de bem aquele cujo elemento de recebimento e elemento recebido estejam unidos; como, por exemplo: os olhos e o encanto, o palato e a romã, e assim por diante. Por esta razão, adequadamente dizemos que o prazer é um bem somente quando ele nasce de ambas as partes, quase como de dois pais: a alma e o corpo recebem, e as coisas externas são recebidas.
XXXII. (1) Creio que já lidamos o suficiente com as coisas externas que afetam o
corpo. E com relação àquelas concernentes à alma, elas já foram mencionadas: a nobreza, as relações matrimoniais, o poder, os magistrados e outras semelhantes; embora algumas
126 Dejanira, terceira esposa de Hércules, foi responsável pela sua morte ao fazê-lo usar uma túnica embebida com o sangue do centauro Nesso.
112 destas promovam prazer ao corpo. Não planejo lidar com essas extensamente porque elas procedem não tanto da Natureza quanto dos homens, como também os bens da alma: habilidades, ciência e a instrução127. Nós, entretanto, estamos lidando com a providência e a sabedoria da Natureza, a qual, como eu mostrei, criou tantas coisas apenas com o intuito de que nós as desfrutássemos.
XXXIII. (1) Além disso, aquelas quatro qualidades chamadas “virtudes”, que tu desonras com o nome de “honestidade”, e sobre as quais vós [estóicos] reivindicastes para vós próprios, dada a vossa usual arrogância, chegam a um fim nem um pouco diferente do que acabamos de mencionar. Eu não concedo, com certeza, que as fontes das virtudes sejam exatamente quatro, nem que existam apenas quatro disposições das emoções ou paixões, assunto sobre o qual devemos discutir uma outra hora, dado que, no momento, esse assunto não é de nenhum interesse. A prudência (algo tão óbvio que tocarei de modo breve) consiste em saber como buscar vantagens para si e evitar aquilo que é desagradável. Ênio sabiamente diz que a sabedoria de um sábio incapaz de ajudar a si mesmo é inútil128. A continência consiste em abster-se de um prazer a fim de usufruir prazeres maiores e em maior número. Ofereço alguns exemplos de comportamentos contrários às virtudes, com o objetivo de esclarecer sobre esse assunto. Já se escreveu sobre Marco Antônio que ele não conseguia abster-se da companhia de Cleópatra até mesmo quando estava a caminho da batalha e que, talvez, por essa razão, tenha sido derrotado. Pois, foi ela de fato quem dera a todos o exemplo da fuga: ele, para seguir o seu amor que fugia, deu as costas, antes mesmo do início do ataque - o que é um sinal de covardia e foi a causa da derrocada do império. (2) A justiça consiste em combinar benevolência, favores e vantagens para si mesmo entre os mortais. Por isso, os generais, que após a vitória não dividem os espólios com suas tropas, são ou abandonados, ou (com mais frequencia) punidos com a morte, como já vimos ocorrer muitas vezes. Logo, é melhor preservar a justiça e prevenir-se desses acontecimentos. A temperança, que alguns excluem do grupo das quatro virtudes, é, a meu ver, nada mais do que um modo de conciliar autoridade e benevolência entre os homens;
127 Os três conceitos elencados fazem referecia às três faculdades, que podem ser entendidas como aquelas realizadas por um artesão (“artificium”), pelo intelecto (“scientia”) e o aprendizado pela repetição (“disciplina”), respectivamente.
113 como, por exemplo: não ser desagradável na voz, na compostura, nos gestos, no andar e no vestir-se.
XXXIV. (1) Agora vós possuís uma clara e breve definição das virtudes, entre as
quais o prazer não será como o dito pelos estóicos, os mais abusivos dos homens - uma prostituta entre castas esposas -, mas antes uma soberana entre seus servos. Sentada sobre seu trono e dispondo-se de seu ministério, ela ordenará a um para que se apresse, a outro para que retorne, àquele para que fique e a este, para que aguarde.
