O momento de preparação de uma criança para ir a um novo ambiente chamado escola deveria ser estimulante, no entanto, não é o que nos transmite esta imagem descrita pela linguagem verbal e em seguida pela não verbal:
Trouxeram-me a roupa nova de fustão branco. Tentaram calçar- me os borzeguins amarelos: os pés tinham crescido e não houve meio de reduzi-los. Machucaram-me, comprimiram-me os ossos. As meias rasgavam-se, os borzeguins estavam secos, minguados. Não senti esfoladuras e advertências. (...) Arranjavam impiedosos o sacrifício – e eu me deixava arrastar, mole e resignado, rês infeliz antevendo o matadouro.
Lavaram-me esfregaram-me, pentearam-me, cortaram-me as unhas sujas de terra. E, com a roupa nova de fustão branco, os sapatos roxos de marroquim, o gorro de palha, folhas de almaço numa caixa, penas, lápis, uma brochura de capa amarela, saí de casa tão perturbado que não vi para onde me levaram (RAMOS, 1980, p.113 – 117).
Este excerto, assim como um outro citado no tópico 2.3, mostra todo o sofrimento da criança na sua ida à escola, verificando-se que até as vestimentas se tornaram instrumento de prisão, pois o corpo está preso dentro de um uniforme.
O ritual da preparação para entrar na escola é parecido com a transformação que os presos passam ao entrar na cadeia, uma delas descrita no livro Memórias do Cárcere (2004), onde o narrador descreve um momento em que o corpo também é aprisionado através dos sapatos “(...) os pés coagidos nos sapatos duros, poeirentos. (...) os sapatos duros e estreitos magoavam-me os calos; (...) Os tamancos me dariam folga, relativa liberdade” (RAMOS, 2004, p. 56).
O medo que o narrador-personagem tem do ambiente escolar é tão intenso que ele formula a imagem da escola de forma pessimista, transcrita por intermédio de objetos e de pessoas que estão lá prontos para machucá-lo,
“Certamente haveria uma tábua para desconjuntar-me os dedos, um homem furioso a bradar-me noções esquivas” (RAMOS, 1980, pág. 114).
Na narrativa aparece um objeto – o livro – que deveria ser instrumento de encantamento, pois geralmente é repleto de gravuras coloridas que estimulam a imaginação dos pequenos e até dos adultos.
No entanto, os exemplares apresentados à criança, tanto no ambiente familiar, como no escolar, não são atrativos, nem encantadores. Na verdade os livros são motivos de angústia e acabam sendo também instrumentos que causam pavor e sofrimento.
O primeiro livro dado ao menino, para que ele desse os primeiros passos no mundo das letras foi a carta de ABC, na qual ele deveria aprender as primeiras letras e algumas frases que pareciam não ter sentido nenhum para o garoto ‘A preguiça é a chave da pobreza – Quem não ouve conselhos raras vezes acerta – Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém.’ A sentença causa confusão na cabeça do menino que pensa que “ter-te-ão” é um nome de pessoa, e por isso ele pergunta para a irmã Mocinha quem é o Terteão, mas ela também não sabe de quem se trata o que mostra que ela também não entendia as palavras indecodificáveis.
Após conseguir ler toda a carta de ABC – ensinada pelos familiares e por D. Maria, a professora, um novo livro é apresentado ao menino:
Um grosso volume escuro, cartonagem severa. Nas folhas delgadas, incontáveis, as letras fervilhavam, miúdas, e as ilustrações avultavam num papel brilhante como rastro de lesma ou catarro seco (RAMOS, 1980, p. 126).
Além da aparência nada atrativa o livro de contos do Barão de Macaúbas trazia textos longos, com uma linguagem complicada - “Queres tu brincar comigo?” (RAMOS, 1980, p. 127) - e sem sentido para uma criança que tinha acabado de começar a decodificar palavras, sendo a tarefa de ler estes textos algo quase impossível.
De fato, reconhecendo-me inepto, era absurdo pretender melhoria. Não me conformava. E se o catecismo tivesse para mim algum significado, pegar-me-ia a Deus, pedir-lhe-ia que me livrasse do Barão de Macaúbas. Nenhum proveito a libertação me daria: os outros organizadores de história infantis eram provavelmente como ele (RAMOS, 1980, p. 129).
O terceiro livro não tinha aparência melhor que os outros “Recebi um livro corpulento, origem de calafrios. Papel ordinário, letra safada” (RAMOS, 1980, p. 129).
O quarto livro que o menino teve que ler foi Camões:
Sim senhor: Camões, em medonhos caracteres borrados – e manuscritos. Aos sete anos, no interior do Nordeste, ignorante da minha língua, fui compelido a adivinhar, em língua estranha, as filhas do Mondego, a linda Inês, as armas e os barões assinalados.
(...)
Deus me perdoe. Abominei Camões (RAMOS, 1980, p. 130). Portanto, estes livros de aparência desagradável, com leituras inapropriadas para uma criança de sete anos, vão ter pouca contribuição para a formação leitora do menino. Percebe-se, assim, que família e escola mostram para o garoto o livro como um instrumento de tortura, e não de prazer, pois de acordo com a dificuldade que ele tinha de dominar a leitura, sofria os castigos, as surras com palmatória, tanto no seio familiar quanto no escolar.
A representação não verbal junta-se à verbal e podemos ver a imagem de uma criança frágil aprisionada dentro de uma roupa formal, dando-lhe a aparência de um adulto em miniatura. Além da vestimenta o que também ressalta nesta imagem é a expressão facial, lábios rigidamente fechados, olhos enormes, arregalados com medo do desconhecido.
Os quadros que aparecem como cenário, por trás da figura do menino, também merecem exame detido, pois podemos visualizar em um deles crianças que, aparentemente estão brincando, portando, entretanto, roupas que mal permitem seus movimentos.
No outro, há uma criança ajoelhada com algo nas mãos que parece um livro e uma outra pessoa sentada com a cabeça baixa, aparentemente escrevendo. A posição ajoelhada da criança representa um ato de subserviência, como se a aprendizagem só fosse possível através dos castigos.