A obra em estudo está repleta de relatos de violência dos adultos contra as crianças citadas no livro, mas fizemos um recorte e trabalharemos com os mais fortes. Dentre eles, passagens do capítulo: “Um cinturão”, um objeto que, em outro contexto, é usado como adorno, fazendo parte das vestimentas. No contexto do livro, tem uma outra utilidade, pois passa a ser um instrumento de violência. Atentemos para a dramaticidade da cena:
A mão cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. Uivos, alarido inútil, estertor. Já então eu devia saber que rogos e adulações exasperavam o algoz. (RAMOS, 1980, p. 34)
No momento em que o pai do narrador utiliza o cinturão para bater no filho, o objeto deixa de ter a função de embelezar para se transformar em algo que representa a violência, fazendo com que a ação dele nos lembre a atitude de outros algozes, por exemplo, os feitores que açoitavam os escravos. Portanto, os objetos mudam de função e de representação de acordo com as convenções sociais e culturais.
Ainda no mesmo capítulo, um outro objeto, a corda, que tem várias funções úteis na vida dos nordestinos, como servir para armar redes, prender animais, entre outras, aqui, assim como o cinturão, é usado como símbolo de violência, “certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas” (RAMOS, 1980, p. 31).
Ao analisarmos esses dois excertos, fazendo uma ligação entre os objetos “cinturão” e “corda” e a atitude do pai e da mãe do narrador, percebemos que os objetos simbolizam toda a tradição de uma família violenta e repressora, família na qual não existia diálogo, pois os ensinamentos familiares eram passados através da violência.
do opressor, e a criança praticamente não aparece, sendo ela a representação do oprimido, faz parte do capítulo “Chico Brabo”.
Chico Brabo representava para o narrador-personagem uma figura estranha que ele não conseguia entender:
As discrepâncias avultavam, acumulavam-se – e era difícil admitir que alguém fosse tão generoso e tão cruel. A recordação daquela doçura mole, dos papelinhos de pó branco, dos sorrisos, trazia-me ao espírito bondade completa; os urros furiosos e os sopapos descarregados em João exibiam-me completa maldade (RAMOS, 1980, p. 148).
O menino do livro, além de sofrer com os maus tratos que recebia, sofria também ao presenciar o padecimento de outros pequenos seres indefesos como João, a criança que servia de empregado para Chico Brabo e que vivenciava vários atos de violência:
Duas mãos inchadas seguravam braços finos, sacudiam-nos reforçando as objurgatórias. Suponho que Seu Chico Brabo não sentia prazer em magoar fisicamente a criança: gostava de aperreá-la devagar, feri-la com palavras.
(...)
Afinal dois ou três golpes fofos. Guinchos de um; sopros, respiração ofegante do outro (RAMOS, 1980, 148).
Há uma junção da violência física com a psicológica e neste caso a violência atingia tanto o menino João, como o narrador-personagem, que ouvia todo o desfecho antes e durante as surras que o garoto levava. Seu Chico Brabo consegue agredir duas crianças ao mesmo tempo.
Além disso, no caso de João, o narrador-personagem presencia a tortura de um menino, que aparece no enredo sem nome próprio, sendo chamado de criança infeliz, o que nos faz pensar que este caso poderia ter acontecido com qualquer criança, presas fáceis da raiva dos adultos.
No capítulo “Criança infeliz”, há um relato da vida de um menino que era cruelmente torturado pelo pai, em sua residência, e pelo diretor da escola:
Em casa, o pai martelava-o sem cessar, inventava suplícios: amordaçava-o, punha-lhe as costas das mãos sobre a mesa da sala de jantar, malhava nas palmas, quase triturava as falanges; prendia-lhe os rejeitos, pendurava-o num caibro, deixava-o de cabeça para baixo, como carneiro em matadouro. Fatigando-se das inovações, recorria às sevícias habituais: murros e açoites (RAMOS, 1980, p 250).
A tortura que sofria em casa tinha continuidade na escola, onde era obrigado a ficar sempre isolado, sem poder ficar perto de nenhum outro aluno, todos recebiam ordens do diretor para que não se aproximassem dele. Além de servir de empregado, fazendo os serviços domésticos para a família do diretor, ele também era cruelmente torturado, como podemos observar no trecho abaixo:
Às vezes o homem se excedia: amarrava os braços do garoto com uma corda, espancava-o rijo, abria a porta, e a desesperada humilhação exibia-se aos transeuntes, fungava, tentava enxugar as lágrimas e assoar-se. O choro juntava-se ao catarro, pingava no paletó e na camisa – e o pano molhado tinha um cheiro nauseabundo, mistura de formiga e mofo (RAMOS, 1980, p.249).
O que mais nos chamou a atenção no relato do sofrimento deste menino foi sabermos o que aconteceu com ele quando adulto. O menino que foi cruelmente humilhado pelos adultos conseguiu sobreviver a todos os maus tratos, mas se tornou um adulto violento e vingativo, entrando no mundo do crime com aproximadamente quinze anos, quando assassinou um homem a
tiros, “realizou depois numerosas façanhas; respeitaram-lhe a violência e a crueldade” (RAMOS, 1980, p.251-252).
Após concluir os estudos, conseguindo aprovação através de ameaças que fazia aos examinadores, ele fundou um jornal, deu um emprego ao antigo diretor de escola, que o torturara tantas vezes, e vingou-se dando-lhe um emprego mesquinho, passou a vestir-se muito bem, teve muitas mulheres, mas teve um fim triste, pois foi assassinado a punhaladas.
As lições de amor deveriam começar em casa e continuar na escola – no caso deste garoto ele não teve nenhuma, só aprendeu a violência – primeiro, através do pai, e, em seguida, de um diretor, que deveria agir como um educador e não como um feitor de escravos. As lições de violência foram aprendidas com sucesso, pois o menino se transformou num adulto igualmente irascível e desumano.