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Y. Ö.K DÖKÜMANTASYON MERKEZ Đ TEZ VERĐ FORMU

2. BÖLÜM: OP 90 MĐ MĐNÖR, OP 101 LA MAJÖR, OP 109 MĐ MAJÖR,

2.4 Sonat, Op.109 No.30, Mi Majör

Enquanto no resto da Europa a novela de cavalaria quase deixava de existir, na península ibérica ela floresceu abundantemente ao longo dos séculos XV e XVI. Por quê? O que havia lá que não existia mais no restante do continente? O espírito cavaleiresco faz parte da península ibérica desde o século XII, com o início da conquista do território espanhol dos árabes, que estavam na península desde o século VIII. A reconquista durará até 1492 com a tomada de Granada por Isabel e Fernando da Espanha. Em Portugal, Afonso Henriques iniciou em 1149 a conquista do território. Além disso, esse espírito continuará nas conquistas ultramarinas de ambas as nações. Lê-se n’Os lusíadas esse espírito: “E também as memórias gloriosas/ Daqueles Reis, que foram dilatando/ A Fé, o Império, e as terras viciosas/De África e de Ásia andaram devastando”.188

A epopeia camoniana, por exemplo, tem o modelo greco-romano na estrutura e nos recursos estilísticos, porém o que há realmente é a mentalidade cristã- cavaleiresca medieval ao longo da obra. Vasco da Gama, como qualquer cavaleiro de Artur, luta por Deus, seu rei e sua pátria. Sua coragem, determinação, vontade, fé, perseverança são as de um vassalo feudal, não as de um homem renascentista.

De acordo com Aubrey F. G. Bell, “os portugueses conservaram o seu interesse pelos romances de cavalaria, em que realmente viam um reflexo das suas

187

DELUMEAU, op. cit., p.114.

188

91 próprias façanhas no Oriente.”189 Incluímos ao comentário do crítico inglês, a Espanha, pois toda a Península Ibérica via os seus atos como obra da cavalaria. Várias outras curiosidades colaboram para essa hipótese. O nome Califórnia, por exemplo, é tirado do romance Sergas de Esplandián, um dos romances inspirados em Amadis.190 Esplandián é o filho de Amadis com Oriana, criado por Nasciano, um eremita.

O declínio do romance, de acordo com Krueger191, está ligado ao surgimento de uma nova classe e o quase desaparecimento de outra. A primeira é a burguesia e a segunda, a nobreza feudal. Logo, o romance perdeu a sua função social e passou a ser entretenimento, pois aqueles que tinham o poder econômico e a educação para usufruir não queriam mais saber desse tipo de história, isto é, de reis, cavaleiros, damas, amores, aventuras, castelos nada disso mais interessava a eles. Novos interesses estavam em jogo. A Igreja não era mais única. Os guerreiros viraram profissionais, a cavalaria foi ultrapassada pela infantaria e pela artilharia. O velho mundo ruía e surgia um novo mundo, sem lugar para esse idealismo.

Joseph Campbell chama atenção para o fato de que havia três grandes tradições mitológicas na Europa antes do advento do Cristianismo: greco-romana, celta e germânica. Todas elas têm em comum o “respeito pelo indivíduo, pelo caminho e pelo feitio da cada indivíduo”192, de tal forma que ocorreu ao longo dos séculos XII e XIII a preparação para o humanismo e o antropocentrismo dos séculos XV e XVI. A Igreja tentou mais de uma vez acabar com isso, mas não conseguiu. A

189

BELL, Aubrey F.G. A Literatura Portuguesa (História e Crítica). Lisboa: Imprensa Nacional, 1971. p. 307-8.

190

BURKE, Peter. A Cavalaria no Novo Mundo. In: BURKE, Peter. Variedade de História Cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. p. 201.

191

KRUEGER, op. cit. p. 1-9.

192

92 própria Reforma deixa claro essa noção individualista de crença também. O que Lutero e os outros reformadores fizeram foi trazer Cristo para cada indivíduo.

