DÜŞÜNCE YAZILAR
1. ORTA OKULDA ÖĞRETİLEN DÜŞÜNCE YAZISI TÜRLERİ
1.3. SOHBET/SÖYLEŞİ
Não era somente o trabalho que poderia render margens econômicas aos escravos, o furto também, conforme já pontuado por inúmeros historiadores da escravidão brasileira e norte americana260, seria uma possibilidade em aberto. Pelo que evidencia algumas fontes de
informações contemporâneas261, o furto seria uma prática bastante comum; roubava-se
roupas, joias, alimentos, dinheiro, animais de grande e pequeno porte, utensílios domésticos e muito mais.
Apesar dos escravos não furtarem apenas durante as suas desobrigas, optou-se por analisar essa prática pelo fato de termos considerado que ela está estritamente relacionada a uma questão bastante importante para a pesquisa, qual seja, a problemática central deste capítulo, que é a economia independente dos escravos.
O dono daquela venda mencionada anteriormente, José Garcia, afirmou, em seu depoimento, que não conhecia nenhum dos escravos com quem negociara o balaio de feijão, mas é difícil acreditar que ele realmente estava sendo sincero, o mais provável é que estivesse tentando se esquivar da acusação de negociar mercadorias roubadas com escravos, situação bastante comum naquela sociedade.
O Sr. “Domingos de Carvalho Anta, casado, natural da Villa Real de Portugal, de cincoenta e tantos annos de idade, negociante de venda”262, que também foi testemunha nos
Autos sobre o assassinato cometido por Generoso, conhecia muito bem a consequência de negociar mercadorias roubadas com escravos, pois teria sido multado, pela câmara municipal, em trinta mil reis, por ter comprado objetos furtados de escravos263, e seria ainda, em 1862,
260Destaque para: BELIN, Ira e MORGAN, Philip D (coord.). The Slave's Economy: Independent Production by
Slaves in the Americas. Slavery and Abolition, 12:1, maio 1991; GOMES, Flávio dos Santos. A hidra e os pântanos: quilombos e mocambos no Brasil (Séculos XVII - XIX). São Paulo: Cia das Letras, 2007; MACHADO, Maria Helena P. T. Crime e escravidão: trabalho, luta e resistência nas lavouras paulistas - 1830-1888. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987; SLENES, Robert W. Na Senzala uma flor. Esperanças e recordações na formação da família escrava. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
261Especialmente os Códigos de Posturas e os Processos Criminais.
262Autos Crimes. Autora: a Justiça/Réu: Generoso, escravo da Baronesa de Itu. Pasta 79. 1861. Arquivo/Museu
Republicano de Itu/USP, Fl. 9v.
263Processo Crime (Autor - A Justiça; Réu - Vicente, José e Athanasio). Pasta 79, 1862: Arquivo/Museu
indiciado por compra de objetos escravos que estavam aquilombados próximo a Fazenda da Ponte.
No processo relacionado ao Quilombo da Ponte, um dos quilombolas – Athanásio relatou que eles furtarão uma novilha do sitio do buraco, e quatro capadetes do sitio de
Francisco Pereira Mendes Junior, e um outro de João Baptista Pacheco Jordão, e que destes objectos só venderão o cebo da novilha do sitio do buraco a Domingos Anta.264 Apesar de
Anta se defender dizendo que era inocente, uma das testemunhas foi categórica ao afirmar que “é vos geral e muito sabido nesta cidade, que Domingos Anta é useiro e veseiro em negociar com objetos comprados á escravos”.265
Na década seguinte, em fevereiro de 1873, quem caiu nas malhas das autoridades policiais foram Paulo e Severino, respectivamente, escravos de Bento Evaristo de Sampaio e de Estanisláo de Campos, pela acusação do furto de um boi amarelo. O boi foi posto por Severino, com ajuda de Paulo, no Matadouro Público e, por falta de comprador, “depois de quatro ou cinco dias, Severino (...) abrindo o portão do matadouro, soltou o dito boi”. 266 O
saldo material das aventuras não foi nada vantajoso aos envolvidos, visto que, além de não terem conseguido qualquer trocado, Severino acabou sendo pronunciado como incurso no artigo 257 do Código Criminal de 1830, abaixo transcrito, e Paulo, com uma sorte menos desastrosa, foi considerado inocente, já que não havia participado da “subtração do refferido boi”. 267
TITULO III
Dos crimes contra a propriedade
CAPITULO I
FURTO
Art. 257. Tirar a cousa alheia contra a vontade de seu dono, para si, ou para outro. Penas - de prisão com trabalho por dous mezes a quatro annos, e de multa de cinco a vinte por cento do valor furtado. 268
O boi amarelo provavelmente iria acompanhar o arroz, feijão e salada nos pratos de muitos ituanos. Pelo que informa o memorialista Nardy, além do boi, havia o gosto para outros tipos de carne, que poderia ser proveniente da caça ou então criados em quintais,
264Ibid.,Fl. 4f. 265Ibid.,Fl. 22v.
