Ao lidar com travestilidades, um tema que merece nossa atenção é o do mercado do sexo, uma vez que, sob o ponto de vista da representação social, se constitui como um grande espaço de trabalho para as travestis que passam a ser vistas apenas como profissionais do sexo. Embora essa ainda seja uma realidade, o mercado do sexo não deve ser compreendido como único.
A própria militância travesti surgiu na prostituição. Em junho de 1980, cerca de mil manifestantes - entre os quais também havia lésbicas, gays, negros e prostitutas - marcharam pelo centro de São Paulo. A marcha foi em protesto pela violência dirigida a esta população pelo delegado de polícia José Wilson Richetti. Com faixas, onde, entre outros dizeres, lia-se ―Libertem os travestis‖, elas mobilizaram-se enquanto movimento social pela primeira vez (GREEN, 2000; FACHINNI, 2003; TREVISAN; 2004), ainda que, somente em 1993, viesse a ocorrer o primeiro Encontro Nacional de Travestis e Transexuais (FACHINNI, 2005). Também deve ser lembrado o surgimento de grupos de travestis pautado pela realidade da epidemia de aids no Brasil. Em 2005, a articulação política das travestis possibilitou que fosse criada a Articulação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), para, entre outras questões, segundo a sua presidente Keila Simpson, ―mostrar a sociedade que travestis e transexuais não vivem somente das noites, se prostituindo (ANDRADE, 2005)‖. (DUQUE, 2009: 25)
A transformação do corpo das travestis está diretamente ligada ao tempo do trabalho, pois, na maioria das vezes, é através do trabalho que a transformação se dá, principalmente pelo investimento que exige, e, no caso de travestis profissionais do sexo, a transformação do corpo significa mais do que trabalho, mas também sobrevivência.
Na sociabilidade do mercado do sexo, muitos encontram reconhecimento e aprendem com seus pares as técnicas corporais para construírem sua desejada estética particular. No caso das travestis, o processo inicia com o consumo de hormônios femininos indicados pelas mais experientes. Porém, para conseguir as mudanças corporais necessárias, os hormônios são insuficientes, então, a aplicação do silicone líquido, de uso industrial, em diferentes partes do corpo é praticada e legitimada por grande parte desse grupo. (DUQUE, 2009: 41)
Os territórios de prostituição têm se caracterizado como locais fundamentais para a construção da pessoa travesti22, como nos mostra claramente Pelúcio (2007) em sua pesquisa.
Transitar pela noite me fez perceber que a rua é claramente um espaço de sociabilidade, onde se aprende a se tornar e a ser travesti. É também um local em que elas encontram pessoas conhecidas e fazem novas amizades. Muitas vezes, também, é ali que conhecem seus parceiros; que compram roupas, perfumes e acessórios; que planejam festas, defendem-se mutuamente, ou se rivalizam. É na rua que elas ficam sabendo como anda o comércio sexual na região, no estado, quando não, no país e no exterior. Informam-se também sobre novas técnicas de transformações corporais, interam-se sobre o destino de uma ou outra travesti conhecida: se foi para a Europa, se morreu ―bombando‖, se está com a ―tia‖, que é como muitas vezes se referem à Aids. Nas esquinas, testam o sucesso de suas próprias transformações em busca do feminino. (BENEDETTI, 2005: 32)
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O universo que foi apresentado em várias pesquisas anteriores como sendo o principal destino, muitas vezes tido como o único, para a sociabilidade da experiência das travestis no Brasil (SILVA, 1993, BENEDETTI, 2005, DUQUE, 2005, PERES, 2005, PELÚCIO, 2007, KULICK, 2008).
Até o tempo do semáforo pode ser um elemento crucial e usado a favor para a sobrevivência de travestis profissionais do sexo, como conta em sua pesquisa Larissa Pelúcio (2007): ―Estrategicamente, as travestis se posicionam numa esquina onde há um semáforo bastante demorado, assim é possível negociar programas apenas com olhares e gestos, além de ficarem sob a mira dos trabalhadores que lotam os ônibus‖ (p. 53).
Esse tempo das travestis profissionais do sexo, o da noite, é de disputa, de trabalho e, portanto, para ser aproveitado enquanto se é mais jovem, enquanto a velhice não chega. A noite também é tempo de glamour.
Atualmente, Ísis que se encontra desempregada, mas trabalhava até uma semana antes da entrevista, como auxiliar administrativo, numa agência de empregos de umas amigas, por mais de dois anos. Anteriormente, já havia trabalhado em outra agência da mesma proprietária.
Yara faz programa desde os 18 anos de idade, e refere que no começo frequentava a pista apenas de vez em quando. Conta que antes da transformação e da experiência como profissional do sexo, trabalhou por dois anos numa empresa de recarga de cartuchos de impressoras. Viaja às vezes para outras cidades para trabalhar, ―quando a praça não tá boa‖, geralmente fica em casa de outras travestis ou hotéis e retorna.
Patrícia sempre trabalhou como profissional do sexo, mas também sempre teve outra atividade paralela. Segundo ela, fazer programas quase sempre servia para complementar a renda. Quando não tinha emprego fixo, ficava meses fora trabalhando como profissional do sexo, viajando por várias cidades. Ela explica que os clientes querem sempre algo novo, ―cansam e enjoam‖, portanto, são obrigadas a ir para lugares onde são ―novidades‖. Dentre as cidades por onde passou, destaca algumas, como Piracicaba, São Paulo, e Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo; Belo Horizonte e Uberlândia, em Minas Gerais; Rio de Janeiro (RJ); Londrina e Curitiba, no Paraná.
cair no mercado do sexo não foi uma escolha, e nem é para a maioria das travestis.(Patrícia – depoimento colhido em abril de 2011)
A afirmação de Patrícia justifica a prostituição pela necessidade de sobrevivência. Ressalta as péssimas condições de trabalho, tendo que se submeter a trabalhar nas noites frias ―somente de calcinha, sutiã e sobretudo‖, situação que acarreta muitas vezes o adoecimento, ―já fiquei doente, peguei pneumonia (...). Não é culpa das travestis se prostituirem‖.
Conta que, durante uma noite trabalhando na cidade de São Paulo, foi baleada na perna, por homens que pararam o carro, baixaram o vidro e simplesmente começaram a disparar tiros.
Trabalhou também como operadora de telemarketing e supervisora de vendas em uma empresa de produtos agropecuários. Já teve sua própria empresa de confecção de roupas e já trabalhou também em outras fábricas do ramo.