2. LİTERATÜR VE KAYNAK DEĞERLENDİRMESİ
2.5. B EŞ P RENSİBE D ÂHİL O LMAYAN İ‘ TİZÂLLER
2.5.2. Sihir ve Şeytan Çarpması
A antropologia médica explica as causas relacionadas à saúde e doença, as crenças sobre os tipos de tratamentos e a quem recorrer quando doente. Segundo Ferreira (1994), o corpo é pensado, representado e passível de leituras diferenciadas, de acordo com o contexto social e histórico. É um reflexo da sociedade, não sendo possível conceber processos exclusivamente biológicos, instrumentais ou estéticos no comportamento humano. A noção de saúde é uma construção social, o indivíduo é doente segundo a classificação de sua sociedade e de acordo com critérios e modalidades que ela fixa.
As observações que os estudiosos das sociedades primitivas fizeram sobre os fenômenos saúde-doença são muito valiosas para nos orientar na observação de sociedades complexas. Esses estudos revelam, segundo Minayo & Souza (1989), que as formas de lidar com as questões relativas à vida e à morte fazem parte da visão social de mundo que inclui o imaginário social. Costumam vencer barreiras de tempo, de espaço e dos grupos fundamentais da sociedade. Por isso servem para o controle, a reorganização e o reencontro da sociedade com seus valores dominantes.
Barata (1990) ressaltou que a questão da causa, no processo saúde-doença, é revestida de historicidade. A autora lembrou que a primeira concepção de doença foi dos assírios, na Antigüidade. O corpo seria um receptáculo de uma causa externa que é a doença. A segunda vertente foi da medicina hindu e chinesa. A doença era vista como conseqüência do desequilíbrio de um complexo sistema de correspondências entre os cinco elementos que compõem os organismos vivos: madeira, metal, terra, água e fogo. Na Grécia a saúde era vista como um estado de isonomia, harmonia perfeita de terra, água, ar e fogo, e a doença era a disnomia, assim definida por Platão. Hipócrates enriqueceu as concepções gregas de saúde e doença através de cuidadosas observações da natureza. Defendia a hipótese de que o ambiente físico interferia na causalidade da
doença:
Se um médico conhece bem as propriedades do ambiente físico, de preferência todas elas, ele, ao chegar em uma cidade que não lhe é familiar, não ignorará as doenças locais ou a natureza daquelas que comumente dominam. (Hipócrates, citado por Barata, 1990).
A partir das observações empíricas, os antigos conseguiram elaborar hipóteses sobre o contágio das doenças, como atesta uma citação de Barata (1990) a respeito de um escritor romano:
... Pequenos animais que não possam ser percebidos pelos olhos penetram pela boca e narinas e causam desordens graves.
Durante a Idade Média, que compreende o período de consolidação do modo de produção feudal, praticamente não ocorreram avanços no estudo da causalidade. Do século XVI até o século XVIII, a teoria miasmática tentou elaborar uma explicação para a disseminação das doenças epidêmicas. No final do século XVIII e início do século XIX, Barata (1990) citou a elaboração de uma teoria social da medicina. É nas condições de vida e trabalho do homem que as causas das doenças deveriam ser buscadas.
Com as descobertas bacteriológicas do século XIX, a questão da saúde perdeu a concepção social, simplificando-se que para cada doença existe um agente etiológico. Apenas no início do século XX se dará o retorno às concepções multicausais para as doenças, sem que, entretanto, se recupere o conceito de causação social (Barata, 1990).
Pereira & Neto (1990) enfatizaram que, ainda nos dias atuais, nos limitamos a enfrentar a doença já produzida, deixando de lado as condições suficientes, sem a presença das quais a moléstia não se instalaria naquele determinado organismo biológico.
Os primeiros modelos de multicausalidade tentam reduzir o social através de construções ahistóricas e biologicistas. São reconhecidos 3 tipos de fatores, citados por Barata (1990): o agente, o meio-ambiente e o hospedeiro. Segundo a autora, esse modelo representa uma simplificação exagerada do processo complexo de causação. Nessa concepção, os fatores são tomados isoladamente, como se não houvesse interação entre eles e, na prática, apenas o fator de maior peso atuasse na produção da doença. Dessa forma, a multicausalidade vê-se reduzida a unicausalidade, com um diferencial de
serem admitidas outras causas que não, apenas, a presença do agente etiológico.
Rezende (1986) ressaltou que esse marco teórico foi estabelecido como a tríade ecológica de Leavell-Clark. Nessa teoria, o homem (hospedeiro), o agente patogênico e o meio interagiam em equilíbrio dinâmico. O desequilíbrio de qualquer um desses elementos desencadearia o processo patológico.
Na década de 40, segundo Barata (1990), os fatores psíquicos passam a agregar- se aos fatores causais das doenças, definindo o homem como um ser bio-psico-social. A mesma autora complementou que o social passou a ser visto como um atributo do homem e não como “essência da própria existência humana”.
O modelo mais completo do conceito de multicausalidade é o modelo ecológico, no qual as intervenções entre os fatores bio-psico-sociais são apresentadas sob forma de um sistema fechado com um feedback regulador, excluindo assim o social uma vez mais (Barata, 1990).
Agentes e hospedeiros, nesse modelo, alteravam o ambiente e eram alterados por ele. Porém, sugeriu Barata (1990), reduzia o homem a um animal ou máquina da natureza, sendo a produção social do homem considerada apenas mais um dos fatores do meio ambiente. Este modelo foi interessante para o capitalismo, pois colocou a condição do homem como produtor e consumidor, obscurecendo a origem social, escondeu as diferenças de classe e permitiu uma atuação limitada dos problemas de saúde (Barata, 1990).
A explicação e a solução do fenômeno saúde-doença, para atingirem a máxima plenitude, deveriam levar em conta toda a riqueza de determinações da totalidade na qual o fenômeno se manifesta. Sendo o universo social descontínuo, com especificidades e diferenças marcantes, constitui mera abstração considerar a população como um todo, desconsiderando suas divisões em classes sociais, grupos ocupacionais e a historicidade da estrutura social na qual o fenômeno se produz (Pereira & Netto, 1990).
Kern (1997) considerou que, ainda no limiar do século XXI, não existe uma concepção de reconhecimento espontâneo do direito à saúde, o que reflete uma desarticulação entre a intrínseca relação de saúde com qualidade de vida.
Minayo et al. (2000) lembraram que, em todas as sondagens feitas sobre qualidade de vida, valores não materiais como amor, liberdade, solidariedade, felicidade, realização pessoal e inserção social compõem sua concepção. Quando vista de forma mais focalizada, qualidade de vida em saúde coloca sua centralidade na capacidade de viver sem doenças ou de superar as dificuldades dos estados ou condições de morbidade.
Por fim, Westphal (2000) salientou que estado de saúde é um processo onde a população tem a capacidade de controlar os fatores que favorecem seu bem-estar ou aqueles fatores que podem estar tornando-a vulnerável ao adoecimento e prejudicando sua qualidade de vida. Nessa perspectiva, saúde deixa de ser um objetivo a ser alcançado, tornando-se um recurso para o desenvolvimento da vida.