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ÖNSÖZ

1. GĠRĠġ

1.6 Siklodekstrinler

1.6.12 Siklodekstrinlerin Kullanım Alanları

Nesse universo heterogêneo que é o das organizações da sociedade civil, conforme discutimos no Capítulo 1, as organizações não governamentais que prestam serviços no campo social – sejam elas financiadas por empresas privadas, por governos ou por ambos –, e que declaram pertencer ao terceiro setor, são, no geral, defensoras das parcerias entre governos e empresas privadas. Aliás, como lembra apropriadamente Falconer (2000), elas nascem da parceria, uma ideia importada de organizações internacionais e do movimento da responsabilidade social empresarial e que no Brasil é legitimada por um marco legal que institui o “Termo de Parceria” no âmbito da Lei das OSCIPs. Essas organizações entendem que tais arranjos, dos quais muitas vezes elas participam, tornam o Estado mais enxuto e descentralizado, mas nem por isso menos eficiente (COELHO, 2000).

Há compreensão de que as parcerias se inserem no bojo de um novo pacto social, não mais articulado somente em torno dos direitos, mas de princípios éticos, da solidariedade privada – que inclui o voluntariado –, da cultura do altruísmo e de um modelo de gestão empresarial que aumenta a qualidade, a sustentabilidade e a efetividade dos recursos sociais, inclusive os governamentais. Como a intervenção proposta é norteada pela lógica da responsabilidade, e não pela da redistribuição e do reconhecimento, não há porque haver conflitos e antagonismos entre os distintos atores sociais: a solução dos problemas sociais passa pela comunhão de esforços em torno de ações concretas, tecnicamente formuladas e que, portanto, dispensam a participação democrática. Conforme destaca Telles (1998: 111), a pobreza está “no lugar da não-política, onde é figurada como dado a ser administrado tecnicamente ou gerido pelas práticas da filantropia”.

Na década de 1990, o terceiro setor se expandiu188 criando verdadeiro mercado de profissionais voltados para áreas, como planejamento e elaboração de projetos, gestão de projetos, contabilidade, captação de recursos, comunicação social, capacitação, certificação, tecnologias de comunicação e informação, monitoramento e avaliação, estudos e pesquisas, entre outras. Tudo isso exige formação e, para tanto, universidades e outras instituições de ensino abriram cursos específicos sobre administração e gestão do terceiro setor. O crescimento do terceiro setor, e tudo que lhe é associado, reforça a ideia de a solidariedade não poder ser institucionalizada, de ela ser virtude louvável quando praticada por indivíduos nas relações interpessoais, mas quando os Estados tentam assumi-la e encarná-la nas instituições produzem-se inexoravelmente um paternalismo e um intervencionismo perniciosos que acabam por minar os próprios alicerces do Estado democrático. Nesse sentido, defendem seus militantes, é preciso substituir a institucionalização da solidariedade pela promoção da eficiência e da competitividade e pelo respeito à liberdade individual e à livre iniciativa. É importante notar que, apesar do crescimento desse “setor” nos últimos anos, em decorrência das forças liqueficantes da globalização, não existe um ator que articule e medie seus interesses em torno de um projeto que seja comum a todos. Trata-se de um setor heterogêneo e fragmentado.

Na esteira dessas ambivalências e ambiguidades, se por um lado os processos de despolitização da questão social expandem-se na década de 1990, por outro, os movimentos de resistência189 não abaixaram a guarda e demarcam claramente seu distanciamento. Foi o

188 A esse respeito, consultar o estudo de Landim e Beres (1999).

189 Trata-se de movimentos sociais e organizações não governamentais voltadas para a defesa de direitos e

que expressou Silvio Caccia Bava, em 1998, quando presidia a Associação Brasileira de ONGs (ABONG): “Nós não nos reconhecemos como parte do terceiro setor. Não achamos que esse modelo teórico não contempla quem nós somos e o que fazemos” (apud Facolner, 2000: 3). Para as organizações pertencentes ao chamado campo democrático, os movimentos da responsabilidade social empresarial, do investimento social privado e seus instrumentos apresentam pouca efetividade na superação das desigualdades. Segundo a ABONG (2006)190, esses movimentos se inserem no

cenário que tem permitido a “refilantropização” no trato da questão social, ocorrido a partir do início dos anos de 1990. Este termo refere-se à forma como crescentemente atribui-se ao setor privado, à sociedade, por meio de sua mobilização, responsabilidades para o enfrentamento da chamada “questão social”, tirando das mãos do Estado este papel primordial. Da mesma forma, contribui para a despolitização de um debate público em torno da necessidade de políticas fundamentais, tais como a Política Nacional de Assistência Social, bem como da afirmação de direitos, de redistribuição de renda e da importância da inversão das prioridades de investimentos públicos no país.

