Microthermometric features in Quartz and Amethyst occurrences around Belkavak village (Yerköy-Yozgat)
SIVI KAPANIM PETROGRAFİSİ
Um dos principais elementos da ação comunitária é a solidariedade, que envolve uma preocupação com a melhoria das condições de vida dos participantes. Conforme Lisboa (2003, p. 248), “a energia da solidariedade decorre dela ser o sentimento de sentir-se solidamente parte do mesmo corpo (este é o sentido etimológico e original)”. A solidariedade contempla o vínculo entre as pessoas, a compaixão, a empatia. No entanto, é crucial destacar que o sentimento de sentir-se parte de um todo maior surge se houver um cultivo, um esforço - contínuo neste sentido.
Enquanto pré-requisitos para o modo cooperativo da ação comunitária destacam-se: a existência de interesses e objetivos comuns, a predisposição para a união dos esforços e das capacidades de todos os envolvidos, o engajamento coletivo para lidar com as dificuldades.
Os desafios que se estabelecem, portanto, é desconstruir a cultura individualista e competitiva e construir uma cultura de cooperação solidária, por meios de vivências concretas. Pensando no bem da coletividade, estas vivências provocam benefícios como: a percepção de que o alcance dos objetivos é também consequência da ação dos outros
membros; maior sensibilidade às solicitações das outras pessoas; frequência na ajuda mútua; maior homogeneidade na quantidade de contribuições e participações; aumento qualitativo na produtividade do grupo; a promoção da equidade e da justiça; o estímulo à criatividade; o fomento à troca de saberes e habilidades; a identificação e correção dos fatores de ineficiência; a delimitação mais clara das metas diretrizes e propostas do grupo; a valorização da corresponsabilidade (GAIGER, 2000; BROTTO, 1997).
Apesar destas vantagens para a convivência em grupo, é necessário lembrar que a transformação cultural não é rápida porque não se limita apenas a uma modelagem de comportamento, mas uma mudança de atitude6.
De acordo com Lisboa (2003), na imaterialidade do trabalho cooperativo há um forte componente de afetividade, de contato e interação humanos, de cuidado mútuo. Sobre o cuidado mútuo, este se desenrola após a constituição de relações de proximidade que se estabelecem a partir do que G. Gurvitch chama de formas “sócio-aproximadoras” de relações interpessoais, que incitam o fortalecimento dos vínculos e das formas de sociabilidade nos territórios7. Trata-se de um movimento contrário ao que se é propagado pela cultura individualista e utilitarista, cujos mecanismos são “sócio-afastadores”, que superficializam as relações humanas (apud FRANÇA FILHO, 2013).
As relações de proximidade voltadas para a ação comunitária enquadram-se à lógica da dádiva, descrita por M.Mauss, a qual reduz a importância e o valor da lógica monetária e valoriza a dádiva de si mesmo e do tempo pessoal em favor de uma coletividade (DZIMIRA e FRANÇA, 1999). Trata-se, portanto, de uma escolha em comprometer-se, por exemplo, na realização de atividades coletivas da comunidade para implantar uma tecnologia social – bancos comunitários de desenvolvimento – que melhora as condições de vida no território.
Numa relação entre economia solidária e lógica do cuidado, o ambiente social criado é de partilha da riqueza, do poder e do saber para a promoção do desenvolvimento local e a transformação da sociedade civil, uma vez que os trabalhadores organizam-se politicamente, debatem sobre soluções para os problemas comuns, sob a forma da democracia direta e participativa, que é o caso dos bancos comunitários de desenvolvimento (ARRUDA, 2003; CARBONARI, 1999; SINGER, 1997; LISBOA, 1999). Trata-se de alcançar, por exemplo, o que Gaiger (2003) chama de eficiência sistêmica, a qual contempla a concretização de
6 A noção de comportamento refere-se às ações propriamente ditas, sejam verbais ou não verbais. A concepção
de atitude, por sua vez, transcende o comportamento, uma vez que inclui os valores e crenças que nem sempre são expressos nos comportamentos.
