• Sonuç bulunamadı

Sinema ve Toplumsal Etkileşim İlişkisi

As ideias sobre a lei da natureza começaram a surgir na Antiga Grécia. Aristóteles, sem acreditar numa autêntica transcendência divina, entendia que a ordem jurídica está imersa numa ordem universal ou cósmica, de natureza objetiva, orientada a fins de perfeição (MOGLIO, 1998). Mais tarde, a filosofia estoica23 elaborou uma teoria precursora de lei fundamental, imutável e permanente, que se apresenta ante os seres humanos como medida do justo e do injusto, tornando-se uma norma. Desta forma, todas as leis humanas derivam do direito natural, desde que sejam leis justas (VERDROSS,1983).

Santo Agostinho foi um dos primeiros em elaborar uma doutrina harmonizando o cristianismo com as ideias sobre lei natural, advindas da antiguidade Greco-romana. Segundo este teólogo cristão, o direito positivo está

23 A filosofia estoica é uma corrente de pensamento surgida na Grécia, na escola de Zenão de Cítio,

aproximadamente no ano 300 a. C., que se ocupou da ética e dos valores. Na Roma Antiga, foi representada principalmente por Sêneca, Epicteto, Marco Aurélio e Cícero (VERDROSS, 1983).

baseado no direito natural, que por sua vez, é um aspecto da lei eterna. Vários séculos mais tarde, Santo Tomás de Aquino retomou esta teoria da escala hierárquica de leis, que compreende a lei eterna, identificada com a própria vontade de Deus, a lei natural e a lei humana. A lei natural, neste entendimento, não constitui um sistema de normas concretas, senão que se apresenta como uma manifestação da vontade divina sobre a natureza humana, sendo possível o descobrimento dos seus fins e inclinações naturais. Finalmente, as leis humanas devem basear-se nos princípios da lei natural (VERDROSS, 1983; WOLKMER, 2001).

Durante toda a Idade Média, as ideias sobre lei natural foram relacionadas com a vontade de Deus. Posteriormente, utilizando elementos dos textos romanos, os teóricos do Renascimento recuperaram esta noção, entendida como uma lei racional, imutável e transcendente às leis humanas, desprovida de fundamentos divinos (PIPES, 2001) e apenas acessível através da razão. O jusnaturalismo racionalista, desenvolvido desde o século XVI até o século XVIII, sustentava a teoria de que o homem permaneceu alguma vez num estado de natureza, anterior à aparição do Estado, onde sua liberdade era manifestada através de uma série de direitos, naturais e inatos. Estes direitos, que incluíam a propriedade privada, tinham sido reconhecidos ao celebrar-se o Contrato Social para constituir a sociedade política, limitados apenas pelas exigências derivadas da própria convivência (PIPES, 2001; TORRÉ, 2003). A propósito, são vários os autores que assinalam que a elaboração destas teorias tinha marcados matizes políticos, sendo impulsionada nem tanto pela sede de conhecimento, mas pela necessidade de entender o funcionamento do mundo e da sociedade para poder transformá-los, conforme o espírito revolucionário que imperava na época (SANDLER, 1981; TORRÉ, 2003).

Devemos apontar que, lembrando o dito anteriormente sobre os três principais sentidos da palavra direito (objetivo, subjetivo e justo objetivo), o direito natural também pode ser entendido de modos diferentes, segundo o sentido levado em conta. Na análise das distintas teorias sobre direito natural que têm sido esboçadas ao longo da história, podemos encontrar as três tendências: no período antigo, o direito natural era entendido como um ordenamento jurídico de leis naturais concretas, ou “direito objetivo natural”; já a noção de lei natural pretendida por Santo Tomás de Aquino, lhe outorgava um significado de “justo objetivo natural”; mais tarde, as teorias modernas sobre direitos naturais inatos referiam-se a um “direito subjetivo natural” (SANCHEZ VAZQUEZ, 1990; MOGLIO, 1998).

