Nesse contexto, o pensamento antropológico já começava a ser identificado, segundo Poirier, a partir de suas principais manifestações.353 Esses verdadeiros
paradigmas de origem da antropologia inicialmente apontavam para tentativas de
351 SAINT-SIMON, Claude-Henry apud POIRIER, Jean. Una historia de la etnologia. México: Fondo de Cultura
Econômica, 1992, p. 28.
352 CUIN, Charles-Henry. História da Sociologia. São Paulo: Editora Ensaio, 1994, p. 32.
reconstituição do passado humano, ensaios teóricos acerca da origem das raças humanas, e ainda para uma reflexão objetiva sobre as sociedades exóticas.
A pré-história da humanidade
Na primeira metade do século XIX, muitos investigadores procuravam descobrir vestígios da antiguidade humana entre as camadas geológicas. Como grande representante desses estudiosos destaca-se o nome de Boucher de Perthes (1788-1863), que ao publicar o primeiro volume de sua obra “Antiguidades célticas e antidiluvianas”, que tinha por título “Da indústria primitiva ou das artes em suas origens”, causou furor no meio acadêmico francês, enfrentando várias resistências que, aos poucos, foram sendo dissipadas pelo crescente número de descobertas arqueológicas, como é o caso do próprio “Homem de Neandertal”, encontrado em julho de 1856.
Segundo Mercier,354 Boucher de Perthes foi o primeiro a apresentar
indutivamente, em 1838, o “problema da evolução da humanidade”, o que levou R.H. Lowie a considerá-lo como um dos pais da antropologia.
A antropologia física
Apesar de inicialmente as idéias preconizadas por Lamarck não ter exercido praticamente nenhuma influência sobre seus contemporâneos de início do século XIX, aos poucos o estudo e a classificação dos diferentes aspectos físicos humanos ia se consolidando como um dos campos do pensamento antropológico. E o principal debate que se desenvolvia a respeito naquele momento consistia na unidade ou pluralidade do homem, ou seja, entre o monogenismo (todos os homens foram gerados a partir de um ancestral comum) e poligenismo (os homens foram originados a partir de ancestrais diversos). As diversas classificações raciológicas propostas procuravam fundamento em características antropológicas, formulando
explicações para os fenômenos sociais a partir de critérios pautados na hereditariedade, seleção das espécies, e no antropo-racismo.355
Mas o que despertava maiores controvérsias eram as teorias em torno da origem dos negros. Isto porque muitos intelectuais, ainda fortemente influenciados por superstições preconceituosas e dogmas religiosos, resistiam a uma classificação estritamente científica a esse respeito. Afinal, desde a Idade Média havia argumentações no sentido de provar a existência de uma origem específica dos negros, que não se confundia com os demais humanos, procurando, com isso, justificar a escravidão. Para exemplificar a arbitrariedade e do despautério dessas idéias que, naquele momento, se pretendia qualificar como científicas, Poirier faz referência às obras dos americanos Nott e Gliddon (Types of Mankind, de 1854, e
Indigenous Races of the Earth, de 1857) que consideravam que os negros deviam
ser colocados numa classificação diversa dos demais humanos, uma vez que não haviam sido mencionados na descendência de Noé, apontada no livro do Gênesis.356
Outras classificações apontavam ainda para um critério baseado nas medidas e proporções do crânio humano, que indicariam não só características raciais mas também um índice encefálico que permitiriam avaliar aspectos intelectivos e psicológicos. Mas apesar da resistência inicial, essas idéias foram sendo superadas pelo trabalho de observação científica, pautada em critérios estritamente objetivos.
O estudo das sociedades exóticas e a reflexão sobre o homem social
Além do estudo dos aspectos relacionados à pré-história humana e à origem das raças e classificações físicas humanas, havia ainda um segmento de intelectuais que direcionavam seus estudos sobre o homem em seus diversos aspectos culturais e sociais. Como exemplo desses ideólogos precursores Poirier recorda a curiosa e pouco conhecida tentativa de Saint-Simon, que em 1813, escreveu uma “Memória sobre a ciência do homem”, que buscava erigir ao estatuto
355 Conforme alguns exemplos trazidos por Charles-Henry Cuin, “Henri Martin, em sua monumental História da
França, tenta mostrar a persistência ao longo dos séculos de uma raça gaulesa a partir da qual se teria edificado a França moderna. O próprio Renan vê na raça um elemento importante na gênese das sociedades. No entanto, a tentativa mais famosa é feita por um diplomata, incentivado à carreira por Tocqueville, o conde Arthur de Gobineau, que, em seu Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas (1855), afirma que o fator racial é o critério essencial na expansão (ou na decadência) das sociedades humanas.”, in, CUIN, Charles-Henry. História da Sociologia. São Paulo: Editora Ensaio, 1994, p. 65.
de ciência os estudos relacionados ao homem e suas culturas.357 A escola de Le
Play, embora mais afeta à Sociologia, também teve enorme influência na consolidação da Antropologia pelos métodos propostos a partir de observações diretas sobre os meios populares e o estabelecimento dos orçamentos familiares típicos, que chamava de monografias. A partir disso, Le Play procurou sintetizar um “método de observação”358 de cunho notadamente antropológico, uma vez que já
acenava, ainda que superficialmente, para o que algum tempo depois se tornaria o método etnográfico clássico da observação participante.
Os estudos sobre sociedades exóticas também já consistia na primeira metade do século XIX um tipo de investigação propriamente antropológica. Nessa linha de intelectuais de se propuseram a estudar sociedades exóticas já sob uma perspectiva científica, merece especial destaque o nome de Alexander von Humboldt, naturalista enviado à América Central e do Sul, que em suas obras “Ensaio político sobre o reino da Nova Espanha”, de 1811, e “Vistas das cordilheiras e dos monumentos dos povos indígenas da América”, de 1816, já constatava a necessidade de desacondicionamento mental como verdadeiro pressuposto para uma análise científica de uma civilização diferente, verdadeiro esboço do que viria a ser a categoria antropológica do etnocentrismo.359 Mas conforme aponta Poirier, o
autor responsável pelo início da investigação etnológica propriamente dita foi o alemão Gustave Klemm, que em suas pesquisas propôs classificações, analisa categorias e formula interpretações, mostrando como as sociedades humanas se organizaram em dois tipos básicos: um ativo, portador de inovações e voltada ao progresso, e outra passiva, submetida à tradição.360 Essa teoria fez com que Klemm
fosse posteriormente considerado como o primeiro evolucionista unilateral, já que defensor de um avanço progressivo da história cultural, com etapas definidas de desenvolvimento.
Paralelamente aos estudos etnográficos, a Antropologia se desenvolvia não somente pelas investigações de campo, mas também pelos pesquisadores que se dedicavam aos estudos e formulações teóricas direcionados ao estabelecimento das
357 Ibid, p. 39.
358 O método de observação de Le Play era definido a partir de três meios principais de investigação:“o primeiro
consiste em observar os fatos, o segundo em interrogar o trabalhador sobre as coisas que fogem a uma investigação direta, o terceiro em tomar informações junto a pessoas do lugar que conhecem há muito a família ou que influem sobre sua existência através de relações patronais”, in, CUIN, Charles-Henry. História da Sociologia. São Paulo: Editora Ensaio, 1994.
359 POIRIER, Jean. Una historia de la etnologia. México: Fondo de Cultura Econômica, 1992, p. 41. 360 Ibid, p. 43.
bases epistemológicas da disciplina, como é o caso de François Bopp, Guillaume de Humboldt e Renan, aos quais se atribui a criação da lingüística.