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A palavra tradição vem do latim traditio, do verbo trans-dare e simboliza doação, entrega, “a transmissão completa, de um lado ao outro, tanto do saber do mestre aos seus discípulos como de uma pessoa ou de um sentimento”

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Ela se constitui, segundo Adriano Rodrigues, em uma “modalidade totalizante da experiência” cuja característica principal está em assimilar as diferentes dimensões ontológicas da vida humana. Por outro lado, a verdade na tradição é, conforme o autor, considerada bela e boa, e por isso “impede a distinção entre a realidade e a sua representação”. Neste sentido, o conhecimento tradicional, “que preside às visões de mundo”, confere legitimidade e dá sentido às ações e discursos do homem viabilizando-os dentro de um determinado grupo ou da comunidade de pertencimento (RODRIGUES, 1997, p. 1).

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Não há autonomia do discurso nem da imagem em relação às coisas que representam. Daí as proibições e os tabús que incidem sobre a designação e o fabrico de imagens de realidades interditas, como é o caso da divindade, do totem, de pessoas ou de objetos sagrados (RODRIGUES, 1997, p. 1).

Na história da humanidade, “o conhecimento tradicional é a forma mais antiga de produção de teorias, experiências, regras e conceitos, isto é, a mais ancestral forma de produzir ciência”. Seu desenvolvimento encontra-se anterior às chamadas sociedades modernas iniciadas no século XVI na Europa, e abrange um enorme campo de conhecimentos próprios ligados a “técnicas de manejo de recursos naturais, métodos de caça e pesca”, costumes alimentares e culturais que englobam teorias mágicas e representações simbólicas e rituais que sobrevivem, em alguns locais, até os dias de hoje (MOREIRA, 2007, p. 33/34). Trata-se, segundo Rodrigues, de “uma sabedoria que abarca a totalidade da experiência do mundo e se transmite através das gerações” (RODRIGUES, 1997, p. 1).

Conforme Neila e Vilela, a tradição encontra-se ligada às chamadas sociedades tradicionais ou pré-modernas que se constituem naquelas de origem ligada ao mundo antigo, no período em que predominavam o absolutismo e as práticas coletivas. Ela era uma sociedade constituída basicamente pelo rural e pela prática agrícola, tendo sido fundamentada pelas leis do sagrado, pelo mito e pela magia tanto no que diz respeito às esferas sociais como às políticas (NEILA & VILELA, 2010, p. 1). Nos dias de hoje, as consideradas sociedades tradicionais (os povos indígenas, os quilombolas e as comunidades locais) ainda guardam semelhança com o modo de vida antigo, tendo como principal característica um sentido de totalidade em que os interesses coletivos se sobressaem aos interesses individuais. Neste sentido, de acordo com Moreira

(...) o que faz um grupo ser identificado como tradicional não é a localidade onde se encontra, ele pode estar em uma unidade de conservação, terra indígena, terra quilombola, (...) num centro urbano, numa feira, nas casas afro-religiosas (...), enfim, não é o local que define quem elas são, mas sim seu modo de vida e as suas formas de estreitar relações com a diversidade biológica, em função de uma dependência que não precisa ser apenas com fins de subsistência, pode ser também material, econômica, cultural, religiosa, espiritual, etc (MOREIRA, 2007, p. 36).

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Dentro deste contexto, a idéia de tradição encontra-se atrelada à idéia de cultura popular derivada de uma construção apresentada por estudiosos que a identificam com os saberes do povo. De acordo com Ortiz (1985), até o século XVI não havia uma separação nítida entre cultura popular e cultura de elite, uma vez que a elite participava dos ritos e festas religiosas do povo, apesar de o contrário não acontecer. No entanto, “pouco a pouco começa a ocorrer o distanciamento entre a cultura de elite e a cultura popular, intensificando o processo de repressão da primeira sobre a última”, isso por motivos políticos, sociais e econômicos a partir do nascimento da era moderna (ORTIZ apud CATENACCI, 2001, p. 1). “Dessa forma, o povo entra no debate moderno e passa a interessar para legitimar a hegemonia burguesa, mas incomoda como o lugar do inculto”. Conforme Vivian Catenacci, a partir do momento em que elas se separam atrela-se a uma identidade burguesa a noção de modernidade e à cultura popular o caráter de tradicional (CATENACCI, 2001, p. 1).

Nos dias de hoje, a tradição encontra-se então relacionada a comunidades, principalmente rurais, e grupos que vivem de acordo com modos populares, através de costumes, práticas sociais, comportamentos, festas e formas de vida baseadas no trabalho coletivo, na solidariedade, na fé e crença de mitos e ritos mágicos. A estrutura cotidiana destes povos tem por base valores morais consolidados pelo tempo dos antigos, reafirmados pela experiência popular nos hábitos, costumes, mas principalmente, por ocasião dos rituais de celebração festiva. Dentro deste contexto, a tradição, segundo Anthony Giddens, funciona como “a cola que une essas instituições pré-modernas” e hoje seu significado encontra-se relacionado ao controle do tempo, numa ligação entre passado, presente e futuro (GIDDENS, 1997, p. 80).

