Os métodos de implantação da nova política externa empregados pela diplomacia brasileira, para atingir os objetivos propostos, variaram de acordo com as diferentes análises existentes na literatura, mas podem ser resumidos em quatro principais: impulso da cooperação sul-sul e da formação de novas coalizões e parcerias; busca de agenda de cooperação com parceiros tradicionais; multilateralismo da reciprocidade; internacionalização da economia brasileira. A figura 3 sintetiza, de acordo com a literatura analisada, as principais características, objetivos e métodos de implantação da Política Externa do governo Lula17:
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Figura 3: Características, objetivos e métodos de implantação da Política Externa de Lula
O impulso da cooperação sul-sul e a formação de novas coalizões e parcerias podem ser considerados os métodos de implantação da PEB de Lula mais emblemáticos, extensamente propagados pelos formuladores da política externa e pelas contrapartes brasileiras. Parceiros não tradicionais da PEB, como Índia, África do Sul, Rússia, China e países do Oriente Médio (Líbano, Egito, Palestina, Israel, Síria, Arábia Saudita, Irã e Iraque) passaram, com o início do governo Lula, a receber atenção especial por parte de setores governamentais, reativando-se relações bilaterais adormecidas e formando-se novas coalizões.
Assistiu-se, nesse sentido, durante os oito anos da administração Lula, ao estabelecimento de novos arranjos político-diplomáticos e coalizões entre países emergentes, como, por exemplo: o mecanismo de coordenação IBAS18, o agrupamento BRICS19, a Cúpula América do Sul – África (ASA), a Cúpula América
do Sul – Países Árabes (ASPA), o Mecanismo BASIC e o G-20 Comercial. Segundo Cervo (2010; 2012), essas coalizões tiveram como meta principal a criação de contrapoder; percebe-se ademais que as novas coalizões serviram para o objetivo geral da política externa brasileira: o de projetar, internacionalmente, o Brasil no contexto internacional e fazê-lo ser visto como global player por seus pares. Para
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Mecanismo de coordenação político-diplomática formado por Índia, Brasil e África do Sul, fundado em junho de 2003, em Brasília.
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Agrupamento formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, fundado em maio de 2008, cujo objetivo é transformar-se em mecanismo de interação no âmbito dos principais temas da política e da economia global. CARACTERÍSTICAS 1.Nacionalismo. 2. Multilateralismo estratégico. 3. Universalismo. 4. Formação de alianças. 5. Liderança regional OBJETIVOS 1. Garantir a presença soberana do Brasil. 2. Reforma da governança global. 3.Conquista de assento permanente no CSNU. 4. Liberalização de mercados. 5. Expansão do comércio internacional. METODOLOGIA DE IMPLANTAÇÃO 1. Agenda de cooperação com parceiros tradicionais. 2. Impulso da cooperação sul-sul. 3. Multilateralismo da reciprocidade. 4. Internacionalização da economia brasileira.
além da projeção do país, as novas coalizões serviram ao objetivo brasileiro de promover a reforma da governança global consoante ressalta nota à imprensa divulgada pelo Itamaraty por ocasião da Reunião dos BRICS, em Ecaterimburgo, em maio de 2008:
Os BRICS defendem um cenário internacional baseado no multilateralismo e no direito internacional, com maior participação dos países em desenvolvimento nas instâncias decisórias. Por suas características políticas, econômicas e sociais, os BRICS podem servir como ponte entre o mundo desenvolvido e o mundo em desenvolvimento na promoção do desenvolvimento sustentável e de uma agenda internacional mais equilibrada.
Em paralelo à busca por novas coalizões e formas de cooperação sul-sul, a diplomacia brasileira, durante os anos Lula, empenhou-se em reforçar a agenda de cooperação com parceiros tradicionais, como os Estados Unidos, a União Europeia e o Japão, restaurando canais de comércio tradicionais. A cooperação sul-sul, dessa maneira, não substituiu o relacionamento com os EUA e a União Europeia, mas representou oportunidade de ampliar o comércio e as relações bilaterais brasileiras. Com relação à UE, por exemplo, em Declaração à Imprensa, após a Cúpula Brasil- União Europeia, em dezembro de 2008, o Presidente Lula destacou:
Queremos um diálogo condizente com uma parceria que já nasceu madura (...). Desde que lançamos a Parceria, na Cúpula de Lisboa, em 2007, confirmaram-se as expectativas quanto ao potencial dessa aliança. Neste ano, nosso intercâmbio comercial cresceu 26% e superou os US$ 77 bilhões, ou seja, 22% do comércio global do Brasil. Os investimentos diretos dos países membros da União Europeia no Brasil, em 2007, somaram US$ 18 bilhões. Isso equivale a 54% do que recebemos naquele ano.
A disseminação do conceito de multilateralismo da reciprocidade (CERVO, 2010; 2012) é outro método de execução dos objetivos da política externa brasileira que possui diversas formas de expressão. Segundo Cervo (2010), autor do conceito de multilateralismo da reciprocidade, a partir de 2003, a PEB encontrou mais força para demandar reciprocidade em suas relações internacionais. A diplomacia brasileira, em consequência, passou a adotar diretriz segundo a qual a reciprocidade apenas será garantida em todas as áreas da ordem internacional quando as regras da ordem multilateral beneficiarem todas as nações.
A defesa do multilateralismo como ordem ideal do sistema internacional passou a ser principal bandeira brasileira nas diversas áreas da política internacional
contemporânea: economia, comércio, finanças, segurança, mudanças climáticas, saúde e direitos humanos. Duas premissas defendidas pela PEB de Lula foram fundamentais para a implantação desse conceito: a existência de regras compartilhadas para o ordenamento internacional e a elaboração conjunta dessas regras, de modo a garantir reciprocidade de efeitos (CERVO, 2010; 2012).
Em aula inaugural do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 13 de abril de 2009, o ministro Celso Amorim destacou a ênfase ao multilateralismo como método de implantação da PEB:
O multilateralismo é a expressão normativa da multipolaridade. O Brasil comunga de visão multilateral das relações internacionais. O multilateralismo interessa ao Brasil, porque nossa ação internacional é pautada pelo pacifismo e por um comprometimento com o direito internacional. A via multilateral, com todas as limitações que tem, contribui para a construção de uma ordem internacional mais justa.
A internacionalização da economia brasileira, por fim, também deve ser levada em consideração como método para se implantar os objetivos da PEB. Segundo Cervo (2012), a partir do governo Lula, a internacionalização de empresas brasileiras foi adotada como uma das principais estratégias da ação externa do país. O objetivo de integrar-se à globalização financeira passou a ser exercido pelo Brasil por meio da busca de acesso a novos mercados e da expansão internacional dos empreendimentos brasileiros. Segundo Cervo (2010; 2012), diferentemente da perspectiva dos anos 1990, um dos objetivos principais do Estado brasileiro a partir do governo Lula passou a ser a formação de empresas nacionais fortes (apoiadas logisticamente e financeiramente pelo Estado) e capazes de competir em escala global. Pode-se perceber que a internacionalização da economia brasileira entrou em ritmo acelerado, a partir de 2005, acompanhando a tendência de outros países emergentes20 (CERVO, 2010; 2012).
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A corrente de comércio do Brasil durante os dois governos Lula cresceu muito em um período em que a corrente de comércio de todos os países, principalmente os em desenvolvimento, também teve crescimento vertiginoso.