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O nome “medidas socioeducativas” remete a um conjunto de medidas determinadas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente para a responsabilização dos adolescentes que cometem atos infracionais. Quando o ato é praticado por criança, os pais devem responder pela infração. Aos maiores de 12 anos, são seis as medidas: Advertência, Obrigação de Reparar o Dano, Prestação de Serviços à Comunidade, Liberdade Assistida, Semiliberdade e Internação. Crianças e adolescentes são considerados inimputáveis perante a lei, ou seja, não são responsabilizados de acordo com o Código Penal. O quadro a seguir descreve cada uma das medidas:

Medida Onde está no ECA

O que acontece Medidas

em meio aberto

Advertência Art.115 Repreensão verbal, feita por um juiz ou autoridade legal, que é transformado em documento e assinado pelas partes envolvidas.

Obrigação de Reparar o Dano

Art.116 Para casos de danos patrimoniais, o adolescente pode restituir o bem material ou compensar o prejuízo à vítima de alguma outra forma. Prestação de

Serviços à Comunidade

Art.117 O adolescente realiza tarefas gratuitas junto a entidades assistenciais, hospitais, escolas ou estabelecimentos similares; a jornada não deve exceder oito horas semanais, e o período máximo dessa medida é de seis meses; ela não pode prejudicar a freqüência do adolescente à escola ou à jornada normal de trabalho.

Liberdade Assistida

Arts.118 e 119

Um orientador voluntário acompanha o jovem, com o apoio de autoridade competente; caso necessário o adolescente é inserido em programas de auxílio e assistência; também é acompanhada a freqüência escolar e, em caso de maiores de dezesseis anos, há encaminhamento para cursos profissionalizantes.

Medidas em meio fechado

Semiliberdade Art. 120 O adolescente deve pernoitar ou seguir determinada rotina em instituições especializadas; pode realizar atividades externas, como estudos e cursos profissionalizantes.

Internação em estabelecimento

Arts. 123 a 125

Medida privativa de liberdade; o jovem deve participar de atividades pedagógicas, profissionalizantes e esportivas; a internação não pode

95 socioeducativo exceder três anos e só deve ser aplicada em último caso – quando

houver grave ameaça ou violência à pessoa, reiteração no cometimento de infrações graves ou pelo descumprimento de outra medida socioeducativa.

(REDE ANDI BRASIL, 2011, páginas 58 e 59)

As regras para aplicação das medidas são detalhadas em uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), denominada Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase31). O Conanda, assim como os Conselhos Estaduais e Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente, tem a função de deliberar a política para a população de 0 a 18 anos. Dessa forma, o documento estabelece os parâmetros para aplicação das medidas em todo o país. O documento foi construído coletivamente, envolvendo diversas áreas de governo, representantes de entidades e especialistas. Também colheu frutos de encontros regionais realizados em todo o País para a construção da proposta.

“Tendo como premissa básica a necessidade de se constituir parâmetros mais objetivos e procedimentos mais justos que evitem ou limitem a discricionaridade, o SINASE reafirma a diretriz do Estatuto sobre a natureza pedagógica da medida socioeducativa” (CONANDA, 2006, p.13). Ainda sobre a natureza do Sistema, o documento esclarece:

O SINASE é o conjunto ordenado de princípios, regras e critérios, de caráter jurídico, político, pedagógico, financeiro e administrativo, que envolve desde o processo de apuração de ato infracional até a execução de medida socioeducativa. Este sistema nacional inclui os sistemas estaduais, distrital e municipais, bem como todas as políticas, planos, e programas específicos de atenção a esse público. (CONANDA, 2006, p.23)

O Sinase se constitui enquanto uma política pública. Dentre seus princípios, destaca-se o respeito aos direitos humanos, a responsabilidade solidária da Família, Sociedade e Estado, o entendimento do adolescente como pessoa em situação peculiar de desenvolvimento, sujeito de direitos e responsabilidades, o respeito ao devido processo legal, o respeito à capacidade do adolescente em cumprir a medida e a municipalização do atendimento. Um último princípio deve ser ainda ressaltado: “a mobilização da opinião pública no sentido da indispensável participação dos diversos segmentos da sociedade” (CONANDA, 2011, p.34).

