Para se alcançar um bom entendimento sobre o tema em análise, deve-se procurar focar uma perspectiva atual desse delito, investigando os motivos que impulsionaram o legislador infraconstitucional pátrio a optar pela expressão lavagem de dinheiro, em detrimento das demais, como, por exemplo, lavagem de capitais ou branqueamento, atentando, para as divergências que pairam sobre tal dicção.
Leciona com precisão, Lilley (2001, p.17), ao afirma que “a lavagem é o método por meio do qual os recursos provenientes do crime são integrados aos sistemas bancários e ao ambiente de negócios do mundo todo”. Para o citado autor, o dinheiro “negro” passa pelo processo de lavagem até embranquecer.9. É através deste processo que a procedência criminosa e a verdadeira identidade dos proprietários desses ativos (lavagem do dinheiro sujo) é transformada de tal forma que os recursos parecem ter origem legítima.
Ainda sobre o processo de lavagem de dinheiro, Lilley (2001, p.17) menciona que “as fortunas criminosamente amealhadas, mantidas em locais e/ou moedas instáveis, são metamorfoseadas em ativos legítimos que passam a ser mantidos em respeitáveis centros financeiros” e sublinha que “dessa forma, as origens dos recursos desaparecem para sempre e os criminosos envolvidos podem colher os frutos de seu (des)honrado esforço”.
A expressão lavagem de dinheiro tem origem nos Estados Unidos da América, a partir do ano de 1920, com a expressão Money laudering, porque algumas lavanderias da cidade de Chicago começaram a ser utilizadas como meios para “alvejar” valores obtidos ilicitamente pela máfia norte-americana.
Insta ressaltar que o termo “lavagem de dinheiro” é uma referência histórica ao gângster americano Al Capone. Nos idos de 1928, referido criminoso comprou uma rede de lavanderias na cidade de Chicago (EUA), e as utilizou como “fachada”, visando legalizar o patrimônio arrecadado por meio de suas atividades ilícitas, dentre elas o comércio de bebidas alcoólicas, proibido na época pela rigorosa Lei Seca que vigorava.
Castellar (2004) informa que a expressão Money laudering vem sendo internacionalmente utilizada para designar a atividade que visa ocultar a procedência ilegal de dinheiro obtido ilicitamente, consoante o motivo que originou seu surgimento; contudo,
9 De onde decorre a esclarecedora denominação francesa blanchiment d’ argent – alvejante de
aponta que tal terminologia recebe críticas no meio jurídico em face da ausência de rigor técnico devido sua origem popular.
Assim, a utilização da terminologia Lavagem de Capitais, por possuir um caráter mais abrangente, mostra-se mais pertinente para tratar do tema, haja vista não se tratar apenas de dinheiro, mas, de bens, direitos e valores oriundos de práticas delitivas. É bem verdade que alguns autores questionam o emprego do termo “lavagem de dinheiro” por considerá-lo um “neologismo” ou um “jargão jornalístico”.
Mas, apesar disso, a literatura jurídica emprega outras denominações, tais como “reintroducción”, “normalização”, “reconversão” e “reciclagem”, (em italiano “riciclaggio”) (CAPARRÓS apud BRAGA, 2010, p. 26). Prado Saldarriga (apud BRAGA, 2010, p. 26) faz referência a “encobrimento financeiro ou impróprio”. Vidales Rodrigues, Orts Berenguer e Gonzáles Cussac (apud BRAGA, 2010, p. 26) utilizam mais usualmente “legitimação de
capitais”. Branco Cordeiro (apud BRAGA, 2010, p. 26) usa “reintegração”, pois, para ele, o
objetivo da atividade é a incorporação do capital no sistema financeiro com características lícitas. Díez Ripollés (apud BRAGA, 2010, p. 26) menciona “regulação”, “reconversão”, “naturalização”, “normalização” complementadas com o enunciado “de capitais de origem
delitiva”. Veja-se que todos os referenciais retrocitados são mencionados por Braga (2010).
Para este autor, a utilização mais realista, e que mais se aproxima da conduta típica, é a de “branqueamento de capitais”, expressão utilizada predominantemente em grande parte da literatura jurídica internacional (2010, p. 26).
Sendo assim, o referido autor aponta para a expressão “branqueamento de capitais” como a mais apropriada para identificar a conduta criminosa que se estuda, deixando, contudo, de utilizá-la, porque “no Brasil este termo foi recusado por sugerir racismo, motivando amplas e improdutivas discussões”. Menciona que o rechaço do termo foi objeto de comentários e de um reconhecimento na Exposição de Motivos 692, de 18.12.1996, fundamentado na postura, de que o vocábulo “lavagem de dinheiro” está incluído no glossário de atividades financeiras e no uso da linguagem popular e, igualmente, é resultado do internacional “Money laundering” (BRAGA 2010, p. 26).
Além das ponderações acima apresentadas, Braga (2010, p. 27), informa outras nomenclaturas utilizadas em outros países, para nominar o delito que se estuda, tais como
lavagem de dinheiro, utilizado na Alemanha (Geldwäsche); lavado de dinero, na Argentina; Geldwäscherei, na Áustria e na Suíça; lavagem de dinheiro, no Brasil e moneylaundering, nos
Por outro lado, destaca o referido autor, a expressão “branqueamento de capitais” é utilizada na Espanha, na França (blanchiment de l’argent) e pelas regiões suíças de fala
francesa (blanchissage de l’argent). Pode-se comprovar ainda que o termo “branqueamento de capitais” é utilizado em Portugal e “reciclaggio” na Itália, entre tantas outras e nos mais
variados idiomas (BRAGA, 2010, p. 27).
Mesmo diante de toda essa gama de expressões, importa ressaltar que tal capital – leia- se bens, direitos ou valores – é ilícito, proveniente de uma infração penal anterior e que, justamente por sua origem delitiva, precisa ser limpo, lavado, alvejado, reciclado, branqueado, normalizado, reconvertido etc., como queiram chamar.
Deste modo, entende-se que o vocábulo “lavagem” é muito bem empregado, haja vista a necessidade de retirar toda sujeira acumulada para a percepção de ditos valores de origem criminosa. Porém, preferível nominar esse crime utilizando-se a expressão “Lavagem de Capitais”, posto, não se tratar apenas de dinheiro, mas, de bens, direitos e valores, obtidos por meio de uma conduta delitiva. Também não é censurável chamar de “branqueamento de capitais”, justamente por esse caráter de tentar alvejar toda a mácula arraigada na origem desses bens.