266Autos Crimes (Autor - A Justiça; Réu – Paulo, escravo de Bento Evaristo Sampaio e Severino, escravo de
Estanislao de Campos Pacheco). Pasta 103, 1873: Arquivo/Museu Republicano de Itu/USP, Fl. 8f e v.
267Ibid.
dos quais, destacam-se leitoas, perus, galinhas e frangos269. Deve ter sido estimulado por essa
lógica que um negro que se encontrava fugido após esfaquear o escravo Francisco, de Francisco de Barros Lima em sua chácara, apossou-se de dinheiro, roupas e de “um peru de preto e branco e dous coelhos d´Angola” e foi até a cidade tentar vendê-los.270
FIGURA 35 – ANÚNCIO DE JORNAL
Figura 36 - Em anúncio de escravo fugido de 1874, o autor enuncia entre as características físicas do procurado o fato de que ele possa estar carregando objetos furtados: “entre elles alguns ouro, e roupas finas”. FONTE: O Ytuano, Ano II – 30/04/1874, p. 04).
Nem os espaços sagrados escapavam às estratégias de escravos para conseguirem um benefício material e financeiro por meio da apropriação indébita. O Síndico do Convento São Luiz, em 1859, acusou o escravo Felisberto, que pertencia ao mesmo convento, pelo furto de diversas peças que foram encontradas na casa da costureira Juventina, com quem o escravo, segundo algumas testemunhas, seria amancebado. 271
Atanásio, que fez parte do grupo de escravos estabelecidos no Quilombo da Ponte, parece que foi um personagem de destaque naquele período, pois foi mencionado como protagonista de enredos de outro processo criminal e, mais tarde, ganhou, nas letras do
269NARDY FILHO, Francisco. Comidas. In: NARDY FILHO, Francisco. A cidade de Ytu. V.4, Itu: Editora
Ottoni, 2000, p. 180 e 181.
270Sumario Crime (Autor – A Justiça). Pasta 68, 1857: Museu Republicano - USP - Itu - SP.
271Sumario de Culpa (Autor – Alferes Manoel Joaquim Antunes Russo – Síndico do Convento de São Luiz/ Ré:
memorialista Francisco Nardy Filho, o título de um dos dois mais “famosos quilombolas, que lá pelo meado do século passado [XIX] trouxeram apavorada a população ituana”272. Em uma
carta encaminhada ao presidente da Província, em 6 de agosto de 1862, o Delegado de Polícia de Itu afirmava que Atanasio era o chefe de um grupo de quilombolas e que seria responsável por ocorrências policiais na cidade, dentre as quais, o delegado destaca o de “uma casa dos arrabaldes da Cidade [que foi] arrombada e saqueada”. 273 O que motivou a correspondência
foi um pedido de reforço policial, pois, como destacou o Delegado, há na “cidade quatro policiais que montam a guarda da cadeia, quatro homens que não podem abandonar seu serviço e que prefeririam fazer face a um tigre e não ao célebre Atanasio”274.