31 O Sinase foi sancionado na forma de lei (Lei nº 12.594) pela Presidente Dilma Roussef em 18 de janeiro de 2012. O documento ao qual fazemos referência na dissertação corresponde ao texto da resolução do Conanda, de 2006, que, além de especificações sobre o Sistema propriamente, também traz a contextualização do cenário de aplicação das medidas socioeducativas.

96 das restritivas de liberdade, a serem aplicadas em caráter excepcional e breve. O desenho proposto pelo documento também destaca a municipalização das medidas de meio aberto, o que já era uma diretriz do Estatuto da Criança e do Adolescente. Atualmente, em Minas Gerais, a gestão das unidades de internação fica a cargo do Governo Estadual, ao passo que compete aos municípios a oferta das medidas de meio aberto.

O documento base do Sinase apresenta um panorama das desigualdades sociais brasileiras, destacando a situação de vulnerabilidade a que estão submetidos os adolescentes pobres do país. Dentre informações específicas sobre a população juvenil, aponta que a proporção de mortes por homicídios na população jovem é muito superior à da população não jovem. E destaca que a realidade dos adolescentes em conflito com a lei não difere desse quadro:

Estes [adolescentes em conflito com a lei] também têm sido submetidos a situações de vulnerabilidade, o que demanda o desenvolvimento de política de atendimento integrada com as diferentes políticas e sistemas dentro de uma rede integrada de atendimento, e, sobretudo, dar efetividade ao Sistema de Garantia de Direitos. (CONANDA, 2006, p. 18)

Sobre a realidade específica dos adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa, o documento traz uma série de informações referentes a levantamentos realizados entre 2002 e 2004, dados que são mobilizados com frequência pelos boletins “Prioridade Absoluta”. Sobre a situação dos adolescentes internados, o Sinase destaca:

Segundo Rocha (2002), havia no país 9.555 adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de internação e internação provisória. Destes, 90% (noventa por cento) eram do sexo masculino; 76% (setenta e seis por cento) tinham idade entre 16 e 18 anos; 63% (sessenta e três por cento) não eram brancos e destes 97% (noventa e sete por cento) eram afrodescendentes; 51% (cinqüenta e um por cento) não freqüentavam a escola; 90% (noventa por cento) não concluíram o Ensino Fundamental; 49% (quarenta e nove por cento) não trabalhavam; 81% (oitenta e um por cento) viviam com a família quando praticaram o ato infracional; 12,7% (doze vírgula sete por cento) viviam em famílias que não possuíam renda mensal; 66% (sessenta e seis por cento) em famílias com renda mensal de até dois salários mínimos, e 85,6% (oitenta e cinco vírgula seis por cento) eram usuários de drogas. (CONANDA, 2006, p. 19)

Dentre os problemas referentes às unidades de internação, o documento aponta o déficit de vagas, a superlotação, a inadequação dos espaços, com problemas como ausência de locais para atividades esportivas e de convivência e péssimas condições de manutenção e limpeza. Em relação às medidas de meio aberto, um boletim impresso da própria Oficina de Imagens, em edição dedicada ao tema, denuncia a reduzida oferta de tais medidas em Minas Gerais. “Dos 853

97 municípios mineiros, apenas 47 teriam concluído em 2007 a municipalização das medidas socioeducativas de meio aberto” (NOVAS ALIANÇAS, 2009, p.1). Como resultado, a publicação aponta o crescimento exagerado das medidas de internação, frisando “que os crimes cometidos contra a vida representam uma pequena parcela dos atos infracionais da população de 12 a 18 anos” (NOVAS ALIANÇAS, 2009, p.1). Esse é, portanto, um pouco do cenário da atenção dada aos adolescentes que cometem ato infracional no Brasil. As problemáticas brevemente elencadas dizem muito do contexto desenhado pelos boletins “Prioridade Absoluta”.