As doenças respiratórias continuam a ser uma das principais causas de morbilidade e mortalidade, com tendência clara para o aumento da sua incidência. A nível mundial há centenas de milhões de pessoas com patologia respiratória (DGS, 2013). As doenças respiratórias crónicas referem-se às doenças crónicas das vias respiratórias e de outras estruturas dos pulmões. Contemplam várias doenças, sendo as mais prevalentes a asma e a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) (OMS, 2008). Estas patologias são influenciadas por fatores sociais, ambientais e comportamentais (ONDR, 2012). A OMS (2008) enumera as principais causas que contribuem para o aumento destas doenças: fumo de tabaco, poluentes do ar exterior, poluentes do ar interior, alergénios, exposição ocupacional, dieta e nutrição, e doenças respiratórias pós infeciosas. Realça ainda que a pobreza é um fator que pode agravar a doença respiratória crónica, e que esta tem um encargo económico muito grande. O ONDR (2012) acrescenta o stress psicológico, o alcoolismo e outros comportamentos individuais desviantes, como fatores que favorecem o aparecimento destas patologias.
Tendo em conta os dados relatados, em 2012 foi criado o Programa Nacional para as Doenças Respiratórias (PNDR), onde estão incluídas as ações a serem desenvolvidas pela DGS entre 2012 e 2016. As patologias que o programa dá maior relevância são: asma, DPOC e Síndrome Apneia do Sono, pela sua prevalência, e Hipertensão Arterial Pulmonar, Doença do Interstício Pulmonar e Fibrose Quística, pela especificidade do tratamento e cuidados diferenciados. Há também áreas de intervenção transversal a todo o programa: patologias como alergias, rinites e infeções respiratórias; pediatria; equipamento e cuidados respiratórios no domicílio; entre outros (DGS, 2012).
A criança é particularmente suscetível de desenvolver doenças respiratórias pois existem alguns fatores que favorecem essa evolução, como as especificidades anatómicas e as características fisiológicas e imunológicas (Piva, Garcia, Santana & Barreto, 1998). A asma é a principal causa de morbilidade na infância e a doença crónica mais comum nessa faixa etária. Para além da asma há outras doenças respiratórias crónicas presentes na
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criança, que não tendo uma prevalência tão elevada, causam diminuição da função respiratória, condicionam a qualidade de vida da criança e família e motivam muitos internamentos, como exemplo a fibrose quística e a displasia broncopulmonar.
Asma
A asma é uma doença que se caracteriza pela inflamação crónica das vias aéreas, que vai causar obstrução generalizada, normalmente reversível espontaneamente ou com medicação. Os principais sintomas desta patologia são a dispneia, pieira, sibilância e opressão torácica (DGS, 2011). A sua prevalência tem vindo a aumentar nas últimas décadas, especialmente nos países desenvolvidos. Em Portugal dos 6-7 anos está presente em 11,0% da população e dos 13-14 anos em 11,8%, sendo uma causa frequente de internamento hospitalar (DGS, 2012). Em cerca de 90% dos doentes é possível controlar a asma, quer com medidas farmacológicas quer não farmacológicas, permitindo a minimização das exacerbações e a melhoria da qualidade de vida (DGS, 2011).
Fibrose Quística
A fibrose quística é uma doença genética autossómica recessiva, resultante de uma mutação no cromossoma 7, num gene que codifica a proteína CFTR. Esta proteína é responsável pela regulação de iões, afetando principalmente a passagem do cloro para o interior da célula. As alterações iónicas vão provocar um aumento da viscosidade das secreções das glândulas exócrinas, levando a uma obstrução mecânica em vários órgãos e causando efeitos multissistémicos. O sistema respiratório é geralmente o mais afetado, a obstrução brônquica pode originar infeções respiratórias recorrentes e enfisema. A nível gastrointestinal pode ocorrer ílio meconial, síndrome de má absorção, pancreatite, cirrose e hipertensão portal. No sistema reprodutor a mulher tem uma fertilidade diminuída e no homem cerca de 95% são estéreis. Apesar do envolvimento de vários órgãos, na maioria das pessoas com FQ a grande morbilidade e morte precoce está relacionada com a doença respiratória crónica. Em Portugal há cerca de 1 portador de FQ por cada 6000
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nascimentos, e não havendo dados oficiais, estima-se que a sobrevida média atual seja de 30,7 anos (DGS, 2014; Wong, 1999).