A casa arrombada e saqueada a que se refere o delegado pertencia ao boticário Joaquim José Machado. Os objetos que dela haviam sido subtraídos foram encontrados em posse do escravo Bernardo, que estava na casa de “huma mulher na rua da segunda-feira”, quando o delegado Machado e mais pessoas, em posse de um mandado de prisão, foram prendê-lo. Conforme relatou o Tenente Cirurgião Francisco Gabriel de Feitas, que havia participado da prisão, Bernardo “depois de preso confessou que tinha realmente em seu poder alguns objetos roubados, mas que não tinha sido roubado por elle, mas sim pelo preto Athanasio, que depois disse lhe deo tais objetos”275, “na quarta feira atrasada, pelas sete e
meia horas da noite, disendo o mesmo Athanasio para os mandar lavar, (...) estava em companhia de Athanasio, o preto forro Domingos Ferreira. (...) no bolso de um paletol achou um anel de ouro, que o vendera ao mestre José Bumbo por quatro mil réis.” 276 Após a
declaração, o delegado passou o mandado de prisão contra o preto forro Domingos Ferreira.277
Bernardo alegou que Atanasio e Domingos Ferreira bateram a sua porta para lhe entregar um saco de roupas para que lavasse, mas não sabia que eram furtadas, e tendo achando um anel no bolso do paletó, vendeu-o “por quatro mil reis a Jose Bumbo”.278 Já
Domingos se dizia “innocente, nunca roubou cousa alguma”.279 Entretanto, não convenceram
272NARDY FILHO, Francisco. O Quilombola Atanasio. In: NARDY FILHO, Francisco. A cidade de Ytu. V.5,
Itu: Editora Ottoni, 2000, p. 233.
273Ibid.,p. 233. 274Ibid., p. 234.
275Autos Crimes (Autor - A Justiça; Réu – Bernardo, escravo de Casimiro Mercadante. Pasta 79, 1862:
Arquivo/Museu Republicano de Itu/USP, Fl.6v.
276Ibid., Fl.7f. 277Ibid., Fl.9f. 278Ibid., Fl.16f. 279Ibid., Fl.19f.
o delegado, que concluiu que “esta provadissimo é que pelo menos Bernardo e Domingos são cúmplices no crime. Sendo isto certo principalmente a respeito de Bernardo”. 280
Bois, perus, galinhas, coelhos, joias, dinheiro e qualquer objeto passível de comercialização seriam então potencial alvo dos desejos de alguns escravos em sua busca por estabelecer, de forma mais fácil e rápida, e não menos segura, margens econômicas independentes. O grupo de escravos aquilombados na Ponte, por exemplo, utilizavam-se de furtos para manterem seus confortos materiais, que muitas vezes envolvia negociações com outros escravos das fazendas vizinhas e indivíduos livres.
As informações relacionadas a essa modalidade de economia independente dos escravos, em geral, estão circunscritas em documentos gerados no contexto policial, salvo raríssimas exceções, como o anúncio de fuga e alguns textos de memorialistas e viajantes. Como era de se esperar, não foram encontradas referências a acúmulo monetário obtido pelo furto ou roubo em cartas de alforrias e inventários. Entretanto, isso não quer dizer que, alguns escravos que tinham o meio lícito como principal atividade, não tenham em algum momento de suas vidas, recorrido ao furto ou ao roubo para incrementar suas rendas, cujos desvios acabaram passando desapercebido por seus senhores e pela justiça. Pode ser também que os seus senhores tenham resolvido a questão no âmbito privado, sem recorrer às autoridades competentes.
Quem garante que o montante de dinheiro apresentado por algum dos cativos para obter sua alforria mediante indenização não tenha certas quantidades de dinheiro proveniente de qualquer apropriação indébita? Pela natureza do documento, não há pistas que evidenciam essa questão, ficando apenas como uma suposição ou hipótese.
280Ibid., Fl.20v.