Quais são as obras antecessoras de Dom Quixote que sobreviveram ao tempo? A respeito da literatura espanhola falaremos a seguir; a respeito da literatura portuguesa, no subcapítulo seguinte. Antes de tratar de Amadis de Gaula, vejamos outras duas obras que são importantes para o desenvolvimento do gênero em Espanha, afinal as duas são obras originais da península, ainda que acusem influência dos romances corteses: Libro Del Caballero Zifar193 e Tirant, Lo Blanc194.

A respeito da primeira, tanto Menenéndez Pelayo195 como Carlos Blanco Aguinaga196 ressaltam a mistura de influências orientais e cavaleirescas. O amor não tem grande importância na obra, ao contrário de outros romances de cavalaria. Há elementos morais, hagiográficos e políticos em sua composição. Carlos Alvar197 também percebe diferentes fontes na composição da obra. Um dos recursos já utilizado aqui é artifício de a história ser traduzida de uma língua para outra. No caso de Zifar, o texto original foi escrito em caldeu e transposto para o latim e deste para o espanhol.198 Um dos lugares comuns do gênero é o fato de o narrador ser sempre o tradutor do texto.

Tirant lo Blanc é visto como um antecessor direto de Dom Quixote no que diz

respeito a ser a obra que “enterrou o romance de cavalaria”199. Na obra “não abunda o fantástico, sendo em numerosos momentos cuidadosamente realista.”200 Pareja

193

GONZÁLEZ, Cristina (Ed). Libro Del Caballero Zifar Madrid: Catedra, 2001.

194

MARTORELL, Joanot. Tirant Lo Blanc. São Paulo: Giordano, 1998.

195

Op. cit. p. 299-320.

196

AGUINAGA, Carlos Blanco; PUÉRTOLAS, Julio Rodríguez; ZAVALA, Iris M. Historia Social de La

Literatura Española (em la lengua castellana). Madrid: Akal, 2000. Vol.1. p. 256-257. 197

ALVAR, Carlos; MAINER, José-Carlos; NAVARRO, Rosa. Breve Historia de la Literatura Española. Madrid: Alianza, 2007. p. 138-140.

198

GONZÁLEZ, op. cit. p 70.

199

LLOSA, op. cit. p. XLVIII.

200

93 considera-a “uma das mais bem conseguidas novelas de cavalaria européias”201, para Menéndez Pelayo é “um dos melhores livros de cavalaria que foi escrito no mundo, para mim o primeiro de todos depois de Amadis, ainda que em um gênero muito diferente.”202 Cervantes o elogia assim: “este é o melhor livro do mundo: aqui os cavaleiros comem, dormem e morrem em suas camas, fazem testamentos antes de morrer, com outras coisas que carecem todos os demais livros deste gênero.”203 O que Cervantes gosta é do desvio operado pela obra de Martorell ao acrescentar ao gênero a verossimilhança.

Ruiz-Domenéc vê na obra de Martorell uma mudança em relação à cavalaria: se antes ela é vista pelo seu caráter militar, agora adquire uma dimensão mais profunda, pois “é um autêntico sistema de valores [...] com poder de mudar o curso dos acontecimentos”204. Martorell escreve Tirant depois da queda de Constantinopla. O sonho dos reis de Portugal e de Espanha sempre foi uma nova Cruzada contra os infiéis. Não é casualidade que Tirant vença o Grão-Turco, seja chamado de novo César e torne-se herdeiro do trono de Constantinopla. Ao contrário de seus sucessores, Tirant morre antes do final da obra e não vê a coroação de seus feitos e de seus esforços.

Carlos Alvar reconhece na obra catalã “um notável avanço técnico na forma de narrar e um elo imprescindível na cadeia que vai desde os primeiros livros de cavalaria até Quixote.”205 Quais são esses avanços? A mistura de diversas fontes já mostra a intertextualidade do gênero. Contudo, uma das grandes introduções a partir de Martorell é o uso de cartas. As personagens trocam-nas ao longo de todo o romance. Essa epistolografia romanesca seguirá de Tirant até Dom Quixote. Por

201

PAREJA, 1992. p. 208.

202

Op. cit, p. 398. (tradução nossa)

203

CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote. São Paulo: publifolha, 1998. p. 71.

204

RUIZ-DOMENÉC, op. cit. p. 92. (tradução nossa)

205

94 meio de cartas paixões são assumidas ou rompidas, batalhas e desafios, propostos, revelações são feitas.

Benzer Belgeler