A tradição é uma orientação para o passado, de tal forma que o passado tem uma pesada influência ou, mais precisamente, é constituído para ter pesada influência sobre o presente. Mas, evidentemente, em certo sentido e em qualquer medida, a tradição também diz respeito ao futuro, pois as práticas estabelecidas são utilizadas como uma maneira de se organizar o tempo futuro. O futuro é modelado sem que se tenha necessidade de esculpi-lo como um território separado. A repetição (...) chega a fazer o futuro voltar ao passado, enquanto também aproxima o passado para reconstruir o futuro (GIDDENS, 1997, p. 80).

A partir desta constatação, Giddens interliga a idéia de tradição à de memória coletiva, usando as proposições e a teoria de Halbwachs para melhor definir o conceito. De acordo com o autor, a memória coletiva, assim como a tradição, está ligada à “noção formular de verdade, possui guardiães e, ao contrário do costume, tem uma força de união que combina conteúdo

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moral e emocional” a partir da prática de rituais. Neste sentido, segundo Giddens, tanto o conceito de memória quanto o de tradição “diz respeito à organização do passado em relação ao presente (...) e por isso podemos dizer que a tradição é um meio organizador da memória coletiva”. Através do trabalho dos guardiões da memória e de sua contínua interpretação, a tradição é transmitida ao longo do tempo através das várias gerações, sendo a garantia de sua integridade possível em vista desta interpretação (GIDDENS, 1997, p. 81). 20

De acordo com Giddens, a tradição pode ser considerada “necessariamente ativa e interpretativa” e isso acontece, principalmente, a partir da realização de rituais. Para o autor, o ritual configura-se em algo que dá suporte a tradição, uma vez que a sua forma prática garante a sua preservação. Ao se realizar atos ritualísticos, as comunidades praticantes atualizam a tradição e reforçam a experiência cotidiana e os laços entre os seus membros. Desta maneira, a realização de rituais, segundo o autor, “traz a tradição para a prática” (GIDDENS, 1997, p. 82).

Outro ponto importante a se considerar é o fato de que a tradição possui um conteúdo moral que, segundo Giddens, tem a capacidade de unir os indivíduos através de um “caráter de vinculação”. Segundo o autor, a tradição “representa não apenas o que é feito em uma sociedade, mas o que deve ser feito”, sendo suas bases psíquicas ligadas à afetividade. Neste sentido, há um profundo envolvimento da comunidade e do grupo praticante com os ritos e costumes tradicionais através de uma “influência emocional” que garante a preservação de valores que permitem a conservação das tradições (GIDDENS, 1997). Desta maneira, de acordo com Pollak, a adesão à tradição proporcionada pela memória coletiva se dá pela identificação proporcionada pela afabilidade ao grupo pela rememoração do passado, não pela coerção (POLLAK, 1989).

A referência ao passado serve para manter a coesão dos grupos e das instituições que compõem uma sociedade, para definir seu lugar respectivo, sua complementaridade, mas também as oposições irredutíveis (POLLAK, 1989, p. 9).

A tradição é assim um meio de identidade que segundo Giddens exclui o “outro”, aquele que não participa do ritual e não vivencia a verdade formular:

20 Giddens tem por base o estudo de Halbwachs sobre memória coletiva. De acordo com Giddens, Halbwchs a edita ue o passado o p ese vado, as o ti ua e te e o st uído, te do o o ase o p ese te. Essa e o st uç o pa ial e te i dividual, as, ais fu da e tal e te, so ial ou oletiva Gidde s, , p. 81).

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A identidade é a criação da constância através do tempo, a verdadeira união do passado com um futuro antecipado. Em todas as sociedades, a manutenção da identidade pessoal e sua conexão com identidades sociais mais amplas, é um requisito primordial de segurança ontológica. Esta preocupação psicológica é uma das principais forças que permitem às tradições criarem ligações emocionais tão fortes por parte do crente. As ameaças à integridade das tradições são, muito frequentemente, se não universalmente, experimentadas como ameaças à integridade do eu (GIDDENS, 1997, p. 100).

Assim, acreditamos que a tradição, tal como Nildo Viana

expressa o conjunto de idéias, hábitos, costumes de uma determinada população que é transmitida de uma geração para outra, sendo que seu conteúdo é caracterizado por uma forte ligação com o passado, a afetividade, relações familiares, sendo que em algumas sociedades assumem o caráter de uma convicção, possuindo um forte caráter mobilizador. A tradição é, assim, tanto do ponto de vista da cultura quanto dos costumes, conservadora (...), pois ela visa transmitir e, por conseguinte, conservar, determinados costumes, crenças, idéias, etc (VIANA, 2011, p. 2).

4.1.2- As tradições na sociedade contemporânea: entre a dissolução e a

Benzer Belgeler