São poucos os artigos publicados a respeito das características da alimentação dos lactentes brasileiros.
Considerando que as diretrizes da Secretaria do Abastecimento do Município de São Paulo estabelecem que a alimentação deve atender 100% das recomendações nutricionais para crianças que permanecem nas creches por mais de 12 horas diárias, Spinelli et al., (2003), na Freguesia do Ó, no Município de São Paulo estudaram o consumo alimentar de 106 lactentes com idade entre seis e 18 meses. Todas as preparações do desjejum, colação, almoço, lanche e jantar foram pesadas antes de serem oferecidas às crianças. Após as refeições eram pesados os restos. Os principais déficits observados foram de energia e ferro. A estimativa de consumo médio de energia correspondeu a cerca de 58% da recomendação. O consumo de ferro foi de 38,4%, 46,9% e 52,2%, respectivamente, nas faixas de idade de seis a nove meses, nove a 12 meses e 12 a 18 meses. Vale lembrar, que neste estudo não se considerou a quantidade de alimentos consumidos no domicílio, os parâmetros antropométricos e o consumo de sal.
No município do Embu, no entorno da cidade de São Paulo, foi realizado um estudo com lactentes atendidos em unidade básica de saúde para avaliar a relação entre a alimentação e hábito intestinal. Foram estudados 275 lactentes com idade menor do que 24 meses. No primeiro semestre de vida constatou-se que aleitamento natural exclusivo ou predominante reduzia em 4,5 vezes a chance de constipação. Entre os seis e 24 meses, de acordo com o inquérito do dia alimentar habitual, o consumo de fibra alimentar pelos lactentes com ou sem constipação foi semelhante. Constatou-se, ainda, que a ingestão energética e protéica ultrapassava as recomendações. Não foram apresentados valores relativos ao consumo de ferro e sódio, provavelmente, pelo foco do estudo voltar-se para avaliar a relação de consumo de fibra alimentar e constipação (Aguirre et al., 2002).
Medeiros et al., em 2004, compararam a ingestão de nutrientes por 26 crianças com dieta isenta de leite de vaca e derivados por suspeita de alergia ao leite de vaca com 30 controles que recebiam dieta sem exclusões. A
idade média foi, respectivamente, 19,1 ± 8,2 meses e 16,8 ± 7,4 meses. Os lactentes com dieta de exclusão apresentaram menor ingestão de energia, proteínas, carboidratos e cálcio. O consumo mediano de ferro provenientes apenas da dieta foi 9,4 mg e 7,5 mg, respectivamente, nos grupos com dieta de exclusão e dieta normal. Ao se considerar também o ferro oferecido por meio de suplementação medicamentosa estes valores foram, respectivamente,16,3 mg e 8,4 mg. Não foram apresentadas informações quanto ao consumo de sódio.
Fidelis, Osório (2007), em Pernambuco, com o emprego do método recordatório de 24 horas colhidos em domicílio apenas uma vez analisaram o consumo alimentar de nutrientes por 948 crianças menores de cinco anos de idade. Das 948 crianças, 117 encontravam-se com idade entre sete e 11 meses e 570 entre um e três anos. Em relação aos valores das Recomendações Dietéticas Diárias (“Dietary Reference Intake” [DRIs]) observaram que entre os sete e 12 meses, consumo inadequado de energia ocorreu em 26,5% dos lactentes, de proteínas em apenas 6,0%, de ferro em 65,0% e de zinco em 57,3%. Entre um e três anos, inadequação foi encontrada nas seguintes porcentagens de crianças, para os seguintes nutrientes: energia, 41,4%; proteínas, 4,4%; ferro, 23,7% e zinco, 43,7%. Não foi analisado o consumo de sódio.
A Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher, realizada em 2006, também utilizou o método de inquérito alimentar para determinar as características da amamentação (prevalência e tempo, até a primeira amamentação após o nascimento), tipos de alimentos complementares e condições do aleitamento materno (exclusivo, predominante) das crianças brasileiras menores de 59 meses (Brasil, 2008).
A maior parte dos estudos realizados no Brasil e em outros países, sobre alimentação do lactente, baseia-se em dados obtidos por inquéritos alimentares. Outra maneira de avaliar a qualidade da alimentação pode ser realizada pela análise laboratorial de alimentos a serem consumidos por determinados grupos da população. No que se refere a alimentos complementares preparados no domicílio para consumo por lactentes são raros os estudos tanto no exterior como no Brasil.
