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. Im age m 7 - Co m pa rt ilh am en Na rc is o & V ir gí ni a, 2015

Nessa perspectiva, a a/r/tografia é totalmente adequada aos meus propósitos, pois se fundamenta nas rupturas e indagações geradoras de novas construções. Isso é muito relevante, pois aqui torno públicos os mecanismos de construção da minha investigação, desde as inda- gações iniciais e conflitos vivenciados no decorrer do trabalho, até o resultado final, num per- curso que me fez repensar minha prática pedagógica e refletir acerca das produções imagéti- cas dispostas nestas páginas. Esse é o caráter reflexivo desta pesquisa.

De início, tive grande dificuldade em traçar meus objetivos. Eram muitos os questio- namentos e me deparei com vários problemas de pesquisa. Queria entender qual era a concep- ção dos educadores de Artes Visuais acerca da disciplina no âmbito do IFPI, quais conteúdos curriculares e métodos de avaliação são utilizados por esses docentes, qual a visão deles sobre currículo e como escolhem os conteúdos ministrados. Todos esses questionamentos me apro- ximaram ainda mais da a/t/ografia. Segundo Irwin, “em uma a/r/tografia, problemas de pes- quisa surgem e mudam com o tempo através de uma perspectiva da pesquisa viva9” (IRWIN et all, 2013, p. 108).

Dos conflitos e dificuldades surgidos ao longo deste trabalho, o mais complexo e difí- cil de contornar foi conciliar os interesses e disponibilidades dos docentes envolvidos no pro- cesso. Muitos encontros foram marcados, desmarcados e remarcados. Os motivos foram vá- rios: os professores trabalham no interior do estado, assim raramente estavam todos nos mes- mos dias em Teresina, pois estavam em seus respectivos campi; minha distância da capital era grande (estava morando em Picos, sul do estado, distante 320km de Teresina); e parte dos membros do grupo tinham outras prioridades.

Concordo com Eça quando ela afirma:

9 Segundo Rita Irwin, na pesquisa viva “educadores se envolvem em investigações educacionais que os ajudam a

estudar assuntos, tópicos e conceitos que influem nas suas aprendizagens, assim como nas maneiras de aprender a aprender. (...) Se trata de estar atento à vida ao longo do tempo, relacionando, sabendo que sempre haverá liga- ções a serem exploradas” (IRWIN, 2013, p. 29). Sendo assim, objetivei desenvolver propostas que evidencias- sem possibilidades de lidar com as relações de poder postas tanto na escola quanto no currículo desenvolvido dentro dela.

Para se pesquisar, é necessário um encontro favorável, um grupo de pessoas que estejam interessadas em partilhar, em discutir, em comungar os proces- sos de tensão que fazem do espírito de indagação, de procura e de insatisfa- ção próprios de quem pesquisa (EÇA, 2013, p. 80).

Os encontros começaram em fevereiro de 2015, mas em maio foram suspensos, mes- mo com o começo da greve dos docentes dos institutos federais10, momento no qual suposta- mente os docentes estariam mais disponíveis por terem diminuído suas viagens às cidades onde se localizam seus campi.

Somente em agosto os encontros recomeçaram, ainda assim muito espaçados. No dia 03 de agosto de 2015, foi marcado um encontro do grupo focal; dos sete professores com pre- sença confirmada, apenas três compareceram.

Em setembro, houve um novo encontro, do qual participaram quatro professores. Dis- cutimos as possibilidades de construção do plano de disciplina, traçamos alguns objetivos e metodologias.

Os encontros aconteciam no campus do IFPI Teresina zona sul11 ou na casa de um dos membros do grupo.

Ao longo de 2014, distanciei-me da minha prática docente em função tanto da greve dos IFs, com duração de 2 meses, quanto da licença de 3 meses concedida pelo IFPI para o cumprimento das disciplinas do mestrado. Esse distanciamento me ajudou a perceber os equí- vocos cometidos por mim no decorrer da minha carreira profissional enquanto professora de Arte, um motivo a mais para trabalhar na perspectiva a/r/tográfica.

Toda essa reflexão acerca da minha atividade docente me levou a pensar na ideia da autopoiesis, minha (re)construção enquanto arte/educadora, pesquisadora e artista. Maturana e Varela, em De máquinas y seres vivos (2003), apresentam o conceito de Autopoiesis como

10 No dia 28 de maio de 2015, foi deflagrada a greve dos docentes no IFPI. Dois meses depois, os servidores

técnicos administrativos também deflagraram greve por tempo indeterminado.

11 Em Teresina existem dois campi: Teresina central (no centro da cidade, sede do IFPI) e Teresina zona sul (na

sendo a capacidade do ser vivo de se autoproduzir: do grego, auto = próprio, e poiesis = cria- ção. Os autores comparam os sistemas vivos a máquinas autopoiéticas:

Una máquina autopoiética es una máquina organizada como un sistema de procesos de producción de componentes concatenados de tal manera que producen componentes que: i) generan los procesos (relaciones) de produc- ción que los producen a través de sus continuas interacciones y transforma- ciones, y ii) constituyen a la máquina como una unidad en el espacio físico (MATURANA e VARELA, 2003, p. 69. Grifo dos autores).

Quer dizer, assim como uma máquina, o sistema vivo opera de maneira organizada, gerando as relações de produção que o constroem em contínuas interações e transformações.

As células são sistemas autopoiéticos de primeira ordem, pois são sistemas autopoiéti- cos moleculares, com limites físicos distintos do restante do sistema, “e participa dos proces- sos metabólicos por constituir a si mesmo e por filtrar seletivamente as moléculas que entram e saem do sistema” (CAPRA, 2005, p. 27). Já os organismos são sistemas autopoiéticos de segunda ordem, pois são sistemas como agregados celulares. Sendo assim, a sociedade é um sistema autopoiético de terceira ordem, pois é o resultado do agregado de organismos auto- poiéticos (MATURANA e VARELA, 2003, p. 18).

Assim como não é possível, na a/r/tografia, separar as identidades “artista”, “profes- sor” e “pesquisador”, na Autopoiese não se separa o produto do produtor, um está inserido no outro. Busquei fazer esta relação ao longo de todo o estudo, pois ao mesmo tempo em que estou colocando em prática as teorias da Pedagogia Libertária (PL), sendo por elas influencia- da, a partir da pesquisa feita por mim, também estou produzindo artisticamente.

Na imagem 10, busquei sistematizar os dois conceitos, e a representação que se confi- gurou foi de uma árvore. Isso me remeteu à ideia de rizoma de Deleuze e Guattari (1995). Segundo os autores, “qualquer ponto do rizoma pode ser conectado a qualquer outro ponto e deve sê-lo” (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 15). A aproximação do conceito de rizoma com esta pesquisa fica ainda mais evidente se pensarmos nas constantes conexões rizomáticas

entre “organizações de poder, ocorrências que remetem às artes, às ciências, às lutas sociais” (p. 16). Segundo o princípio da multiplicidade, um rizoma é composto apenas de linhas, que, mesmo sendo rompidas em qualquer ponto, podem ser retomadas a partir de outra linha – princípio de ruptura a-significante (p. 18). Esse mesmo princípio aproxima o caráter rizomáti- co da dissertação do caráter a/r/tográfico que ela traz:

seguir sempre o rizoma por ruptura, alongar, prolongar, revezar a linha de fuga, fazê-la variar, até produzir a linha mais abstrata e a mais tortuosa, com n dimensões, com direções rompidas (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 20).

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Imagem 9

Conexões rizomáticas: A/r/tografia e Autopoiesis

Fonte: imagem da autora