A escolha de determinados gêneros de programa, como, por exemplo, telejornais e telenovelas, fazem com que esse tipo de mídia se torne, ao lado da família, da escola, da rua, dos amigos, do trabalho, da igreja, um dos agentes do processo de socialização nas sociedades contemporâneas.
Segundo Bourdieu (2000), os diferentes capitais (econômico, cultural ou social e simbólico), que os agentes sociais adquirem durante a vida, dependem, por exemplo, da aquisição de títulos de propriedade econômica, cultural ou social, ou por herança ou pela condição de classe social. Conforme Bourdieu, “as classes que podemos recortar no espaço social não existem como grupos reais embora expliquem a probabilidade de se constituírem em grupos práticos, famílias, clubes, associações e mesmo “movimentos” sindicais ou políticos”. (idem: 137)
Para esse autor, o mundo social é “um espaço de relações” e, esse mundo é construído e percebido de várias formas, segundo diferentes princípios de visão e de divisão, como, por exemplo, as divisões étnicas. “Assim o mundo
social, por meio, sobretudo, das propriedades e das suas distribuições, tem acesso, na própria objetividade, ao estatuto do sistema simbólico que, à maneira de um sistema de fonemas, se organiza segundo a lógica da diferença, do desvio diferencial, constituído assim em distinção significante”. (ibidem: 144)
Desse modo, o espaço social e as diferenças que nele se desenham “espontaneamente”, tendem a funcionar como espaço de estilos de vida, ou grupos de estilos de vida diferentes. Nesse sentido, os jovens da Vila Embratel, que se reúnem em específico “espaço social”, em determinados grupos, freqüentam um espaço (o Adolescentro e outros), segundo a lógica da diferença, ou seja, “é a diferença inscrita na própria estrutura do espaço social quando percebida segundo as categorias apropriadas a essa estrutura.” (ibidem 144).
As marcas de distinção compõem o capital simbólico, explica Bourdieu: “As distinções, enquanto transfigurações simbólicas das diferenças de fato, e mais geralmente, os níveis, ordens, graus ou quaisquer outras hierarquias simbólicas, são produto de aplicação de esquemas de construção que, como, por exemplo, os pares de adjetivos empregados para enunciar a maior parte dos juízos sociais, são produto da incorporação das estruturas, a que eles se aplicam.” (ibidem: 145)
As relações objetivas de força tendem a reproduzir-se, segundo Bourdieu, nas relações simbólicas de força, nas visões do mundo social que contribuem para a permanência dessas relações de força. Assim, os agentes sociais, no caso, os jovens da Vila Embratel, detêm um poder na proporção do seu capital simbólico, ou seja, na proporção do reconhecimento que recebem de um grupo.
Esses jovens, por sua vez, ocupam uma posição na sociedade (capital social), que, tendo em vista os capitais simbólico e material que acumulam, são legitimados ou reconhecidos pelo grupo ao qual pertencem. Portanto, o jovem não está sujeito a um só agente de socialização, pois, segundo Pais (2001), há uma inter-relação complexa entre ele e os diversos “mundos” em que vive, como, por exemplo, família, escola, rua, trabalho, lazer, a mídia, etc. Todas essas experiências traduzem um conjunto de signos que marcam sua história de vida social e que se baseia em certa característica de identidade com a qual ele se apresenta em sociedade.
Assim é que a televisão também faz parte do processo de socialização, na medida em que ocupa um tempo significativo na vida cotidiana dos jovens. As quatro ou seis horas diárias que assistem à programação televisiva contribuem para a construção do seu capital cultural (informações, conhecimento).
De acordo com Pais (2001), “o processo de socialização acontece nos quotidianos juvenis que rodopiam entre tempos monocromáticos e tempos policromáticos: no primeiro, os jovens desenvolvem relações com instituições onde se faz necessário à atenção com os horários, com a segmentação das atividades, com a pontualidade, com a hierarquia, como por exemplo, a família, as escolas, as igrejas, os espaços profissionais etc., ao mesmo tempo, os jovens estabelecem uma inter-relação com os tempos policromáticos, que tem ênfase na aleatoriedade, nos sentimentos, na experimentação, na conviviabilidade. Esses tempos que se entrecruzam, gerando fluências múltiplas e híbridas, as quais os jovens interagem ou se integrando ou entrando em conflito são vividos nas ruas, nas festas, nos jogos, nos relacionamentos com amigos, namorados, etc.” (idem 71)
Pais recorre à metáfora do ioiô para mostrar como os jovens têm suas trajetórias assinaladas por movimentos oscilatórios e reversíveis. “Perante estruturas sociais cada vez mais fluídas, os jovens sentem a sua vida marcada por crescentes inconstâncias, flutuações, descontinuidades, reversibilidades, movimentos do vaivém: saem da casa dos pais para um dia qualquer voltarem; abandonam os estudos para os retomar depois; encontram um emprego e em qualquer momento se vêem sem ele; suas paixões são como “vôos de borboleta”, sem pouso certo, casam-se, não é certo que seja para toda a vida...” (ibidem: 72)
Assim, os jovens vivem uma condição social em que as setas do tempo linear se cruzam com o enroscamento do tempo cíclico, ou seja “temporalidades velozes, ziguezagueantes, na qual os tempos fortes se cruzam com os fracos e, em ambos, se vivem os chamados contratempos”, lembra Pais (ibidem:9)
Esse mesmo autor afirma que o futuro, para os jovens, se encontra “desfuturizado”, não porque esteja sobre controle, mas porque encontra-se desgovernado pelo princípio da incerteza. Essa incerteza faz com que muitos
jovens mergulhem em um mundo virtual, um refúgio na ilusão, como estratégia de fuga, como os jogos virtuais, e, no caso analisado, há o exemplo dos programas de televisão, as telenovelas, onde os personagens fictícios são vividos como se fossem reais, suas vidas passam a ser incorporadas ao cotidiano dos jovens.
Daí a importância de se compreender o papel do imaginário e das representações sociais, por meio dos quais atores e atrizes sociais tornam presentes suas ações no mundo, reforçando ou reformulando comportamentos e atitudes que podem fazer parte da realidade social em que se inserem, o que vai ser tratado no Capítulo 2.