Parte dos boletins classificados no tema “medidas socioeducativas” se dedica a colocar em evidência ações de mobilização contra a redução da maioridade penal. Os boletins informam sobre campanhas, protestos, debates, quase todos capitaneados por organizações da sociedade civil. Eles se concentram em 2000, 2001, 2003 e 2007. Nesses dois últimos anos, casos específicos mobilizaram a atenção da cobertura midiática em geral. Em 2003, a morte de um casal de namorados em São Paulo e, em 2007, a morte do menino João Hélio, contaram com a participação de adolescentes. Tais casos chegaram a ser brevemente mencionados nos boletins. Mas, de maneira geral, os boletins se concentram em apresentar os argumentos contrários à redução. A seguir destacamos a leitura feita a partir de dois boletins:
Boletim 18, fevereiro de 200034
A edição de número 18 (anexo 1), veiculada em fevereiro de 2000, é composta de três unidades de texto. Encabeçando a edição, uma das caixas destaca:
De acordo com o Estatuto, o adolescente que comete ato infracional necessita cumprir medidas sócio-educativas de internação. Porém, o Estado não possui locais adequados para acolhê-los e, contraditoriamente, o governo, juntamente com a sociedade, acredita que a redução da idade penal seja a solução para o problema. (Boletim 18, 2000)
Não temos o propósito de esmiuçar a construção de cada frase, mesmo porque, como destacado, buscamos ver a lógica argumentativa que se desenha no conjunto. Mas a pequena passagem destacada é exemplar em relação ao privilégio dado pelo boletim a uma dimensão argumentativa.
34 O boletim de número 18 não foi oficialmente incluído na contagem, por se constituir apenas de notas. Contudo, após a definição das agendas temáticas tal edição pareceu-nos significativa. Em razão disso, optamos por incluí-la na leitura que se realiza nesta parte da pesquisa.
99 À esquerda do boletim, um pequeno texto denuncia a ausência de estrutura para o cumprimento das medidas socioeducativas na cidade de Montes Claros. À direita, em uma caixa, o texto destaca a mobilização da sociedade contra as propostas de redução da idade penal. O título deixa claro o posicionamento colocado em evidência: “Minas se mobiliza contra a redução da idade penal”. A análise que se segue toma por referência essa caixa de texto.
O texto ainda era organizado à semelhança de uma agenda e não reporta a fala de nenhum entrevistado. As informações são extraídas de um documento que ainda estava sendo elaborado por “mais de 200 instituições de Minas Gerais”. Mesmo não finalizado, esse material deu base para a construção do boletim, que destaca:
o documento que ainda está sendo elaborado pelas instituições alega a ineficácia e a inconstitucionalidade da redução, já que esta proposta não reconhece a condição peculiar do adolescente como pessoa em desenvolvimento e não oferece mudanças nas condições sociais que o levaram a transgredir. (Boletim Prioridade Absoluta, 18, 2000)
A partir da nota, destacamos os seguintes atores:
Instituições: com uma denominação genérica, as mais de 200 instituições são apontadas como responsáveis pela ação em curso – a mobilização contra a proposta de redução. Trechos do documento, cuja autoria é creditada a tais instituições, são reportados em discurso direito e indireto. De acordo com o material, os adolescentes não ficam impunes, “o que ocorre é a negligência do governo e da sociedade em geral que não dispõem, e nem se empenham em dispor, dos meios necessários para a realização das medidas legais que possibilitam a inclusão social desses cidadãos”. Na lista de fontes, colocada ao final da nota, é indicada a Frente de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, que reúne organizações da sociedade civil com atuação na área, e a Visão Mundial, também uma organização não governamental.
Governo: figura como negligente e omisso, visto que não se empenha para oferecer os meios necessários à execução da medida.
Sociedade em geral: também figura como negligente e omissa, visto que não se empenha para oferecer os meios necessários à execução da medida.
Adolescente: reportado, no relato do documento citado, como pessoa em condição peculiar de desenvolvimento e sujeito a condições sociais que o levam a transgredir.
100 abril: dia de dizer não à redução da maioridade penal”. Em três chamadas subsequentes, o boletim destaca:
Terça-feira, 10, é Dia Nacional de Mobilização Contra a Redução da Maioridade Penal; Implementação do Sinase é uma das bandeiras;
Faltam informações sobre medidas socioeducativas em meio aberto no estado. (Boletim 279, 2007)
O boletim tem início situando uma mobilização de fóruns e entidades contra projetos de lei em discussão no Senado que propunham a redução da maioridade penal. Tal mobilização ainda está por vir e, de acordo com o boletim, também tem por objetivo pedir a efetiva implementação do Sinase, com prioridade para as medidas de meio aberto. Em uma caixa de texto destacada, o boletim lista uma série de dados, apontando o crescimento da internação e o perfil dos adolescentes internados. Na sequência, apresenta dados sobre a internação em Minas Gerais e critica a ausência de informações sobre as medidas de meio aberto, com ressalva para o pioneirismo de Belo Horizonte.