No Brasil, as décadas de 1990 e 2000 caracterizam-se por intensa mobilização dos movimentos sociais e das ONGs em torno de pautas que incluem a denuncia da atuação predadora das empresas, especialmente as de grande porte. Como não são muito numerosas as reflexões sistematizadas desses processos191, listamos, a seguir, alguns exemplos, de modo a ilustrar o dinamismo e a pujança da sociedade civil brasileira nesse período. Como já discutimos anteriormente, dois momentos foram relevantes desse ponto de vista, a saber: a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como Rio-92 e a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Somam-se a esses movimentos as sucessivas edições do Fórum Social Mundial, a maior parte delas realizadas no Brasil, que buscam construir uma globalização alternativa e contra-hegemônica.

Também merecem menção a participação de organizações e redes brasileiras nas mobilizações realizadas no âmbito das Cúpulas dos Povos da América Latina e do Caribe, que acontecem como encontros paralelos às reuniões de Chefes de Estado da região. Tais cúpulas buscam combater o neoliberalismo e a influência das transnacionais e propor a construção de outra integração latino-americana, plural e democrática, tanto econômica como política, social e ambiental, representativa das diversidades culturais e étnicas existentes na região. Os

190 Ver a seção Nossa Opinião no Informe da ABONG, nº 364, de 12 a 18 de setembro de 2006.

191 Gohn (1997, 2003, 2005) e Scherer-Warren (1994, 1996, 1999), por exemplo, desenvolveram pesquisas muito

interessantes sobre os movimentos sociais no Brasil e sobre o Fórum Social Mundial. Entretanto, não se tem conhecimento de qualquer reflexão que abarque o conjunto de mobilizações e de iniciativas da sociedade civil brasileira, nos últimos vinte anos, que se articulam em torno do combate à globalização e ao neoliberalismo e da luta pela universalização dos direitos, pela democratização da democracia, enfim, que organizam sua ação na luta por redistribuição e por reconhecimento.

movimentos sociais e as ONGs também se articulam em fóruns que acontecem concomitantemente a encontros globais promovidos pelas Nações Unidas e realizados no Brasil, como por exemplo a XI Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD XI), que aconteceu em São Paulo, em 2004, e a Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (CIRAD), convocada pela FAO, em 2006, em Porto Alegre.

Devem ainda ser mencionadas outras iniciativas, como por exemplo o Grito da Terra Brasil promovido anualmente, desde 1995, pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), a Marcha das Margaridas realizadas pelas mulheres trabalhadoras rurais, o Grito dos Excluídos, que ocorre a cada ano desde 1995, as Marchas pela Reforma Agrária do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Plebiscito Nacional da Dívida Externa (2000), o Plebiscito sobre a Reestatização da Vale do Rio Doce (2007) e a Plataforma da Reforma do Sistema Político Brasileiro, lançada em 2005 pelo Fórum Nacional de Participação Popular192. A Plataforma reúne um conjunto de redes de entidades da sociedade civil193 que, revoltadas com os efeitos perversos do neoliberalismo e da globalização da economia, com a corrupção no Executivo, com a compra de votos no Congresso, com o sistema de financiamento das campanhas eleitorais, com a “blindagem” da política econômica e com o monopólio dos meios de comunicação, resolveram construir uma proposta de reforma política. Organizando discussões por todo o Brasil, ao longo dos anos de 2005 e 2006, esse movimento elaborou sua concepção de reforma política e seus objetivos e entendeu essa iniciativa como um processo que trará frutos no longo prazo. Trata-se de um importante esforço de repolitizar a política, de retomar a construção de um campo democrático e popular, capaz de polarizar a disputa político-ideológica no interior da sociedade civil, de reintroduzir na agenda pública um debate para tratar das questões substantivas da democracia: a defesa do interesse público, a participação cidadã e o combate as desigualdades sociais. O documento final da Plataforma194 registra a seguinte menção:

A Reforma Política que defendemos visa à radicalização da democracia, para enfrentar as desigualdades e a exclusão, promover a diversidade, fomentar a

192 A esse respeito, consultar o site do FNPP: http://www.participacaopopular.org.br.

193 Integram a Plataforma redes e entidades da sociedade civil, como a Associação Brasileira de ONGs

(ABONG), a Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), a Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), a Campanha Nacional pela Educação, o Conselho Latino Americano de Educação (CEAAL), o Fórum da Amazônia Oriental (FAOR), o Fórum Brasil do Orçamento (FBO), o Fórum Nacional da Reforma Urbana (FNRU), o Fórum Nacional de Participação Popular (FNPP), a Inter-redes Direitos e Política, a Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais, a Rede pela Integração dos Povos (REBRIP) e o Movimento Nacional dos Direitos Humanos (MNDH), entre outras.

