A 68 KUŞAĞINDA SAĞ – SOL GRUPLAŞMAS
1- Sol, Ortanın Solu ve Kemalizm
Existe, apesar de tudo, um sinal certo e infalível para distinguir a arte verdadeira de sua contrafação; é aquilo que chamamos de contágio artístico. Se um homem, sem nenhum esforço de sua parte, perante a obra de outro homem, experimenta uma emoção que une aquele a outros, que, contemporaneamente, receberiam a mesma impressão, isto significa que a obra diante da qual se encontra é obra de arte. E uma obra pode ser tão bela quanto se queira poética, rica em efeitos e interessante, mas não será obra de arte se não despertar em nós aquela emoção muito particular, a alegria de nos sentirmos em comunhão com o autor e com outros homens em companhia dos quais lemos, contemplamos ou ouvimos a obra em questão. (TOLSTOI, 1994, p. 119).
[...] a arte literária se apresenta com um verdadeiro poder de contágio que a faz facilmente passar do simples capricho individual para um traço de união, em força de ligação entre os homens, sendo capaz, portanto de concorrer para o estabelecimento de uma harmonia entre eles orientada para um ideal imenso em que se soldem as almas aparentemente mais diferentes, reveladas, porém, por ela, como semelhantes no sofrimento da imensa dor de serem humanas (BARRETO, 1956, v. XIII, p. 62).
É possível dizer que Lima foi seriamente “contagiado artisticamente” pela concepção de arte de Leon Tolstói. Para Leon Tolstói, quanto maior o poder de contágio, maior é o poder de comunicação; quanto mais forte a comunicação, mais verdadeira é a arte. Conforme Leon Tolstói, são três as condições básicas que determinam o grau de comunicação da arte: singularidade dos sentimentos expressos, clareza de expressão e sinceridade da emoção transmitida. Essas condições encontram-se presentes na obra barretiana, alguns romances mais, outros, menos, mas sempre presente a preocupação em “contagiar” o leitor. Considerando o número de referências que o escritor Lima Barreto faz dos escritores russos e, em particular, de Leon Tolstói, de sua concepção de arte, parece-nos plausível uma associação da concepção tolstoiana de arte ao projeto literário de Lima Barreto.
De todos os ensinamentos colhidos em Leon Tolstói, a sinceridade, como condição essencial da arte, foi lição jamais esquecida por Lima Barreto. Está presente desde o artigo de apresentação da revista Floreal, em que afirmava não se tratar de “uma revista de escola, de uma publicação de ‘clã’ ou maloca literária” (BARRETO, 1956, v. XIII, p. 181):
Não se destina, pois a Floreal a trazer a público obras que revelem uma estética novíssima e apurada, ela não traz senão nomes dispostos a dizer abnegadamente as suas opiniões sobre tudo o que interessar a nossa sociedade, guardando as conveniências de quem quer ser respeitado.
Desde o princípio da carreira literária, o escritor Lima Barreto mantém firme uma linha norteadora de seu projeto literário, arrolando ideias e concepções que se consolidam
com o passar do tempo. Já, no ano de 1903, Lima Barreto registra, no Diário Íntimo, a intenção de escrever sobre a escravidão negra no Brasil e sua influência na nossa nacionalidade. No mesmo Diário, dois anos mais tarde, encontra-se o registro de seu desejo de produzir uma espécie de “Germinal” (ZOLA, 1885) negro, com o qual introduziria o “negrismo” na literatura brasileira. Em 1909, estreia com Recordações do escrivão Isaías
Caminha, aliás, opção do escritor, pois, nessa época, já possuía o Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá quase pronto, além de outros projetos de romance, inclusive o de Clara dos Anjos, cuja primeira versão data de 1904. Como se vê, há um tema central que perpassa toda
obra barretiana que é a questão do preconceito racial, do qual o escritor sempre se sentiu vítima. Em consequência, aborda o conflito entre as personagens protagonistas e a sociedade com a qual convivem.
Além de ter traçado um objetivo artístico no artigo de apresentação da Revista Floreal, lançada em 1907, que era o de “dizer abnegadamente as suas opiniões sobre tudo o que interessar a nossa sociedade”, Lima Barreto traz a público, características e ideias literárias que serão reforçadas nos escritos da maturidade. Como se constata, em “Amplius”, de 1916, ocasião em que, respondendo às críticas sobre o romance Triste Fim de Policarpo
Quaresma (1915), reafirma seus ideais estético-literários:
Parece-me que o nosso dever de escritores sinceros e honestos é deixar de lado todas as velhas regras, toda a disciplina exterior dos gêneros e aproveitar de cada um deles o que puder e procurar, conforme a inspiração própria, para tentar reformar certas usanças, sugerir dúvidas, levantar julgamentos adormecidos, difundir as nossas grandes e altas emoções em face do mundo e do sofrimento dos homens, para soldar, ligar a humanidade em uma maior, em que caibam todas, pela revelação das almas individuais e do que elas têm de comum e dependente entre si. (BARRETO, 1956, v. V, p. 33).