XXXV. (1) Sendo assim, tu não tens razão nenhuma de repreender-me por
combinar os seguintes problemas postos pelas duas afirmações: coisas desonestas são amadas, e o são ainda mais por serem desonestas. Podes chamar de “desonestas”, ou como preferires, contanto que esteja claro que a palavra em si não tem absolutamente nenhuma relação com a coisa em si, como demonstrarei mais claramente a seguir. Tu relataste muitos exemplos e, por isso, não é razoável que eu lide com todos. Mas, ao menos uma coisa deve ser mantida aqui: todos os atos feitos por essas pessoas que tu enumeraste, foram feitos apenas por prazer; coisa que nem ao menos tu o podes negar. E para provar, digo que a única tarefa designada pela natureza aos seres vivos é a de conservarem as suas vidas e seus corpos, e evitarem o que lhes parecer perigoso. Oras, o que preserva a vida melhor do que o prazer? Isto é válido para o gosto, a visão, a audição, o olfato e o tato, sem os quais não poderíamos viver. No entanto, somos capazes de viver sem a honestidade. Assim sendo, se alguém tratar de maneira dura e incorreta qualquer um desses sentidos, estará agindo contra a Natureza e seu próprio benefício.
XXXVI. (1) Que um prazer, fora do habitual, seja algumas vezes prazeroso, não
pode ser usado para levantar dúvidas, nem para espantar, pois nada agrada mais que a variedade e a raridade. Como exemplos de variedade, temos: sentar, estar, andar, deitar, correr e exercitar os músculos com movimentos diversos, pois não conseguimos suportar nenhum por muito tempo. O mesmo vale para as comidas, das quais às vezes exigimos um gosto doce, outras, um azedo; umas vezes algo molhado, outras, algo seco; “às vezes algo gordo, outras, algo magro” - como Plauto129 dizia -, e o mesmo ocorre com todas as outras coisas. A raridade possui uma força tal, que nos apressamos mais em ver um nascimento monstruoso do que o de uma criança normal, uma execução em vez de um sacrifício, um
114 truque de mágica em vez de bodas de casamento. E por quê ? Porque as últimas são modalidades de circunstâncias diárias, de fácil alcance e que podemos ver quando quisermos, enquanto que as primeiras podemos perder a chande de vê-las se não agarrarmos a oportunidade quando ela nos é oferecida.
XXXVII. (1) Mas, tu podes dizer: “Se a variedade e a raridade aprazem-te tanto,
se tu medes tudo pelo prazer que algo te proporcionas e ages apenas coforme ao teu próprio interesse, e não pelos dos outros, então, tu cobiçarias a esposa, a irmã ou a filha de alguém, mesmo se ele fosse teu amigo ou parenteς”. Se eu não pudesse agir diferente, eu agiria desse modo. Eu não quero ser despedaçado pelo desejo, definhar e, talvez, até morrer de desejo. Mas, tu responderias: „Tu poderás agir diferente se induzires o teu ânimo a isto, até o ponto de abster-te inteiramente do coito”. Eu poderia, se eu quisesse, comer só uma vez ao dia, dormir muito pouco e deixar os meus cabelos e a barba crescerem naturalmente. Mas estes são os hábitos dos estóicos, não os meus. Se examinares bem tudo o que eu poderia fazer, descobririas também que eu poderia até mesmo me matar. E não faria diferença nenhuma se eu morresse por amor ou pela espada. Agora, eu te pergunto: se uma mulher me agrada e eu a agrado, por que tu deverias tentar separar-nos, colocando-te entre nós? Separa aqueles que estão em discordância e que agridem-se uns aos outros, e não aqueles que estão em harmonia e se gostam.
XXXVIII. (1) E se cometesses adultério? Que palavra odiosa! Por que devemos
atacar os adúlteros, se nos agrada observar a natureza? Não há absolutamente nenhuma diferença entre a consumação de uma mulher e o seu marido, ou com o seu amante. Exclui a diferença criada por aquela palavra perversa chamada conúbio e terás transformado o conúbio e o adultério no mesmo. O que mais acontece, quer seja chamado de conúbio, união ou casamento, senão que uma mulher se una a um homem ou se torne mãe junto a seu marido? Essas coisas podem ser oferecidas às mulheres por um outro homem, que não o seu esposo. E o que mais “marido” quer dizer senão um “homem”? Oras, o adúltero também não é um homem? Sê cuidadoso para que ele, talvez, não seja mais homem do que o parceiro oficial.
