILHO, 1995).
Um total de 29 alunos se inscreveu. Desses, 20 compareceram no primeiro e/ou no segundo dia, podendo-se entender que iniciaram o curso, e 13 o freqüentaram até o final, concluindo assim o curso. Os estudantes são provenientes do Peru (8 alunos), da Colômbia (11 alunos) e do Chile (apenas 1 dos estudantes), conforme dados da tabela abaixo25:
Quadro 3 – Nacionalidade, idade, formação acadêmica e estadia dos estudantes no Brasil Nome26 Nacionalidade Idade
(anos)
Formação Está há quanto tempo no Brasil
Quanto tempo ainda pretende ficar no Brasil
João Colombiano 40 Mestrado em
andamento
1 ano 1 ano
Francisco Peruano 25 Doutorado em
andamento
2 anos 4 anos
Pedro Colombiano 25 Graduação em
andamento
1 mês 7 meses
Roberto Colombiano 22 Graduação em andamento
2 meses 3 meses
25 Os últimos 7 alunos presentes nessa tabela (Carlos, Marina, Teresa, Rosa, Ana, Paulo, Joana)
desistiram do curso.
José Colombiano 28 Mestrado em andamento
2 meses 2 anos
Alexandre Peruano 29 Mestrado em andamento
1 ano e 9 meses 4 anos Amelia Colombiana 21 Graduação em
andamento
3 meses 3 meses
Rita Peruana 35 Doutorado em
andamento
3 anos 2 anos
Angélica Colombiana 26 Mestrado em andamento 1 mês 2 anos Renata Maria Colombiana 42 Graduação concluída 3 anos 2 anos
Marina Peruana 27 Mestrado em
andamento
1 ano 2 anos
Ligia Colombiana 25 Graduação em
andamento
2 meses 2 meses
Arnesto Peruano 25 Doutorado em
andamento
2 anos 4 anos
Carlos Peruano 30 Mestrado em
andamento
1 ano 4 anos
Iolanda Chilena 29 Doutorado em andamento
2 meses 4 anos
Teresa Colombina 25 Mestrado em andamento
1 ano 1 ano e meio
Rosa Peruana 30 Mestrado em
andamento
1 mês 2 anos
Ana Colombiana 25 Mestrado em
andamento
2 meses 4 anos
Paulo Colombiano 30 Doutorado em andamento
3 anos 4 anos
Joana Peruana 31 Doutorado em
andamento
5 meses 1 ano e meio
De acordo com as informações disponibilizadas, todos os estudantes realizam ou realizaram um curso superior e no momento da pesquisa a maioria está realizando pós- graduação. A tabela abaixo apresenta de maneira sucinta a formação dos alunos:
Quadro 4 – Formação acadêmica dos participantes
Formação acadêmica Quantidade de alunos nessa situação
Graduação em andamento 4
Graduação concluída 1
Mestrado em andamento 9
Doutorado em andamento 6
Reconhecemos que os níveis apresentados “mestrado em andamento” e “doutorado em andamento” confirmam que o estudante já tenha concluído uma graduação, o que poderia enquadrá-lo também no nível “graduação concluída”. No entanto, para diferenciação em relação àqueles que realizam uma pós-graduação, o nível “graduação concluída” da tabela acima indica aquelas pessoa que concluíram seu curso superior sem, contudo, seguir seus estudos em pós-graduação.
No momento de aplicação da pesquisa, esses estudantes estavam vivendo na cidade de São Carlos, onde se localiza o “Centro de Referência de ensino de Português como Língua Estrangeira”, ao qual o curso oferecido estava vinculado. Os motivos que os trouxeram ao Brasil variam entre propósitos acadêmicos e acompanhamento de cônjuge, sendo mais comum a presença de alunos na primeira condição. Conforme apresentado no quadro a seguir, o período de estadia no Brasil varia entre dois meses e 6 anos, sendo predominante o período aproximado até 6 meses:
Quanto ao nível de proficiência dos alunos, foi indicado pela PP um público que se encaixasse no nível intermediário de proficiência em língua portuguesa, conforme especificado pelo Manual do Aplicador do Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros (Celpe-Bras – versão 2003):
Certificado Intermediário - conferido ao candidato que evidencia um domínio operacional parcial da língua portuguesa, demonstrando ser capaz de compreender e produzir textos orais e escritos sobre assuntos limitados, em contextos conhecidos e situações do cotidiano, podendo apresentar inadequações e interferências da língua materna e/ou de outra (s) língua (s) estrangeira (s) mais freqüentes em situações desconhecidas. (p. 10)
Reconhecendo a dificuldade em se medir a proficiência em língua estrangeira de um aprendente (LARSEN-FREEMAN; LONG, 1991) e o curto período que dispúnhamos para esse tipo de avaliação, optamos por deixar a critério do próprio estudante a identificação de seu nível de proficiência. Para auxiliá-los, dispusemos via e-mail aos interessados pelo curso as informações contidas no manual do Celpe-bras acerca do que é esperado de um falante de nível intermediário. De acordo com o primeiro questionário, a maioria dos alunos considera seu nível de Português como satisfatório, razoável ou suficiente, conforme indica o gráfico abaixo:
Podemos observar que, mesmo com nuances de opiniões entre razoável, satisfatório e suficiente, a maioria, ou seja, 83,5% dos alunos avaliam positivamente seus conhecimentos em língua portuguesa. Apenas 15,4% dos alunos consideram fracos ou muito fracos seus conhecimentos na língua-alvo. Coincidentemente, esses alunos que avaliaram negativamente seu domínio do Português desistiram do curso logo nas primeiras aulas, conforme veremos.
