Apesar de os estudos sobre as questões do partexto terem sido abordadas em diferentes obras, pareceu-nos mais adequado à nossa proposta de trabalho eleger um autor que fornecesse apoio à leitura paratextual das obras, sem nos desviar em demasia de nosso objetivo principal. Razão pela qual não teceremos discussões teóricas neste trabalho, mas apresentaremos apenas alguns pontos fundamentais deste estudo de Genette, Paratextos Editoriais, que norteará nossa leitura das obras traduzidas.
De fato, nessa obra publicada originalmente na França em 1987 com o título
Seuils, Genette propõe um estudo das relações transtextuais e define uma dessas
categorias, a paratextualidade. As diversas apresentações em forma de livro nas quais os textos literários se atualizam desde a era moderna são o principal objeto de observação deste trabalho.
Para Genette, desde a invenção do livro moderno, as obras literárias nunca se apresentam como um texto nu; elas vêm cercadas de um aparato que as completam e protegem. Esse aparato é, por vezes, “visível demais para ser percebido” (GENETTE, 2009, quarta capa). Contudo, o aparato paratextual tem não somente a função de revestir o texto literário, mas também o de atuar como uma espécie de manual de leitura, regulando essa atividade às vezes sem que o leitor o saiba.
O aparato paratextual caracteriza-se como o conjunto de textos pelo qual uma obra literária ganha a forma do que hoje se conhece por livro, cercando e prolongando a criação artística. É a forma pela qual a obra se torna presente, garante sua presença no mundo, sua recepção e consumo pelos leitores e, de maneira mais geral, pelo público. Trata-se de uma “zona indecisa entre o dentro e o fora, sem limite rigoroso, nem para o interior, nem para o exterior (...), franja do texto impresso que, na realidade, comanda toda a leitura” (Idem, p. 10). Fronteira tênue de transição, mas também de transação, lugar privilegiado para a função pragmática e estratégica de guiar a leitura.
A própria etimologia do neologismo criado por Genette — e que havia cunhado em uma obra anterior, Palimpsestes, de 1981 — elucida o modo como esse elemento atua ao lado, mas também ao mesmo tempo que o texto dito principal. Formada pela junção do prefixo para à palavra texto, Genette utiliza a definição que J. Hillis-Miller dera alhures desse afixo:
Para é um prefixo antitético que designa ao mesmo tempo a
proximidade e a distância, a semelhança e a diferença, a interioridade e a exterioridade [...], uma coisa que se situa ao mesmo tempo e aquém e além de uma fronteira, de um limiar ou de uma margem, de estatuto igual e, no entanto, secundário, subsidiário, subordinado, como um convidado para seu anfitrião, um escravo para seu senhor. Uma coisa em para não está somente e ao mesmo tempo dos dois lados da fronteira que separa o interior do exterior: ela é também a própria fronteira, a tela que se torna membrana permeável entre o dentro e o fora. Ela opera sua confusão, deixando entrar o exterior e sair o interior, ela os divide e une (“The Critic as Host”,
Deconstruction and Criticism, New York, The Seabury Press, 1979, p.
219). (Idem, p. 9)
Convertendo-se, por conseguinte, numa descrição da atividade exercida pelo paratexto. Os elementos que compõem o paratexto, enquanto mensagens materializadas precisam necessariamente de um espaço para se atualizar, que se define seja em relação, seja por oposição ao texto literário propriamente dito. A partir dessa constatação,
Genette divide o paratexto em duas formas de distintas de materializações. A primeira, com base nessa relação espacial, batizada de peritexto, ou seja, aparatos paratextuais que convivem com a obra, dividindo o mesmo volume, como o título, o prefácio, as notas ou a lombada. Ainda que mantenha uma relação estreita com o texto, a segunda forma de paratexto é denominada de epitexto, já que costumam guardar uma distância física maior do texto principal, como é o caso de resenhas, entrevistas, anúncios, artigos (Idem, p. 12). Interessa-nos, por ora, a primeira dessas modalidades paratextuais que será melhor exemplificada e debatida ao longo deste segundo capítulo.
Genette tece uma grande taxonomia das formas pelas quais os elementos paratextuais se presentificam, como a capa (e demais elementos da feição física do volume, como a lombada, a quarta capa e a folha de rosto), o nome do autor, título da obra, dedicatórias, epígrafes, prefácios e posfácios, os títulos internos, as notas, bem como suas funções. Ainda que extensa, a lista não pretende ser exaustiva, e é possível também que existam funções não abordadas pela obra de Genette para cada um desses elementos paratextuais.
A existência dos elementos paratextuais pode ser observada tanto do ponto de vista espacial quanto temporal. Nesse sentido, Genette esclarece que existem aparatos textuais anteriores à obra, como panfletos, anúncios, matérias em jornais e revistas; há também contemporâneos (os mais frequentes), intimamente ligados ao texto; ou até mesmo posteriores, graças a uma reedição, por exemplo. Mas se um elemento paratextual pode surgir a qualquer momento, o contrário também é verdadeiro, já que podem “desaparecer, definitivamente ou não, por decisão do autor ou por intervenção alheia, ou em virtude do desgaste do tempo” (Idem, p. 13), fenômenos que pudemos observar em nosso corpus, como veremos a seguir. Para Genette, a “duração” (Ibidem) de um elemento do paratexto, processo que pode constar de seu surgimento, possível supressão e reaparição (ou não) posterior, evidencia fortemente seu caráter essencialmente funcional.
O paratexto manifesta-se seja na forma textual, ou mais especificamente verbal, como títulos ou prefácios, seja não verbal, como as ilustrações, as escolhas tipográficas, a feição material, “elementos por vezes muito significativos na composição do livro” (Idem, p. 14). Além de outros elementos integrantes do volume que têm certo peso em sua recepção, como a pertença a uma coleção, obtenção de prêmio literário, indicação
genérica, menção de preço, etc, os quais contribuem para “um efeito de ‘notoriedade pública’” (Idem, p. 15).
As características pragmáticas dos elementos paratextuais possuem gradações que vão da mera informação, como nome do autor ou data de publicação, às mensagens dotadas de verdadeira força ilocutória, como o fato de pertencer a determinada coleção ou indicação genérica, o que extrapola a simples informação, convertendo-se em instruções, por vezes coercitivas que dirigem e condicionam a leitura. Mas o paratexto, por maior que seja o investimento na mensagem ilocutória, estará sempre subordinado ao texto e sua função é servir-lhe de suporte. Sua conduta (e duração, como vimos há pouco) depende de sua funcionalidade, obviamente diversa para cada fim, como a do título, que é diferente da do prefácio, por exemplo.
Nesse sentido, Genette trata de todos os aspectos da compleição material dos livros editados (e reeditados) e suas implicações enquanto produto de consumo e recepção pública, da escolha dos materiais e formatos, elementos técnicos que possuem valor propriamente paratextual, passando aos efeitos que o pertencimento a determinada “coleção” ou “selo” sugerem, assim como o “perfil” desejado por iniciativas editoriais de diversa ordem. Discorre também sobre a função da capa e outros espaços que costumam receber investimento paratextual, elencando as múltiplas possibilidades de informação costumeiramente neles contidos.
Ao longo deste segundo capítulo seguiremos tratando dos conceitos contidos na obra Paratextos editoriais, de Gérard Genette, à medida que os elementos paratextuais nela descritos surjam em nosso material de análise, exigindo uma apreciação mais detida.