MANZONI, Alessandro. Os noivos. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores, 1944. Tradução de Marina de Guaspari. 284 páginas.
No ano de 1944, os Irmãos Pongetti Editores publicam mais uma tradução de I
Promessi Sposi, a terceira em ordem cronológica e a primeira cujo nome do tradutor
aparece. Trata-se da tradução de Marina Guaspari (1893-1964)21, trabalho que gozará de imensa fortuna, como veremos adiante.
A publicação do romance manzoniano integra um projeto maior da Editora Pongetti, a coleção “As 100 Obras Primas da Literatura Universal”, iniciada em 1939 com publicação do romance Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, traduzido por ninguém menos que Machado de Assis. Essa coleção conta ainda com obras como
Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski; O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde; e A mulher de 30 anos, de Honoré de Balzac. Os noivos, de Manzoni, é a quadragésima
sétima publicação do conjunto, como se lê na quarta capa.
Lê-se na capa (em cartolina simples) sobre um fundo vermelho, além do nome da coleção acima descrita, que figura na parte superior, um quadro branco com as principais informações: autor “ALESSANDRO MANZONI”, título da obra “OS NOIVOS” e, abaixo, entre parêntesis, em tamanho muito pequeno, o título original em
21 Sobre a vida e a obra da tradutora Marina Guaspari falaremos adiante, ao tratarmos dos Boletins do Instituto Brasileiros de Estudos Manzonianos; neste caso, a edição de abril-junho 1984, no 14.
italiano “I PROMESSI SPOSI”. Nesse quadro vê-se também o desenho de duas mãos pousadas uma sobre a outra, quiçá uma alusão à união dos consortes. Por fim, na parte inferior do quadro, o crédito à tradutora: “TRADUÇÃO DE MARINA GUASPARI”. Centralizado ao pé da capa, o nome da editora responsável pela edição, “PONGETTI”. Modelo de capa padrão para as obras da coleção.
Genette ensina que “a capa impressa, portanto em papel ou papelão, é um fato bastante recente” (2009, p. 27), ainda mais em se tratando de publicações do nosso lado do Atlântico. E, “uma vez descobertos os recursos da capa, parece que muito depressa começou-se a explorá-la” (Ibidem). De fato, a porta de entrada do livro é passível de receber as mais variadas informações, mas, para o estudioso francês, “obrigatórias são o nome do autor, o título da obra e o selo do editor” (Ibidem). Veremos, especificamente em nosso corpus, as possibilidades que o desenvolvimento tecnológico da imprensa gráfica permitiu.
A segunda capa (interna) contém o nome da obra, “OS NOIVOS”, e a página anterior à página de rosto contém uma sumária biografia do grande lombardo:
Alessandro MANZONI Critico poeta e romancista
Italiano
Nasceu em Milão em 1785 Obras principais: RESSUR-
REIÇÃO — O NOME DE MARIA — NATAL —
(Poemas sacros) ADELCHI — O CONDE DE CARMAGNOLA (Tragédias) O romance “I PROMESSI
SPOSI”, deu-lhe fama Universal Morreu em 1873
(sic) (MANZONI, 1944)
Não obstante a parcimônia das informações biográficas, a edição dos Irmãos Pongetti é a primeira tradução a se preocupar em apresentar dados do autor ao leitor brasileiro.
A página de rosto traz o nome completo do autor “ALESSANDRO MANZONI”, do título da obra “OS NOIVOS” bem como de seu título original entre parênteses “I PROMESSI SPOSI” e o crédito à tradutora: “Tradução de MARINA GUASPARI”. Ao pé da página encontra-se uma informação importante, pelo menos ao que diz respeito ao sucesso de tal publicação, que é o ano de publicação do volume. Foram três edições. Além da primeira de 1944, os Irmãos Pongetti republicaram o romance nos anos de 1950 e 1956 (com nova capa). As últimas informações dizem respeito à Editora responsável pela publicação, “Irmão PONGETTI — Editores” e sua cidade sede, “Rio de Janeiro”.
