Segundo o entrevistado do Ministério do Trabalho e Emprego, a violência sexual infanto-juvenil entra na agenda pública na segunda metade dos anos 1990, com as discussões entre governo federal, estadual e municipal para erradicar o trabalho infantil, sendo a prostituição uma das piores formas. É o que se vê no depoimento a seguir: “A Convenção 182 da OIT coloca a exploração sexual comercial, a prostituição, como uma das piores formas de trabalho infantil”.284 (MTE)
A interpretação do entrevistado supracitado aponta outro foco quanto à compreensão da agenda local, ou seja, pelo viés do trabalho. Tendo em vista a relação mercantilizada da prostituição quando se trata de crianças e adolescentes, a prostituição infantil é considerada uma das piores formas de trabalho, e, nesse sentido, quando se pauta na agenda a erradicação do trabalho infantil também está
283 Entrevista realizada em 21/12/2006. 284 Entrevista realizada em 25/01/2007.
se consolidando a inclusão da violência sexual infanto-juvenil. Esse processo acompanha outras categorias de violação de direitos humanos, mediante a luta de movimento de mulheres, dos negros, de trabalhadores, entre outros, pois não se pode combater o trabalho infantil sem garantia de direitos a outros segmentos adultos dos quais a criança depende. Além disso, é importante relembrar que essa agenda depende da articulação das três esferas de governo.
Na compreensão dos conselheiros tutelares, a inserção do tema violência sexual infanto-juvenil na agenda pública está associada ao próprio sistema de garantia de direitos construído na sociedade local, a órgãos e programas em nível municipal e/ou estadual que lidam com a temática. Isso significa que a violência sexual infanto-juvenil quando entra na pauta de um órgão gera demandas e intervenções para outros. É o que ocorre com o próprio conselho tutelar, que necessita encaminhar as crianças e adolescentes vítimas de violência sexual para outros órgãos.
A pauta maior veio em 2001, quando se formaram aqui em Manaus o Sentinela, no qual começou a atuar mais diretamente, sendo para nós uma válvula de escape para essa situação com todas as deficiências que existem.285 (Conselheiro Tutelar)
Eu conheço desde 97 quando foi criado o primeiro Conselho Tutelar, que foi o da Zona Leste. Aí, quando foi em 2000, eles criaram mais cinco Conselhos Tutelares.286 (Conselheiro Tutelar)
Diante destes depoimentos, ratifica-se a direção já apontada por outros atores em que programas do governo federal voltados para crianças e adolescentes vítimas de violência sexual são considerados marco na formação desta agenda. Mesmo reconhecendo as suas limitações, como será visto no próximo capítulo.
Por fim, cumpre-nos destacar a importância de ampliação dos conselhos tutelares, como apontou o depoimento do entrevistado, para assegurar o tema violência sexual infanto-juvenil na agenda pública. Órgãos como esses, implantados e implementados, podem contribuir para defesa dos direitos da infância e fortalecimento do próprio sistema de garantia de direitos. Contudo, como será visto adiante, ainda estão distantes da realidade desejada, pois muitas vezes não garantem condições mínimas de funcionamento.
285 Entrevista realizada em 24/11/2006. 286 Entrevista realizada em 30/11/2006.
O Ministério Público do Estado do Amazonas, segundo depoimento do promotor público entrevistado, incorpora em sua agenda o tema da violência sexual infanto-juvenil concomitante à instalação dos conselhos de direitos que pautaram esse tema.
O Ministério Público passa a ver que a exploração, a violência sexual é um dado que merece ser enfrentado, porque é pauta, é agenda do dia posta pela sociedade. Não foi em princípio o Ministério Público que detectou, pautou, quem agendou, foram os conselhos dos direitos que fizeram essa agenda.287 (Ministério Público)
A sociedade local de fato tem pautado esse tema junto com outros órgãos como conselho tutelar quando denuncia, cobra providências e pressiona o poder público. Contudo, não se tem evidências para afirmar que os conselhos de direitos da criança e do adolescente tenham pautado esse tema de forma direta para a sociedade, pois mesmo promovendo debates, seminários, não tem se apoderado, como declaram os próprios conselheiros, do seu papel político.
Do ponto de vista extremamente institucional com a Constituição de 1988, o Ministério Público passou a ter a incumbência da defesa de todos os interesses e direitos relacionados à infância e a juventude, como atribuição institucional, como missão institucional. E em 1990, o Estatuto da Criança coloca de maneira ainda mais objetiva estas atribuições na defesa e promoção desses interesses.288 (Ministério
Público)
A entrada da violência sexual infanto-juvenil na agenda pública significa uma incorporação pelas instituições em suas atividades. No caso do MP do estado do Amazonas, as atribuições estão explicitadas na lei, mas é principalmente por meio da articulação com outros órgãos da rede de proteção – entre os quais se destacam os conselhos tutelares, pois fazem demandas diretas ao MP – que se mantém a agenda. Portanto, a agenda, como se pode confirmar pelo depoimento de vários entrevistados, se insere no sistema de garantia de direitos previstos no novo reordenamento jurídico brasileiro.
Por último, é interessante ressaltar a compreensão de uma representante da delegacia especializada de proteção à criança e ao adolescente sobre a inclusão do tema violência sexual infanto-juvenil na agenda pública local. Quando questionada
287 Entrevista realizada em 20/12/2006. 288 Entrevista realizada em 20/12/2006.
se o governo municipal e estadual tem se preocupado com a questão e a inserido em sua agenda, a entrevistada respondeu:
Eu nunca senti essa preocupação do governo, até porque a violência contra a criança e adolescente quando acontece nos bairros nobres isso aí fica lá mesmo. [...] Esse é um tipo de problema que não tá atingindo os governantes. Tem meninas aqui na Efigênio Sales, tem crianças aí à noite “fazendo ponto”, mas, isso aí não está
incomodando, isso não incomoda.289 (Representante da DEPCA)
Essa mesma visão é enfatizada e compartilhada pelos representantes do Fórum Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente e da Casa Mamãe Margarida que trabalham em organizações não governamentais na Zona Leste da cidade de Manaus, em que se encontra a maior parte dos bairros da periferia. Eles também apontam a omissão do poder público no sentido de coibir, combater práticas de exploração sexual como as citadas em que crianças e adolescentes fazem ponto, “oferecem” seus serviços sem nenhuma oposição das autoridades públicas, que geralmente não estão presentes. Essa questão da ação ou omissão do poder público será analisada no capítulo quatro na discussão da gestão da política. No momento, cumpre-nos destacar que a inclusão da violência sexual infanto-juvenil na agenda pública se manifesta de forma contraditória nos aparelhos do Estado, pois enquanto alguns órgãos defendem e procuram implementar essa agenda, outros não garantem as agendas, e, por conseguinte, fortalecem a omissão.