XXXIX. (1) Entretanto, se fosse possível viver de acordo com a forma platônica,
aquelas mulheres charmosas não pertenceriam privadamente à certas pessoas, quase tiranas, eu diria, mas sim ao Estado; ou seja, seriam de todas as pessoas, indiscriminadamente, e,
115 nós e elas, teríamos permissão para desfrutarmos da benevolência uns dos outros. Portanto, existiria apenas uma única cidade, um único governo, um único matrimônio e, praticamente, um único lar e uma única família. Quem se enraiveceria por me surpreender nos braços de sua irmã ou filha, se ele também as reconhecesse como minha mulher e de todos os demais? Por outro lado, nenhum outro poderia reclamar como esposa nem sua irmã, nem sua filha. E mesmo se elas fossem virgens, ninguém se zangaria comigo se, por ventura, surpreendesse-me abraçando sua irmã ou sua filha, uma vez que o mesmo direito fora concedido a ele com as filhas e as irmãs dos outros. Seria perfeitamente justo que os primeiros favores de uma virgem fossem concedidos ao primeiro que ganhara o seu agrado e obtivera esta recompensa por sua livre e própria escolha. Deveríamos nos submeter apenas à esta lei platônica, e não à lei juliana130!
XL. (1) Mas, por que disse platônica? Deveria dizer, preferivelmente, lei da
natureza. A lei juliana foi escrita, esta é inata. Aquela, nós aprendemos, aceitamos e examinamos; esta, rapidamente nos atemos, absorvemos e externamente a manifestamos por nossa própria natureza. Por aquela fomos instruídos; por esta fomos criados. Por aquela fomos governados, por esta fomos formados. Finalmente, a primeira é uma lei civil; a segunda é uma lei natural que muitas pessoas sábias, em minha opinião, observam.
XLI. (1) Se também nós a observássemos, muitas guerras não teriam sido
provocadas, como vemos. Certamente, se Menelau tivesse sido indulgente com o ardente Páris, concedendo-lhe Helena por um mês ao menos – e eu não o digo por solidariedade, mas por majestosa generosidade –, nem Páris teria sido impelido a raptá-la, nem a destruição teria acometido tantos heróis ilustres da Grécia e de Tróia, como a própria Tróia. Quão pouco, ó Menelau, tal generosidade não teria poupado de sua casa! Não há benevolência que valha pouco. Por que a discrição deveria impedir-me de proferir a verdade? Mesmo se milhares a receberem, ela nunca se consome por inteiro. Porém, tu, ainda foste pego pelo erro dos outros, não havendo nenhum exemplo precedente. Não querias que tuas posses privadas se tornassem públicas. Nosso professor Platão ainda não havia caído do céu mas, talvez, se Páris tivesse pedido, tu lhe terias cedido por um mês ou mais. Por Hércules, creio que sim! Conheço bem a ti e à tua casa, conheço bem a
130 A lex Julia de adulteriis, a severa lei sobre o adultério, proscrita sob o Império Romano de Augusto em cerca de 17 d.c.
116 generosidade de toda a tua linhagem. Portanto, agiste com justiça e coragem ao teres exigido por meio das armas o que lhe fora roubado, tomando para si tudo o que era de Páris, que não estava disposto a dividir contigo o que teria abundantemente satisfeito aos dois.
XLII. (1) Mas, tu dirás: “Porque a condição é esta, os maridos perseguem os
adúlteros com hostil intenção. Não te retrairías o medo da punição e da vingança dos maridosς”. Eu entendo e, por isso, empregarei adequadamente prudência e continência em iguais proporções e não me portarei de modo a por em risco o que é de confiança e seguro por conta de coisas incertas e desconhecidas; como aquele famoso rato do campo, em Esopo e Horácio131, que veio a ter um bom entendimento desse princípio. Tendo crescido familiarizado com os perigos urbanos, ele preferiu a vida rústica a viver na cidade. Os homens imprudentes agem do mesmo modo em todas as outras circunstâncias. Por esta razão, não devo me fartar de comida até o ponto de sofrer indigestão; nem devo tomar muito vinho até o ponto de cair adormecido sem poder me mover, como aqueles que chamamos pelo nome de “beberrão” 132 e que retornam de um banquete quase semimortos, como se viessem de uma batalha, não caminhando pelos próprios pés, mas carregados por outros. Epicuro justamente elogiava a frugalidade com o propósito de aumentar o sentido do prazer de comer e também declarava que o melhor tempero para a comida era a fome, e para a bebida, a sede133.