Para o escritor Lima Barreto, a sinceridade24 e a honestidade são características imprescindíveis a um escritor e intelectual, aliás, ao que tudo indica, ele as praticou ao último grau tanto na vida quanto na ficção. Constata-se, no trecho em destaque, que o escritor propõe
24 Lima Barreto sempre refletiu sobre a sinceridade em seus escritos e via-a como método e como maneira de ser
essencial ao artista. Isto quando de sua visita a José Veríssimo depois que o crítico fez alguns elogios ao “Policarpo Quaresma”. [José Veríssimo] “falou da nossa literatura sem sinceridade, cerebral e artificial. Sempre achei a condição para a obra superior a mais cega e absoluta sinceridade. O jacto interior que a determina é irresistível e o poder de comunicação que transmite à palavra morta é de vivificar. Agora mesmo acabo de ler o Carlyle, Hero Worship, no herói profeta, Maomé, que ele diz ser um sincero, acrescentando: “I should say sincerity, a deep, great, genuine sincerity is the first characteristic of all men in any way heroic”. O Veríssimo disse coisa semelhante, dizendo-nos que a glória dos segundos românticos, do Castro Alves, do Fagundes, do Laurindo, do Casimiro, era imperecível, tinha-se incorporado à sorte da nação, porque eles tinham sido sobretudo sinceros. Concordei, porque me acredito sincero. Sê-lo-ei? Às vezes, penso ser; noutras vezes, não. Eu me amo muito; pelo amor em que me tenho, com certeza amarei os outros”. (BARRETO, 1956, v. XIV, p. 125-126).
uma ruptura com a tradição: “deixar de lado todas as velhas regras”, através de atitudes favoráveis à renovação, que viria a partir de 1922, com a Semana de Arte Moderna. Lima procura estabelecer uma literatura mais próxima do povo, intentando diminuir o distanciamento entre escritor e público, tão comum na virada do século XIX, com o culto ao academicismo aristocrático, mantido através da literatura de Machado de Assis, Coelho Neto, Rui Barbosa, entre outros.
A aproximação entre escritor e público, buscada por Lima Barreto, tinha por finalidade ser lido e compreendido, pois o escritor, ao escrever de forma direta, pretendia tornar o texto literário acessível a um público leitor mais simples, isto é, do povo, para atingir seu objetivo de transformar a sociedade através da arte, ou seja, da literatura. Automaticamente, essa atitude era de confronto com a postura corrente nos meios literários das altas rodas que utilizavam uma linguagem rebuscada, satisfazendo-se com a leitura apenas dos seus pares.
Nessa postura de Lima Barreto, constata-se uma estreita ligação à concepção de arte tolstoiana, pois Leon Tolstói considera que a real função da arte na sociedade é a de instrumento de comunicação e ligação entre os homens. Vejamos:
Toda obra artística obtém o efeito de pôr aqueles que lhe experimentaram o fascínio em comunicação com aquele que foi seu autor e com todos aqueles que, antes ou depois, foram ou serão seus participantes. A arte age como a palavra que serve de ligação entre os homens, transmitindo-lhes o pensamento, lá onde por meio da arte, são comunicados pensamentos e emoções. A peculiaridade deste último meio de intercurso, distinguindo-o do intercurso por meio de palavras, consiste nisso: enquanto por palavras um homem transmite seus pensamentos a um outro, pela arte transmite seus sentimentos. (TOLSTOI, 1994, p. 50).
Na citação acima, expõe-se uma relação – muito próxima – entre o conceito de arte de Lima Barreto e Leon Tolstói, destacando o contágio artístico, a comunicação e ligação entre os homens, características da concepção de arte tolstoiana que servem de embasamento para o projeto literário de Lima Barreto.
Robert A. Oakley, estudioso da obra barretiana, da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, refere-se à associação entre Leon Tolstói e Lima Barreto de forma bastante produtiva. Ao referir-se à concepção de arte de Lima Barreto, assim, manifesta-se Oakley (1998, p. 3): “É a mesma visão da arte autêntica no presente e no futuro oferecida por Tolstói nos capítulos 15-20 de Que é a arte?”. Oakley aponta para o fato de Lima ter sido influenciado também por Thomas Carlyle, autor do ensaio “Os heróis” (1840), que expõe a concepção de arte como sacerdócio, enquanto que para Lima seria “missão quase divina”.
O escritor Lima Barreto, ao colocar em prática uma literatura militante, isto é, engajada nos problemas sociais e, mais, ainda, com os pobres e humilhados da sociedade, opõe-se, não só à classe social dominante, como, também, à ideologia dominante. A condição de tripla marginalidade – racial, social e intelectual – faz com que Lima Barreto exerça uma visão crítica quanto às condições da vida social e cultural do Rio de Janeiro, na Primeira República. Conforme Oakley (1998, p. 6),
[...] a prosa de ficção de Lima Barreto exprime uma tentativa de dramatizar qua artista tolstoiano, o destino do escritor neste mundo, e ao mesmo tempo, o escritor tem a obrigação de cumprir o seu destino carlyleano e tolstoiano de profeta pelo bem da humanidade. Para Lima Barreto, o ato de escrever nach der Wahrheit (à procura da verdade) é o supremo destino do escritor.
Lima Barreto, tal qual Leon Tolstói, volta-se para a cultura popular que encontra expressão não apenas na linguagem – a qual foi fator preponderante para o “estranhamento” que a obra causou no meio literário – mas, também, na música, nas danças, nas formas de reunião social. Beatriz Resende, no artigo “Lima Barreto: a opção pela marginália”, afirma que “A opção de Lima Barreto é por uma retórica despojada do ornamental, uma de bagatelas, representante da marginália, a escrita das feiras e mafuás” (RESENDE, 1983, p. 73). Opção que lhe custou muito, pois, em função disso, o escritor permaneceu em um “inexplicável esquecimento”. Como se vê, Lima Barreto não fugiu ao seu destino. Daí, ao verificar as relações literárias entre Lima Barreto e Leon Tolstói, constata-se que as concepções de arte propagadas pelos escritores, de fato, têm muito em comum, principalmente, no que se refere ao que seja o supremo destino do escritor: a verdade, e sempre a verdade.