No exterior, Stordy et al. (1995) analisaram em laboratório, a composição nutricional de 265 refeições infantis preparadas em domicílio, para crianças inglesas entre três a 12 meses de idade e compararam os resultados
com produtos similares industrializados e com os padrões de referência estabelecidos pela comissão da Comunidade Européia.
van den Boom et al. (1997) avaliaram por análise química, nutrientes provenientes de 50 amostras de refeições preparadas em domicílio para lactentes com idades entre sete e oito meses, em Madri, Espanha.
No Brasil, o primeiro estudo foi publicado em 1990, por Dorea
et al., comparando a composição nutricional de leite materno com mamadeiras.
Posteriormente, foram realizados estudos que compararam a qualidade microbiológica e/ou a composição química do conteúdo lácteo de mamadeiras ou alimentos complementares preparados para lactentes.
Na cidade de São Paulo, foi avaliada a qualidade microbiológicas de mamadeiras coletadas em consultórios privados de pediatria e unidades básicas de saúde. Constataram-se elevadas taxas de contaminação por mesófilas, indicadores de manipulação inadequada, e de coliformes, que foram mais intensas no grupo de nível socioeconômico mais baixo. Isolaram-se, também, Escherichia coli, sendo que parcela delas tinham o padrão de adesão agregativa de enteropatogenicidade (Morais, 1993). Do ponto de vista microbiológico, resultados semelhantes foram obtidos no estudo do conteúdo de mamadeiras coletadas em serviço público de saúde em Natal, Rio Grande do Norte (Morais et al. 2005).
Morais e Sigulem (2002) analisaram a composição dos nutrientes das mamadeiras de lactentes de duas classes socioeconômicas em São Paulo, por análise química. Constataram emprego freqüente de leite de vaca integral ao invés de fórmula e a adição freqüente de carboidratos (sacarose ou amido) que elevava de forma expressiva a densidade energética das mamadeiras. As adições foram mais freqüentes na classe socioeconômica mais baixa.
Ribeiro em 2006, em São Paulo, analisou o conteúdo de sódio de refeições caseiras e de alimentos industrializados destinados a lactentes. Níveis elevados de teores de sódio foram encontrados nas refeições caseiras, quando comparados aos valores recomendados pela Comunidade Européia (200 mg/100g). A comparação entre as refeições caseiras e as industrializadas mostrou que as primeiras apresentaram teores de sódio significantemente maiores. Todas as amostras de alimentos industrializados apresentaram teores
de sódio abaixo do limite máximo recomendado. A autora comparou, ainda, nas refeições caseiras, o conteúdo de sódio das refeições preparadas especificamente para as crianças com aquelas adaptadas dos alimentos da família e verificou que as primeiras apresentaram teores de sódio menores que as últimas.
O processo de transição nutricional e a grande mudança na dieta que vem modificando o perfil de saúde dos brasileiros acontecem de forma imperceptível, só sendo explicitadas quando as taxas de sobrepeso ou obesidade atingem quase metade da população de adultos e, por outro lado, a anemia ocorre em mais da metade dos lactentes.
No Pará, não existem informações científicas sobre a alimentação de transição em lactentes subsidiadas por análises químicas que possam revelar a composição de nutrientes. Em função destas considerações e tendo em vista a importância da introdução progressiva de novos alimentos na alimentação infantil, decidiu-se pela realização deste trabalho com a finalidade de verificar, por análise química, a composição dos nutrientes de alimentos de transição preparada no domicílio para o almoço de lactentes. Foi realizada, também, estimativa da ingestão total diária com o emprego de inquérito alimentar. Foram analisadas duas classes socieconômicas para permitir a comparação da alimentação de lactentes de famílias com hábitos alimentares e disponibilidade de alimentos diferentes.
a) Determinar, por análise química, a composição nutricional de macronutrientes, energia, sódio e ferro de alimentos preparados no domicílio para o almoço de crianças menores de 18 meses de idade, comparando dois estratos socioeconômicos da cidade de Belém no Estado do Pará - Amazônia Oriental.
b) Com base nas informações sobre a ingestão alimentar, avaliar o papel quantitativo dos alimentos de transição como fonte de energia, proteína, gordura, ferro e sódio, em relação às recomendações nutricionais, nos dois estratos socioeconômicos.