194 O documento na íntegra pode ser encontrado no endereço:

participação cidadã. Isso significa uma reforma que amplie as possibilidades e oportunidades de participação política, capaz de incluir e processar os projetos de transformação social que segmentos historicamente excluídos dos espaços de poder, como as mulheres, os(as) homossexuais, os(as) indígenas, os(as) jovens, as pessoas com deficiência, os(as) idosos e os despossuídos de direitos de uma maneira geral, trazem para o debate público.

Esse conjunto de organizações, movimentos e iniciativas possibilitaram conter o rolo compressor da onda neoliberal de uma forma que precisaria ser mais estudada. Como abordaremos mais detalhadamente no próximo capítulo, apesar do Estado Social no Brasil não ter se completado, ele não encolheu; ao contrário, muitos direitos sociais foram expandidos após a Constituição de 1988. É também graças a esse movimento de resistência que foi possível construir uma democracia batizada por Diniz (2006) de “sustentada”, pois rompeu com a tradução golpista da política brasileira, garante a governabilidade com a gestão negociada dos conflitos e respeita os princípios de alternância de poder. Essa atuação contra- hegemônica possibilitou a eleição de um governo de esquerda, o governo Lula, que, mesmo não tendo rompido com o modelo anterior, passou a implementar medidas de redistribuição e reconhecimento com possibilidade de, a médio e longo prazos, ser transformadoras, pois ancoram-se, embora timidamente, no princípio cunhado por Fraser (2003) de “paridade na participação”.

Não se pode desconsiderar que desde 2003, os espaços de participação popular cresceram no país. Segundo dados da Secretaria-Geral da Presidência da República195, entre 2003 e 2008, foram realizadas 51 conferências nacionais, cerca de 700 conferências estaduais e aproximadamente 15 mil conferências municipais. Participaram desses encontros cerca de 4 milhões de pessoas, entre representantes de órgãos governamentais, de movimentos sociais, de organizações não governamentais e empresariais. Dos mais de 100 conselhos existentes na esfera federal, 19 foram criados no governo Lula, incorporando novas temáticas na agenda social e política (cidades, raça, idoso, economia solidária, corrupção) e outros 9 foram reformulados.

A denúncia sistemática da “irresponsabilidade social empresarial” não tem impedido que diversas ONGs do campo democrático venham desenvolvendo, ainda que marginalmente, ações em parceria com empresas privadas que muitas vezes envolvem governos (i. é, projetos de desenvolvimento local, iniciativas de múltiplas partes interessadas, atividades de formação e capacitação para o combate às desigualdades de gênero e raça nas empresas e suas cadeias

195 A esse respeito, consultar o site da Secretaria-Geral da Presidência da República:

http://www.presidencia.gov.br/estrutura_presidencia/sec_geral/noticias/Publi/Conferencias_e_Conselhos_Nacio nais.

produtivas). Apesar dessas iniciativas mais pontuais, no geral, as relações entre ONGs, movimentos sociais e empresas são complexas, difíceis e frequentemente bastante tensas. Algumas dessas entidades não costumam sequer admitir publicamente que realizam ações em parceria com empresas, tamanho o desconforto. É por isso que a principal área de atuação das organizações da sociedade civil em relação ao setor privado é o targeting (denúncias, ocupações, campanhas do tipo name and shame e “perdedores e ganhadores”, produção de informações sobre violações de direitos etc.).

Os temas da RSE e do ISP não fazem parte das preocupações das organizações da sociedade civil e quando essas questões afloram a reação é extremamente crítica. Ainda que não exista uma reflexão sistematizada e que nem todas as críticas sejam consensuadas, as objeções apresentadas são as mesmas do movimento da responsabilização social empresarial que listamos no Capítulo 2, a saber: as práticas de responsabilidade social empresarial, do investimento social privado e das parcerias realizadas nesses marcos contribuem para a privatização da esfera pública, a banalização dos conceitos de cidadania e solidariedade, o aumento da influência política do setor privado, o enfraquecimento das classes trabalhadoras e das organizações e movimentos que defendem direitos, o desvio dos debates sobre os verdadeiros problemas resultantes da irresponsabilidade empresarial e a consequente despolitização do combate à pobreza e à desigualdade.

Benzer Belgeler