Durante o século XIX e parte do século XX, houve um estancamento do direito natural, em razão da grande notoriedade adquirida pelas teorias positivistas24

(VERDROSS, 1983). Na época, o qualificativo “jusnaturalista” era utilizado de forma depreciativa para indicar concepções consideradas fora do âmbito do jurídico, formado apenas pelo direito positivo (SANCHEZ VAZQUEZ, 1990). A propósito, todo esse trabalho filosófico que, durante vários séculos, tentou definir e elaborar uma teoria conveniente sobre direito natural, não foi abandonado. Essas elaborações teóricas foram materializadas em inovadores textos legais de relevância mundial, como a Constituição dos Estados Unidos e o Code do Napoleão, que iniciaram a era do constitucionalismo e da codificação, respectivamente. Ambos os textos contêm fórmulas jurídicas que expressam, tanto intrínseca como extrinsecamente, um ideal de sociedade, ou seja, seu ‘dever ser’. Assim, o direito natural perdeu exclusividade em relação a seu conteúdo, o que acarretou uma diminuição de sua importância como disciplina jurídica autônoma e o reduziu a um mero conjunto de princípios norteadores do direito positivo (SANDLER, 1981).

No século XX, finalmente, houve uma revalorização do direito natural, principalmente após as duas Grandes Guerras, tendo-se falado de seu “renascimento” por numerosos autores (MASSINI CORREAS, 2005). As teorias positivistas não tinham conseguido responder adequadamente à questão do fundamento do direito, sendo necessária a aceitação da ideia de que existe uma norma suprapositiva que lhe outorga validade e justifica sua obrigatoriedade, concepção própria do direito natural (VERDROSS, 1983). Assim, no campo jurídico, ressurgiu como uma contestação do positivismo, mas também foi utilizado nos campos econômico e social para responder ao materialismo histórico e aos regimes totalitários. De modo geral, as teorias contemporâneas sobre direito natural têm abandonado a ideia de imutabilidade e eternidade, incompatíveis com o pensamento político e a cultura jurídica atual. O jusnaturalismo é entendido desde sua relação com a história, imanente ou decorrente dela, em aproximação às teorias sociológicas e realistas do direito (SANCHEZ VAZQUEZ, 1990). O homem apresenta uma dupla natureza: como ser social, mas também como pessoa ética que é elevada sobre a vida comunitária. Este entendimento é o ponto de partida para afirmar que o direito,

24 O positivismo jurídico, de modo geral, defende a definitiva separação do direito com qualquer base

moral ou metafísica, entendendo o sistema normativo como um produto da história e da vontade política, conformando um sistema de regras que regulam a conduta da sociedade (SABADELL, 2005).

produto da razão, também deve atender a essa dupla realidade, por um lado, assegurando os direitos que a pessoa humana possui por natureza e, por outro lado, criando as condições essenciais para que possa conduzir sua vida em harmonia com sua dignidade. Em consequência, junto à proteção dos direitos individuais, aparece também a necessidade da promoção e desenvolvimento dos direitos sociais (VERDROSS, 1983).

Assim, ao longo da história, o direito natural tem sido utilizado muitas vezes como instrumento para legitimar as reivindicações das classes engajadas em movimentos de rebeldia, por outorgar uma base que, sem levar em conta as normas religiosas, possibilita a criação do direito. No entanto, o direito natural também tem servido, outras tantas vezes, para legitimar poderes autoritários de todo tipo (SANCHEZ VAZQUEZ, 1990). Esta constatação constitui um dos principais argumentos contra as teorias sobre direito natural. De fato, em seu âmbito existem conteúdos jurídicos contraditórios desenvolvidos ao longo da história: tem-se justificado tanto a escravidão como a liberdade, tanto a propriedade privada como a propriedade comum, entre outros conceitos (VERDROSS, 1983).