O boletim também apresenta um quadro explicativo sobre as medidas socioeducativas e outro em que se propõe a abordar o que chama de “a outra face da redução da maioridade penal”. Em um intertítulo, intitulado “Falácias da redução”, divulga uma nota veiculada pelo Conanda em solidariedade à família do menino João Hélio. O boletim destaca trechos da nota que questionam a efetividade da redução e é finalizado com um panorama das votações legislativas.
O boletim localiza um evento específico, a mobilização, a partir do qual desenvolve uma discussão mais ampla. Sobre o evento, propriamente, em apenas uma frase informa como será a atividade em Brasília. Não há informações sobre as atividades em Minas Gerais. Para além dessa ocorrência, o texto se aproxima quase a um dossiê. Embora haja breve menção ao episódio do menino João Hélio, a abordagem é direcionada a um cenário mais amplo.
O texto proposto nos permite identificar pelo menos seis atores centrais, caracterizados a seguir:
Fóruns estaduais e entidades de defesa dos direitos da criança e do adolescente: são responsáveis pela ação em vias de se concretizar: “estarão mobilizadas na organização de diversos eventos”. Pretendem “marcar” um posicionamento e “pedir” a implementação do Sinase. Mas não há referência no texto à escuta efetiva de tais fontes.
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População em geral: a menção explícita é breve: “A discussão sobre o aumento do período de internação e sobre a redução da maioridade penal evidencia o desconhecimento de grande parte da população sobre as medidas socioeducativas de meio aberto”. Mas indica um ator que insiste na mudança por desconhecer o que propõe a lei. A perspectiva de um didatismo em relação a esse ator pode ser percebida no esclarecimento sobre as medidas, com a reprodução de trecho do Estatuto da Criança e do Adolescente. Algumas expressões parecem responder diretamente a esse cenário, como no intertítulo “Falácias da redução”.
Governo: o modo de representação das três esferas de governo é diverso. O executivo federal oferece informações, o executivo municipal de Belo Horizonte é exemplo bem sucedido, os demais executivos municipais são inadimplentes, ao passo que o executivo estadual é negligente e violador. Em um dos trechos, o boletim destaca o desconhecimento da Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais a respeito do número de cidades mineiras com a oferta das medidas de meio aberto. Além disso, com base em dados do Governo Federal, o boletim destaca o aumento da internação em Minas Gerais, o que contraria a lógica do Sinase. Uma representante da prefeitura de Belo Horizonte, apontada como “uma das primeiras cidades mineiras a implementar medidas socioeducativas em meio aberto”, aponta que o desafio maior para os municípios é o interesse político, visto que é preciso contar com uma rede de atendimento estruturada. Apesar das variações, há uma crítica generalizada à falta de estrutura de oferta das medidas, o que coloca o executivo, de maneira geral, na mira das acusações.
Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente: o Conselho Nacional é mencionado apenas como corresponsável pelo debate a ser realizado em Brasília. Em semelhança ao executivo estadual, o Conselho Estadual é questionado sobre o não conhecimento da realidade dos municípios. A fala do Conselho Municipal de Belo Horizonte, por sua vez, se confunde com a fala da prefeitura, visto que compartilham a mesma fonte. Na primeira aparição, a identificação da fonte contempla os dois lugares. Na segunda, contudo, apenas o cargo no executivo é realçado:
“Você pode levar o adolescente a cumprir a medida, mas o que você precisa é garantir a ele seus direitos: alguns que precisam ser restituídos e outros aos quais ele nunca teve acesso”, defende a gerente de Medidas Socioeducativas da Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social (SMAAS) e presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Belo Horizonte, Lúcia Helena Rodrigues. Para a gerente, um dos grandes desafios (...). (Boletim 279, 2007)
Legislativo: é o responsável pela decisão sobre as mudanças na lei. O boletim não deixa claro o posicionamento dos Senadores, casa em que tramitavam as propostas. Apenas indica que a Frente
102 promoveria um debate sobre o tema, juntamente com o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e o Fórum Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Adolescente: é dele que se fala todo o tempo, muito embora não tenha voz autônoma no boletim. Em nome dos direitos dos adolescentes, o movimento combate a redução da maioridade penal e defende a implementação do Sinase. Dados extraídos do próprio Sinase dão conta de que esses adolescentes são, em sua maioria, do sexo masculino, pobres, com baixa escolaridade e negros. Não têm acesso a direitos básicos e tão pouco às medidas cabíveis para sua ressocialização quando cometem atos infracionais. No intertítulo “Falácias da redução”, o boletim faz referência ao assassinato do menino João Hélio, oferecendo indicativos de que o adolescente em debate poderia ser também esse que comete atos hediondos. Nesse trecho, aponta que a redução não resolveria “o problema do envolvimento de meninos e meninas no crime organizado”, oferecendo mais um elemento para o entendimento do perfil de tais jovens. Em outra caixa de texto, contudo, apresenta dados segundo os quais a maioria dos delitos que levam adolescentes à internação não envolve crimes contra a pessoa e apenas 10% das infrações cometidas no país teriam a participação de adolescentes.