Antes ainda do início do romance, a tradutora organiza um “preâmbulo” que pode ser dividido em três partes. Na primeira, agradece à Editora a responsabilidade que lhe fora confiada, além de externar o desejo de “apresentar alguns dados sobre a personalidade e a obra de Alessandro Manzoni” (MANZONI, 1944, p. 5). No entanto, decide delegar essa tarefa a outrem, o amigo Victor Wittkowski, poeta alemão que viveu no Brasil entre 1941 e 1947 (KESTLER, 2003, p. 142), já que essa operação resulta em “incontestável vantagem para o leitor” (MANZONI, 1944, p. 5). Para Wittkowski, Manzoni é “o maior escritor moderno da Itália” (Ibidem), produzindo poucas obras, porém de
invulgar madureza e profundidade do conteúdo, beleza da forma, elevação do conceito, religiosidade íntima, vigor não isento de brandura, sentimento casto, que se manifesta mais em atitudes e ações do que por palavras (...). (Ibidem)
Cujo talento, argumenta ainda Wittkowski, não passou despercebido por Goethe, entusiasta e defensor da obra manzoniana em terras germânicas.
Num segundo momento, o preâmbulo segue sob a pena de Wittkowski, que cita trechos dos “Colóquios de Goethe com Eckermann” sobre Manzoni e seu romance. Não obstante a enorme admiração do autor do Fausto por Manzoni, relata a seguinte reserva a seu interlocutor:
— Há pouco eu lhe disse (...) que, neste romance, o historiador favorecia o escritor. Mas agora, no terceiro volume, descubro que o historiador pregou ao poeta uma peça malévola. É quando o senhor Manzoni despe o manto da poesia e por largo trecho, se exibe o historiador inteiramente nu. Ocorre isto numa descrição de guerra, carestia e peste, assuntos de per si antipáticos e que se tornam insuportáveis, numa relação seca e pormenorizada de cronista.
Convém que o tradutor alemão procure não incorrer nessa falta, reduzindo consideravelmente a narração da guerra e da fome, resumindo a da epidemia, deixando só o necessário para enquadrar as personagens. (Idem, pp. 7-8)
Recomendação que a tradutora seguirá de maneira muito mais que fiel, como veremos a seguir. Guaspari, na parte final do preâmbulo, admite não poder acrescentar nada à “autorizada” (Idem, p. 8) fala de Wittkowski — que por um bom período citou o “Colóquio” com as impressões de Goethe sobre o romance —, limitando-se a defender sua decisão de manter “a linguagem simples, mas castiça que Manzoni empresta às suas personagens” (Ibidem). Não há sequer um aceno da tradutora quanto à deliberação de suprimir grandes trechos do romance, bem como o de resumir tantos outros. O conselho de Goethe talvez seja evidente demais para passar despercebido.
A tradução não ignora propriamente a “Introdução”, porém a reduz a um terço em relação à original Manzoniana. E assim o faz com os outros 38 capítulos, resumindo passagens célebres, como as publicações que pretendiam banir os bravi, ou a descrição da peste que assolou Milão, ou até mesmo elidindo completamente alguns trechos, como o “addio, monti” de Lucia, ao fim do oitavo capítulo. Páginas, que para Ettore Caccia, são “la grande prova del Manzoni, o meglio, dell’opera sua. Altre vicende ed altre pagine ci attendono: ma queste sono già le pagine di una conquista definitiva”22 (MANZONI, 1986, p. 258). Para Castagnola, Guaspari “deixou de traduzir, mais ou menos, 250 páginas do original!” (CASTAGNOLA, 1985, p. 50). Omissões que transformam o romance numa simples narrativa de dois jovens, Renzo e Lúcia, e suas peripécias para se casar, pois se veem impedidos por personagens como dom Rodrigo, dom Abbondio, Rábula (Azzecca-garbugli), Griso, Gertrudes, “Milhafre” (Nibbio), e o “inominado”, e acudidos por Inês, frei Cristovão, Tônio, Perpétua, Domingos (Menico), Cardeal Frederico Borromeo, Dona Praxedes, dom Ferrante, dentre outros.
Não obstante as peculiaridades dessa tradução, esta foi ainda reutilizada por outras editoras, como veremos ainda neste capítulo.
22 “a maior prova [do talento poético] de Manzoni, melhor dizendo, de sua obra. Outros eventos e outras