(2) Mas, tu: “Porém, nem sempre conseguimos evitar o perigo, como ocorre, às
vezes, de casos adúlteros serem descobertos”.
Por que não dás o mesmo conselho a outros homens? Ao general, para que não apronte as suas tropas por medo de uma derrota na guerra; ao marinheiro, não ir para o mar por medo de um naufrágio; ou até a vós mesmos, que sofreis inúmeros riscos mortais na luta pela dignidade, pela glória e, se a verdade deve ser dita, pela honra; até o ponto em que, pelo bem destas coisas que mencionei, muitos foram destruídos; mais do que pela causa do prazer. Tal é evidenciado, em parte, pela tua própria confissão quando disseste
131 Horácio, Sátiras, II, 6, 80.
132 Ver asoti in ThLl: Cícero, Fin, II, 23, 3: “Nihil haberem, quod reprehenderem, si finitas cupiditates
haberent'? hoc est dicere: 'Non reprehenderem asotos, si non essent asoti”; id, 30, 15: “luxuriam non
reprehendit, modo sit vacua infinita cupiditate et timore. hoc loco discipulos quaerere videtur, ut, qui asoti esse velint”; Aulo Gélio, NA, X, 17, 3, 3: “plurimum asotiamque adulescentis uiri deplorantis”.
117 que muitas pessoas foram desgraçadas por seguirem as virtudes e, por outra parte, pela evidência histórica. Pois, se os romanos participaram de tantas guerras em nome de sua honra, vê quantas derrotas a honra produziu.
(3) “E se um adúltero for punido com a morte ou alguma outra penalidade?”. Então, este estará pagando pela sua falta de prudência e não pela violação. Assim como um general que é capturado por imprudência, ou um marinheiro cujo navio encalha numa rocha. Eu não perdôo tais pessoas, ao contrário, acuso-as de insensatez. Mas: uma coisa é condenar um homem à morte por conta de sua insensatez; outra, completamente diferente, é acusá-lo por adultério.
Finalmente, para obter o resto dos prazeres aqui descritos, os perigos que revelaste não devem ser temidos nem mesmo quando lidamos com as mulheres; exceto aquelas rodeadas por um muro e um fosso para que não possamos facilmente aproximar-nos. No entanto, aqueles que procuram por mulheres com diligência e regularidade, como zelosos caçadores, encontrarão uma infinidade de outras mulheres.
(4) Percebo que falei por tempo demais sobre algo não relacionado ao meu
argumento. Qual é o sentido em disputar a noção de perigo, quando o perigo, ele mesmo, auxilia o nosso lado do argumento? Qualquer um que se exponha ao perigo será criticado, não por ti, que segues a virtude, mas por nós, que seguimos a utilidade. Permite-nos conceder-te um outro argumento. Poderias dizer: “Mas, o prazer é muitas vezes a causa de males. Por causa do prazer, muitas vezes ficamos doentes, não conseguimos nos recuperar e até mesmo morremos”. (5) Estás errado! Acredita em mim, estás errado. Para alguém que sofre de febre, por exemplo, o que é prejudicial não é o prazer contido no ato de beber água gelada, mas sim a qualidade da água, mesmo sem o prazer. Eu me lembro de algumas vezes tê-la bebido sem o menor prazer porque, às vezes, a água disponível é desagradável. E também me lembro que uma água deliciosa, bebida para me saciar, com muito prazer, contra as recomendações do médico e no calor da febre, fez-me melhorar e, por isso, nenhuma culpa pode ser atribuída ao agradável gosto da água. Assim, concluímos que todo o tipo de prazer é bom.
- XLIII. (1) Finalmente, não deverei preocupar-me com nada e, enquanto entrego-
118 sacerdotisas e virgens sagradas, às quais nem Ovídio ousou deflorar? Ele, em seu discurso sobre como dominar as mulheres casadas, disse:
Mantenham-se longe, oh cintas estreitas, emblemas do pudor virginal, e tu também, ó saia larga que parcialmente cobre as pernas134.
