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amigo. Dessa forma, o seu final se contrapõe ao seu início, quando os termos positivos da primeira estrofe são retomados por meio de uma sequência de termos negativos, conforme vistos na última estrofe: (―Flor sem ramo./Do enramado/ sen cantiga‖), significando rompimento ou quebra de expectativas do que já havia sido anunciado anteriormente: (―FLOR do ramo/flor do ramo/ven cantiga‖). A retomada em equivalência dessas duas estrofes ilustra esse paradoxo ao elemento da natureza ser invocado para em seguida desaparecer sem dar um retorno concreto sobre a partida inesperada do amigo ou de seu retorno para junto da jovem suspirante de saudades.

Por fim, a intenção poética de Stella Leonardos ao realizar essa composição contemporânea evidência possivelmente as relações danosas que assolam o ser humano, principalmente no que diz respeito à situação de inferioridade e submissão envolvendo o feminino, retratadas através da temática da dor ou sofrimento, indicando, por exemplo, certo pessimismo de um eu lírico atual frente a sua luta e conquista de espaço na sociedade falocrata.

4.5. O (re)encontro na cantiga de romaria

A temática das cantigas de romaria, bem como a representação do amor, é um dos assuntos por excelência dos trovadores do subgênero das cantigas de amigo. Dentre os

peregrinos ou romeiros não faltavam as mocinhas casadoiras fazendo promessas de

casamento, aproveitando-se de festas religiosas e romarias para (re)encontrar o amigo (namorado ou amante), segundo atestam os cancioneiros profanos dos trovadores galego-portugueses. Esses encontros amorosos em festas e locais de culto cristão estão presentes na longa tradição popular. Eis um exemplo de uma cantiga de amigo de Pero Viviães:

Pois nossas madres vam a Sam Simom de Val de Prados candeas queimar, nós, as meninhas, punhemos d'andar com nossas madres, e elas entom queimem candeas por nós e por si, e nós, meninhas, bailaremos i. Nossos amigos todos lá irám por nos veer e andaremos nós bailand'ant'eles fremosas em cós; e nossas madres, pois que alá vam, queimem candeas por nós e por si.

83 e nós, meninhas, bailaremos i.

Nossos amigos irám por cousir como bailamos e podem veer bailar [i] moças de bom parecer; e nossas madres, pois lá querem ir, queimem candeas por nós e por si, e nós, meninhas, bailaremos i.

Essa cantiga de amigo de autoria do português Pero Viviães pode ser classificada dentro do subgênero cantiga de romaria, como é possível observar através de seu espaço geográfico e de suas circunstancias assessorias. Tal composição não remete necessariamente a uma temática religiosa, já que a peregrinação às igrejas ou capelas pelas jovens ocorria como principal pretexto para (re)encontrar os amigos e amigas. Nesse sentido, é uma cantiga de amigo de caráter narrativo e descritivo constituída de modo analítico e discursivo, apresentando o eu lírico em primeira pessoa, três cobras (coplas) singulares de decassílabos, rimas ABBACC, ou seja, B e C são emparelhadas e a rima A interpolada.

Logo na primeira estrofe: (Pois nossas madres vam a Sam Simom/de Val de Prados candeas queimar,/nós, as meninhas, punhemos d'andar/com nossas madres, e elas entom/queimem candeas por nós e por si,/e nós, meninhas, bailaremos i). Inicialmente, nota-se que o eu lírico feminino traz à tona o lugar simbólico que vai juntamente com a sua mãe ―queimar velas‖ no santuário, isto é, na Igreja de São Simão (San Simion). Percebe-se que utiliza o artificio da queima de velas para a realização dos seus anseios amorosos, a fim de divertir-se com as amigas e seus pretendentes, pois são os verbos ―andar‖ e ―bailar‖ que dão essa ideia de movimento e euforia para a sua efetiva concretização.

A própria estrutura compositiva desalinhada dos versos, ou seja, a sua irregularidade, está relacionada espontaneamente à animação da dança, inclusive, é o próprio refrão repetido com frequência ao final de cada estrofe: (―queimem candeas por nós e por si,/e nós, meninhas, bailaremos i‖), na lírica trovadoresca que recebe o nome de estribilho, conferindo a existência de quase um coro entoando a canção, a coreografia entrelaçada à dança com o seu ritmo paralelístico da cantiga de amigo. Esse paralelismo semântico e estrutural reflete o aspecto simples e primitivo do lirismo medieval, com base nas expressões: madre (mãe), fremosas (bonitas, vistosas), etc;

84 quando estão associadas diretamente ao contexto sociocultural e ao processo de oralidade em que foi produzida a cantiga de amigo durante o período galego-português.

Na segunda estrofe: (Nossos amigos todos lá irám/ por nos veer e andaremos nós/ bailand'ant'eles fremosas em cós;/e nossas madres, pois que alá vam,/queimem candeas por nós e por si./e nós, meninhas, bailaremos). É exatamente nesse instante que ressurgem os reais interesses do eu lírico feminino, que é dançar e rever os amigos que estão presentes durante o momento da romaria. Portanto, o eu lírico juntamente com as suas amigas que estão muito elegantes e vistosas praticará as duas ações principais durante o processo de romaria: passear e bailar, enquanto as mães vão realizar as orações, queimam as velas, isto é, compactuar exclusivamente com os rituais religiosos do período medieval.

É nítida a representação da imagem visual ao encontro festivo do eu lírico feminino com amigas(os) ao processo de romaria, como pode ser observados a partir dos verbos (ver, irão). Inclusive, a dança e a alegria contagiante das jovens podem estar relacionadas diretamente à sedução ou ao ato de atrair a atenção do pretende ou futuro namorado. Nessa cantiga de amigo, diferentemente do que se espera para a época trovadoresca, a figura da mãe não aparece como principal oponente dessa entrega amorosa da filha (fremosinha), pois a conduz para a romaria mesmo sabendo que não irá com o intuito de buscar orações ou de queimar velas. Todavia, durante o período trovadoresco, comumente as jovens acompanham a mãe aos eventos públicos para buscar a realização de seu papel almejado pela sociedade, que é o casamento. Dessa forma, em algumas dessas cantigas de amigo, é a figura materna que aparece como verdadeira confidente amorosa.

Nos últimos versos poéticos: (Nossos amigos irám por cousir/ como bailamos e podem veer/bailar [i] moças de bom parecer;/e nossas madres, pois lá querem ir,/queimem candeas por nós e por si,/e nós, meninhas, bailaremos i.), repetem-se a mesma ideia das estrofes anteriores, o eu lírico feminino explicita a boa conduta e a beleza física (moças de bom parecer) de todas as jovens, perpassando uma breve imagem visual de felicidade por estar inserida socialmente nessa solenidade religiosa e comemorativa. Vale ressaltar que essa ida a romaria pelas jovens é um eufemismo que serve apenas para suavizar ou amenizar o encontro proibido e secreto com o amigo (amado).

85 Assim, é importante destacar que ainda hoje o processo religioso de romaria se faz presente no contexto contemporâneo, quando muitos peregrinos cultivam a cultura religiosa, repleta de manifestações tradicionais que tem por temática principal o catolicismo popular. É um momento múltiplo de significados para os participantes, pois buscam o encontro, a interação, o diálogo, etc. Na produção literária atual, poetas e autores também buscaram escrever sobre a temática da romaria em suas obras, a exemplo disso, destaca-se o poema de Stella Leonardos a ser analisado a seguir.

Benzer Belgeler