A comunidade São Rafael foi formada a partir dos ex-trabalhadores da fazenda São Rafael, que abrangia a região dos atuais bairros do Castelo Branco I, II e III, Bancários, Cidade Universitária e início do Bairro de Mangabeira. Estes trabalhadores, após a construção da BR 230 (Transamazônica), ergueram suas casas às margens do Rio Jaguaribe e, com o passar do tempo, a população cresceu e os problemas comuns a localidades de risco também.
Trata-se, portanto, de uma comunidade pobre em um território de exclusão social e econômica. As casas foram erguidas em uma localidade aonde o interesse imobiliário não chegaria, sendo habitada por pessoas que não possuíam outra opção, configurando um espaço esquecido pelo Estado por muitos anos. Na década de 1980, interesses políticos favoreceram a melhoria das moradias, com a construção de uma escola e do posto de saúde.
Atualmente, cerca de 1.430 moradores21 habitam na comunidade, sendo 692 do sexo masculino e 738 do sexo feminino. A grande maioria das casas é de alvenaria, embora se possam encontrar ainda casas de taipa habitadas na comunidade, que sofrem com inundações do rio Jaguaribe nas chuvas de inverno.
Segundo dados do IBGE, 58,46% da população do bairro, que possui entre 15 e 50 anos, encontra-se apta ao trabalho, e 89,72% das crianças de 7 a 14 anos frequentam a escola.
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Moradores acima de 15 anos alfabetizados correspondem a 84,61% do total dessa faixa etária. Na comunidade, 135 famílias recebem bolsa família, compreendendo 31,84% das famílias residentes no São Rafael (LUCENA, 2013).
A renda média das famílias é de 1 a 3 salários mínimos. Estima-se que a maioria das famílias recebe algum benefício redistributivo advindo das políticas das três esferas de governo. A maioria das pessoas mora em habitações próprias (SILVA et al, 2014).
A comunidade possui uma Escola Estadual de Ensino Fundamental São Rafael e um Posto de Saúde. Na região central da comunidade existe uma praça com um jardim que já foi objeto de trabalho da comunidade, recebendo inclusive um prêmio municipal pelo Jardim mais bonito de João Pessoa.
Contam-se 29 pequenos comerciantes, em sua maioria empresas familiares, que moram no estabelecimento comercial e vendem os mais variados produtos. Podemos dizer, utilizando a categoria de Milton Santos, que esses comerciantes estão inseridos no circuito inferior da economia, onde o capital é reduzido, carecem de crédito e incentivos para fomentar seu comércio. O consumo dos moradores se efetiva nos comércios locais, principalmente no mercado do bairro da Torre, por conta da proximidade com a comunidade.
O São Rafael conta com uma associação comunitária, o Centro Popular de Cultura e Comunicação – CPCC, que coordena a Rádio Comunitária “Voz Popular” (rádio difusora de poste). Existe ainda na comunidade empreendimentos econômicos solidários, como o grupo de produção “Jovem Pão”, que mantém uma padaria comunitária. Ambos os empreendimentos foram construídos com o amparo de organizações de apoio, sendo uma a ONG ESSOR Brasil e a outra a Incubadora de Empreendimentos Solidários da UFPB.
A comunidade São Rafael possui forte organização comunitária, que foi se consolidando ao longo dos anos com a presença e o apoio de várias organizações e de políticas públicas de inclusão social realizadas no bairro. Dentre essas organizações, algumas são de natureza religiosa, como: Entidade Beneficente Evangélica (EBE); Assembleia de Deus Missão; e Igreja Nazarena. Há uma associação atuante na comunidade que é o Grupo de Alcoólicos Anônimos. Outra instituição importante do território é a Associação de Moradores da Comunidade São Rafael (AMCSR), que representa a comunidade frente ao poder público.
Dentre essas instituições, o Centro Popular de Cultura e Comunicação – CPCC se destaca como grande liderança nas ações e projetos realizados, tanto em parceria com o poder público como com instituições da sociedade civil. Enquanto organizações externas de apoio às ações no território do São Rafael, destacamos a AMAZONA - Associação de Prevenção à AIDS; a ESSOR Brasil - Association de Solidarité Internationale, que vem desenvolvimento
projetos de profissionalização e geração de trabalho e renda; e a Incubadora de Empreendimentos Solidários – INCUBES da UFPB.
Através da INCUBES, também atua como parceiras no Projeto Bancos Comunitários a Incubadora Tecnológica de Economia Solidária – ITES, da Universidade Federal da Bahia – UFBA. A Prefeitura Municipal de João Pessoa também possui ações na comunidade, principalmente através da Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres.
Tais organizações contribuíram com suas atividades para a construção e crescimento da capacidade organizacional da comunidade e a cultura do sentimento de ajuda mútua, solidariedade entre iguais, percebida na fala a seguir de um morador e integrante do banco Jardim Botânico.
Aqui, as pessoas se ajudam. Se algum morador tiver com dificuldade, desempregado, vai ali no Som de Pouso22 ou na Rádio Comunitária. Se a
gente fizer um apelo para arrumar uma cesta básica para algum morador que está passando por dificuldade, é ligeiro demais viu, chega até dinheiro, chega remédio, alimento chega tudo. (IB 2).
A vivência das mesmas dificuldades fortalece as relações de proximidade, confiança mútua e organização coletiva, capazes de amenizar a dura realidade vivida nestas
comunidades. A organização comunitária e o acúmulo de lutas consolidaram experiências importantes como o CPCC, a Rádio Voz Popular, a padaria comunitária, que fortalecem a vivência comunitária e o sentimento de pertencimento na comunidade.
Fruto de toda esta construção e resistência comunitárias, o CPCC funciona como uma instituição âncora de vários projetos no bairro. Lembrando estas parcerias, um integrante do banco fala da experiência que viveu em novembro de 2011, quando teve o primeiro contato com uma moeda social local:
Em novembro de 2011, a moeda social que a gente circulou, sem nem saber que era moeda social, a gente tem parceria com a RECID - Rede de educação cidadã, que existe no Brasil inteiro e aqui na PB a RECID fazia parte do fórum de economia solidária e tinha parceria com a Amazona e a Incubes, que criou a padaria comunitária e começou a discutir economia solidária com agente. Ai, quando foi em outubro, a RECID ia fazer uma feira no centro de vivência da Universidade, e sempre usava umas fichas de papel porque tinha feira de troca e as pessoas levavam os produtos e tal. A gente já tinha participado de umas três feiras da RECID com a Amazona. A gente levava uns pãezinhos, material de limpeza e trocava por fichas de papel, ficha normal. O coordenador da RECID, na época, como eu fazia essa parte das artes, banners aqui do CPCC, ele perguntou se havia possibilidade de a gente fazer uma moeda pra ela circular na feira, pra gente não ficar usando ficha. Eu disse: rapaz, tem... Mas eu nunca tinha visto essa coisa de moeda.
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Tem como tu fazer pra circular na feira? Eu disse: tem! Tinha o nome de Oxente, que já veio da RECID, e ai em dezembro a INCUBES veio com a história de banco, foi muita coincidência. (IB2).
Desde 2006, a INCUBES (Incubadora de Empreendimentos Solidários) da UFPB vem acompanhando e fortalecendo os empreendimentos nesse território. Levando em conta o histórico organizativo da comunidade, seu envolvimento com a economia solidária, decidiu expor a ideia do banco comunitário a ser realizado em parceria da ITES/UFBA, propondo a implantação de um Banco Comunitário Jardim Botânico com moeda social.