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O local específico para ser o destino de indústrias da TIC passa a ser uma disputa entre cidades, pois outros municípios da região buscavam o privilégio de receber esse tipo de indústria. Essa disputa não era tão fácil de ser vencida. Por exemplo, a Fundação SEADE aponta que, no período entre 1995 e 2003, das 22 cidades que compõem a região metropolitana de Campinas, ao menos 10 (Artur Nogueira, Cosmópolis, Engenheiro Coelho, Itapira, Mogi-Guaçi, Mogi-Mirim, Montemor, Paulínia, Pedreira e Sumaré) cederam ou doaram terrenos como incentivo à implementação de empreendimentos18. Jaguariúna não

consta dessa lista. A alternativa seria se organizar administrativamente, e isso viria por meio da ação política.

Kerbauy (2001) mostra que a transferência de poder aos municípios implica em responsabilidade, em participação na estrutura do poder e em modernização gerencial da gestão pública. Cita, ainda, que, apesar da obrigatoriedade de se criar conselhos de participação pública em áreas que exijam estratégias de indução, por exemplo, no âmbito do trabalho (na questão da geração de empregos), essa decisão está ligada à ação do executivo local.

Em outras palavras, apesar de haver outros atores que podem influenciar na definição de uma política pública específica, esta acaba sendo induzida por processos políticos locais (KERBAUY, 2004), particularmente na esfera do poder executivo. No âmbito da política local, o ponto de inflexão parece ter sido o ano de 1983.

Era o primeiro ano da gestão Laércio Gothardo e Tarcísio Chiavegato, e como obra pública mais simbólica desse período fica a demolição dos pontilhões da FEPASA. Isto

18 Disponível em:

<http://www.seade.gov.br/produtos/imp/index.php?page=consulta&action=var_list&busca=Gest%E3o+Municip al+em+Pol%EDtica+Urbana>. Acesso em 31 jan. 2010.

porque mudanças feitas à época, que alteraram o traçado férreo da região, fizeram com que o pontilhão perdesse sua função original, acabando por se tornar apenas um entrave à operacionalização de Jaguariúna, logisticamente falando, pois suas dimensões reduzidas (5,50 m de largura por 3,45 m de altura) impediam o tráfego de caminhões grandes para escoamento da produção local. Mesmo sem o aval da companhia férrea, a prefeitura conseguiu implodir a estrutura, abrindo espaço para o trânsito de grandes cargas (RIBEIRO, 2008).

É uma ação simbólica, pois, ao invés de ser uma construção, é uma demolição e representa uma ação política que indicava que a cidade desejava alterar seu destino econômico. Além disso, dois outros eventos ocorridos ainda nessa gestão tiveram consequências importantes para o futuro do município. O primeiro deles foi a elaboração do Plano Diretor Físico do Município de Jaguariúna, a Lei nº 708 de 02 de julho de 1985 (RIBEIRO, 2008).

É essa lei que organiza o espaço físico Jaguariunense e estabelece o dimensionamento, a localização, a divisão territorial e o zoneamento, visando o planejamento e a execução dos melhoramentos necessários à condução da cidade ao progresso (PREFEITURA MUNICIPAL, 1985, artigos 3º e 4º).

A importância e os resultados práticos da lei são vistos ainda hoje, demonstrando a qualidade do projeto. Foi a partir desse zoneamento que a iniciativa privada planejou a implantação de um condomínio industrial em 2000, que tem como característica principal a infraestrutura comum, dado que, com um abastecimento comum de energia elétrica e serviços, como o de pesagem, diminuíram-se os custos de logística, tornando possível abrigar pequenas e médias indústrias (GAZETA REGIONAL, 02 set. 2000, p. 7).

Outro importante evento de 1983 foi a criação de um plano de desenvolvimento que estabeleceu objetivos para a Jaguariúna do ano 2000. Nesse processo criou-se um modelo de gestão no qual a receita pública deveria ser dividida em três partes: um terço para o funcionalismo público, um terço para o custeio da máquina pública e o outro terço para investimento (PREFEITURA DE JAGUARIÚNA, 1992)19. Ou seja, uma espécie de versão

simplificada do que seria a futura Lei de Responsabilidade Fiscal, que só veio a ser instituída no ano 2000 e visava exatamente prevenir o desequilíbrio financeiro das contas públicas20.

19 Levantamento realizado na condução desse trabalho, indicou que entre 1983 e 2007, a média de investimentos

na cidade foi de 22% da arrecadação total, ou seja, se não está igual ao planejado, se mantém ao menos em uma porcentagem significativa, se considerarmos o grande crescimento na arrecadação a partir da chegada das empresas da TIC. Fonte SEADE.

Tal forma de gestão levaria ao reconhecimento público. Em 2003, o município foi reconhecido pelo Conselho Federal de Contabilidade com o Certificado de Gestão Fiscal Responsável. Esse prêmio foi concedido a 39 municípios (entre os 1400 que se candidataram) pelo cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal21. O passo seguinte foi o

estabelecimento da Lei Orgânica do Município, de 1990, a qual foi elaborada já contemplando essa política de desenvolvimento.

No entanto, não foi apenas uma questão de organização física voltada para o futuro. O município concedeu uma série de benefícios fiscais para as empresas que por lá aportassem. Ela isentou, por meio de seu código tributário, as empresas que têm por atividade a projetação e fabricação de equipamentos de sistema de comunicação e/ou processamento de dados – ou seja, empresas da TIC – do pagamento dos seguintes impostos e taxas: Imposto sobre a Propriedade Territorial Urbana (por 20 anos), do Imposto sobre a Propriedade Predial (por 20 anos), de Impostos sobre Serviços de Qualquer Natureza (por 20 anos), do Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis e das Taxas Decorrentes do Efetivo Exercício do Poder de Polícia Administrativa (por 20 anos) (PREFEITURA MUNICIPAL, Lei complementar 4, artigos 34, 58, 89, 94 e 132; PREFEITURA MUNICIPAL, Lei complementar 33). Essa isenção passa a ocorrer em 1996, ano da instalação da Motorola na cidade.

Se, segundo Kerbauy (2008), a constituição de 1988 tentou resgatar a autonomia dos municípios, operando no sentido da descentralização fiscal, Jaguariúna, pela iniciativa política local, surge já em 1983 como um ator político que influenciaria seu futuro.

Os documentos evidenciam o plano não apenas de industrializar Jaguariúna, mas também de poder escolher o tipo de indústria a ser instalada nela. Nesse contexto, uma indústria moderna, com baixo índice de ameaça ambiental e fortemente recrutadora se instala na cidade. As características da indústria da TIC.

3.4 Uma segunda reflexão: considerações sobre as políticas públicas voltadas ao

Benzer Belgeler