7 No ponto de vista de Santos (2005b), território engloba o chão, as pessoas que o ocupam, o fato e o sentimento
de pertencer àquilo que as pertence. Trata-se de um território usado e utilizado por uma população, que extrapola o lugar de uma ação pragmática e aporta vida, emoção e valores.
benefícios sociais, e não apenas monetários ou econômicos, que incluem o entorno dos empreendimentos coletivos envolvidos.
2.2.4. A constituição da identidade
As relações de proximidade, tratadas no tópico anterior, fortalecem os vínculos interpessoais e corroboram para a constituição da identidade, como relatamos a seguir.
A construção de uma identidade advém de um processo de negociação intra e interpessoal, isto é, como citamos anteriormente, do “eu”, do “outro” e do “nós” (FERREIRA, 1968). Nas ciências humanas e sociais uma das vertentes de discussão sobre identidade é a sociológica8, que concebe a constituição da identidade numa relação dialética com a sociedade, incluindo os atos comunicativos, as vivências e as aprendizagens (VERONESE & ESTEVES, 2009).
Pessoas que fazem parte de uma classe social mais baixa têm a nítida noção de que pertencem a este grupo e da necessidade de manterem uma relação de boa vizinhança, de cooperação para sua própria sobrevivência. No meio urbano a vivência comum de necessidades cotidianas recria situações constitutivas de identidade local, as lutas de grupos reforçam o sentimento de pertença ao território. Tudo isso corrobora para que a área de moradia não se reduza simplesmente a local-dormitório e nem a local de consumo (HOGGART, 2001; LEFEBVRE, 1991; SOUZA, 1987).
Ao mesmo tempo em que pessoas pertencentes a uma classe social mais baixa têm discernimento de sua condição, conforme Hoggart (2001) e Bauman (1999), estas mesmas pessoas podem rejeitar essa identidade, almejar pertencer a uma classe social mais alta e recriminar os indivíduos que se comportam como superiores aos outros membros da sua classe.
Avançando sobre o delineamento da identidade e relacionando-o à articulação política de maior amplitude, Gohn (2004) assevera que os indivíduos que antes se sentiam excluídos socialmente quando passam a participar de movimentos sociais mais abrangentes, territorialmente falando, percebem-se incluídos nas ações deste grupo ativo. A aliança entre a comunidade e os movimentos sociais provoca uma articulação e um empoderamento ainda maior, pois os movimentos instituem e cultivam identidades em grupos antes dispersos e
8 A outra vertente é a psicodinâmica, que não tratamos neste trabalho porque ela se refere à estrutura psíquica do
desorganizados a partir da realização de ações conjuntas, as quais projetam em seus participantes sentimentos de pertencimento social e, portanto, de identidade.
No caso da comunidade São Rafael há um outro elemento constitutivo de sua identidade; a menção de que ela é uma favela9 (LAVIERI &LAVIERI, 1999). As favelas são alvo de esteriótipos associados às características do ambiente de moradia e aos comportamentos e atitudes atribuídos aos seus moradores. Além da caracterização descrita na nota de rodapé, há também uma concepção moral do termo favela enquanto espaço estigmatizante. O aumento da violência e do narcotráfico, cujas bases de distribuição localizam-se principalmente em favelas, contribuiu para que estas fossem qualificadas pela mídia e pelo senso comum como dissipadoras da criminalidade (GONDIM, 2010; FREIRE, 2008).
Isto fez construir no imaginário social uma série de mitos ligados à pobreza, à violência e à criminalidade que implicou na estigmatização de seus habitantes. Essa estigmatização é atrelada a uma identidade deteriorada e depreciativa, em uma relação de subordinação na estrutura social, que não é necessariamente reconhecida pelos próprios moradores da área chamada favela, o que provoca, consequentemente, a negação desta identidade de “favelado” (GONDIM, 2010; FREIRE, 2008).