Displasia Broncopulmonar
A DBP é uma doença pulmonar crónica que ocorre, predominantemente, em recém-nascidos (RN) prematuros sujeitos a ventilação mecânica e oxigenoterapia nos primeiros dias de vida (Bandeira, 2013). Tem aumentado nos últimos 20 anos, diretamente relacionado com o aumento da sobrevida de prematuros de extremo baixo peso (Guimarães, Vasconcellos, Proença, Carreira & Sossai, 2010). É a segunda doença respiratória crónica mais presente na infância, sendo difícil avaliar a sua incidência devido à inexistência de critérios universais para a sua definição. Em Portugal a prevalência é de 13% para os RN de idade gestacional inferior a 30 semanas. É uma doença multifatorial, tendo como principais fatores de risco: prematuridade, doença da membrana hialina, ventilação mecânica, oxigénio suplementar, inflamação e infeção, e patência do canal arterial. Todos estes fatores contribuem para uma resposta inflamatória que pode provocar lesão aguda no parênquima pulmonar, originando lesão nas vias aéreas (atelectasias e enfisema), no interstício pulmonar (fibrose, diminuição de alvéolos e de capilares) e lesão vascular (hipertensão pulmonar) (Proença, Vasconcellos, Rocha, Carreira, Mateus, Santos et al, 2009).
1.1 Especificidades do aparelho respiratório
A criança apresenta algumas especificidades na anatomia e fisiologia das estruturas do aparelho respiratório. Assim, para desenvolver cuidados na área da pediatria, é essencial conhecer essas particularidades e adequar as intervenções. Entre as várias diferenças destaca-se (Piva et al, 1998; Castro, Silva & Palhau, 2009; Sainda & Bandeira, 2009; Cordeiro & Menoita, 2012; Matsuno, 2012):
- diâmetro das vias aéreas: as vias aéreas de tamanho reduzido e de menor diâmetro geram uma maior resistência à passagem do ar, estando mais
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vulneráveis à ocorrência de edema e de obstrução, originando uma maior prevalência do broncospasmo;
- superfície alveolar: a superfície alveolar é menor na criança, durante os dois primeiros anos ocorre grande multiplicação e crescimento dos alvéolos; a pequena superfície alveolar leva a uma frequência respiratória elevada;
- compliance torácica: o lactente apresenta uma forma torácica arredondada, que vai originar uma menor mobilidade costal e uma menor expansão torácica; a criança apresenta a grelha costal mais horizontal, costelas menos rígidas e flexíveis, e o ângulo de inserção do diafragma é mais horizontal, o que torna a ventilação menos eficiente; nas crianças pequenas a distensibilidade pulmonar está aumentada e a retração elástica do pulmão está diminuída, o que pode originar hiperinsuflação;
- massa muscular diafragmática: nos recém-nascidos a massa muscular do diafragma está pouco desenvolvida o que pode levar à exaustão respiratória e consequente apneia;
- imaturidade pulmonar: a imaturidade do sistema pulmonar pode originar alteração da ventilação e da perfusão; nos recém-nascidos há uma resistência vascular pulmonar elevada; até aos 2 anos as comunicações interalveolares e inter-ductais (que permitem a ventilação colateral) estão pouco desenvolvidas potenciando a formação de atelectasias;
-imaturidade sistema imunológico: o lactente tem o sistema imunológico imaturo o que o torna suscetível de adquirir infeções bacterianas e virais;
- outros: no lactente a laringe tem uma posição alta e tem uma respiração predominantemente nasal; no lactente a epiglote é longa e flácida e a língua é proporcionalmente maior em relação ao adulto; a cartilagem traqueobrônquica é elástica, facilmente compressível e com uma compliance aumentada devido a uma menor quantidade de músculo liso que dê estabilidade.
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