- Não me indago por que Ovídio expressou-se dessa maneira, embora, na minha opinião, ele pensasse completamente diferente do modo como falara. (2) Eu, de minha parte, (vede com que liberdade, ou melhor, com que licença poética eu respondo) assumo esta posição: aquele que inventou as virgens sagradas introduziu no Estado um costume abominável e que deve ser extirpado de todos os lugares da terra, ainda que muitas pessoas atribuam o nome de religião ao que é na verdade uma superstição. Mesmo que chamem a essas virgens de sacedotisas e sagradas; mesmo que eles tragam a este assunto a autoridade de Pitágoras, cuja filha, de acordo com Timeu, foi a líder de um grupo de virgens135; ou a de Diodoro, o socrático, cujas cinco filhas, dada a admiração de sua castidade, eram recordadas por Fílon136, o professor de Carneades137, em sua história. Em suma, penso que as cortesãs e prostitutas merecem mais da humanidade do que as virgens sagradas e continentes.
XLIV. (1) Como acontece na maior parte das vezes, esta superstição, como eu a
chamo, partiu de nós e não das mulheres. Elas nunca teriam criado tal coisa. Em muitos assuntos, elas são mais sábias e têm melhor julgamento que os homens, o que é motivo de vergonha para nós. Elas sempre desaprovaram essa superstição e, seguramente, esta fora criada só para lhes prejudicar. Acredito que foram velhos de sangue exausto, cuja força, já extenuada, congelara em seus corpos; ou homens frios de natureza; ou, o que é mais provável, pobres e avarentos, os quais, não podendo ou não querendo desembolsar um dote, inventaram tal vaidade e inventaram uma deusa para presidir as virgens. Para alguns, esta é
134 Ovídio, Ars amatoria (A arte de amar), I, 31-32. 135 Timeu de Locros, cf. Platão, Timeu.
136 Fílon de Larissa (159ac. - 83ac.), filósofo grego, aluno de Clitômaco, o cético, a quem sucedeu como mestre na Academia de Atenas. Também foi professor de Cícero.
137 Carneades de Cirene (214ac. - 129ac.), filósofo grego, representante da corrente estóica. Foi chefe da Adacemia de Platão. É provável que esta errônea atribuição de Fílon de Larissa como mestre de Carneades tenha sido derivada de uma passagem de São Jerônimo, Adv. Iovinian. I, 42 (NE, cf. G. Radetti, nota 2, p. 71).
119 Minerva ou Diana; para os nossos, Vesta. Quão melhor Vênus e Cupido as teriam governado! Acredito que esse costume não fora inventado por nossos antecessores, mas trazido de fora por eles. Aceita-se de boa vontade os costumes que são convenientes, motivo pelo qual podemos exclamar como Terêncio:
Vede o que a avareza faz!138
XLV. (1) Por isso, como patrono das mulheres - das jovens, não das velhas -, é um
prazer reprovar e repreender nossos ancestrais, cujas coisas nem sempre fizeram santamente. Falarei agora não como um advogado, mas no papel de uma daquelas mulheres que foram forçadas a seguir a vida religiosa contra sua própria vontade e que agora, em um Senado platônico, composto por homens e mulheres, falasse assim:
“Senadores, o que vós pretendeis com esta aspereza contra nós, donzelas infelizes, ao forçar-nos a arrastar nossas vidas de um modo contrário à natureza de todos os seres vivos e, até mesmo, dos deuses? Nada, nos assuntos humanos, é um tormento mais intolerável que a virgindade. Quisera o céu que a natureza permitisse a vós experimentardes por meio ano ao menos, com saúde e em segurança, quão grande é o nosso tormento! E agora, por vossa misericórdia, acreditai-nós! Ou, melhor ainda, perguntai às Damas Senadoras e às vossas esposas se elas se lembram de sua virgindade. (2) Em nome de todas as donzelas, conscientes de suas vontades, eu vos imploro para que vós inflijais, imponhais e ordeneis a nós qualquer outro peso, e nós nos submeteremos. Será mais leve cavar a terra, ser carregada no mar pelos ventos ou suportar o serviço militar. Todo o sofrimento, todo o perigo e toda a batalha serão estimados como insignificantes. Para preservar a virgindade, ao invés, nós devemos lutar contra os olhos, os ouvidos e todos os outros sentidos; contra a tranquilidade, o lazer e até mesmo o silêncio e a solidão. Dia e noite, de corpo e alma, nós passamos por tormentos. (3) Soma-se a isso que, se nós sucumbirmos uma única vez, todo