Dos 20 alunos que iniciaram o curso, 7 nunca haviam assistido aulas de Português anteriormente. Dentre os que já haviam freqüentado, quase 2/3 dos alunos o fizeram quando já estavam instalados no Brasil, em cursos oferecidos pelas universidades presentes na cidade onde eles vivem, conforme tabela seguinte:
Quadro 5 – Experiências prévias dos participantes com aprendizagem formal de Português Nome Já freqüentou curso de Português antes/
Onde Quando Por quanto
tempo Considera seu conhecimento na língua portuguesa
João Sim UFSCar 2010 1 ano Razoável
Francisco Sim UFSCar 2009-2010 2 anos Satisfatório
Pedro Sim Colômbia 2010-2011 4 meses Razoável
Roberto Não - - - Satisfatório
José Sim UFSCar 2008 3 meses Satisfatório
Alexandre Sim USP 2010 3 meses Razoável
Amelia Não - - - Razoável
Rita Sim Peru 2007 1 ano Razoável
Angélica Sim Colômbia 2010 4 meses Razoável
Renata Maria
Sim UFSCar 2008;2010 6 meses Razoável
Marina Sim USP 2010 15 horas Razoável
Ligia Não - - - Razoável
Arnesto Sim UFSCar 2009-2010 2 anos Satisfatório
Carlos Não - - - Muito fraco
Iolanda Sim Chile 2010 6 meses Suficiente
Rosa Não - - - Fraco
Ana Não - - - Razoável
Paulo Não - - - Suficiente
Joana Sim UFSCar 2010 1 mês Muito fraco
O gráfico a seguir apresenta os dados referentes ao período em que eles freqüentaram o curso de língua portuguesa:
Gráfico 3 – Tempo de estudo de Português
Os dados sobre o período de freqüência a um curso de Português e o conhecimento que os alunos declararam ter nessa língua mostram que mesmo que o contato formal com o ensino de língua portuguesa tenha sido inexistente ou curto, isso não impede que eles considerem o conhecimento nessa língua-alvo como favorável. De modo geral, podemos considerar que o domínio do Português que esses alunos possuem advém do contato cotidiano que eles tem com essa língua estando aqui no Brasil, além da proximidade entre as línguas portuguesa e espanhola, permitindo com que eles não se considerem principiantes na língua (Almeida Filho, 1995), embora possuam um curto período de contato com a mesma.
Dos 7 alunos que nunca haviam freqüentado um curso de Português anteriormente, 4 figuram entre os desistentes. Em período posterior ao inicio do curso, a PP entrou em contato com esses alunos para saber os motivos que os levaram a abandonar o curso. Quatro alunos informaram o motivo de sua desistência e três não. No entanto, dentre os três alunos que não retornaram o contato, pudemos saber a causa da falta de um dos participantes por conta de colegas que também freqüentaram o curso. O quadro abaixo apresenta os motivos que levaram os alunos a abandonarem o curso:
Quadro 6 – Motivo de desistência dos participantes
Motivo Número de alunos27
Indisponibilidade de tempo 3
Incompatibilidade de horário 1
Necessidade de um curso voltado à gramática 1
O nível de proficiência do estudante está acima do solicitado 1
Não informado 2
Observamos que o motivo informado da desistência para quase a metade desses alunos foi a indisponibilidade de tempo, e não a dificuldade em acompanhar o curso, conforme poderia ser inferido por conta da inexperiência da maioria com o ensino formal de Português. O curso, que exigia dedicação mínima de quatro horas semanais (conforme apresentaremos a seguir) gerou a impossibilidade de acompanhamento desses pós-graduandos.