A legitimidade, razão de muitas ações organizacionais, em especial para este trabalho, ações sociais e ambientais, segundo Scott (2001, pág. 59), “não é uma commodity a ser possuída ou negociada, mas uma condição que reflete uma percepção em consonância
ABORDAGEM EXTERNA
(Instituição como variável independente) Ambiente institucional
(múltiplas lógicas institucionais)
Delineamento institucional
Ambiente institucional
Sistema de crenças organizacionais
Delineamento institucional
ABORDAGEM INTERNA
com regras ou leis relevantes, suporte normativo ou alinhamento com modelos culturais- cognitivos”. Logo, a legitimação é uma “percepção generalizada ou uma suposição de que as ações de uma entidade são desejáveis, corretas ou adequadas, dentro de algum sistema de normas, valores, crenças e definições socialmente construídas” (SUCHMANN, 1995, pág. 574).
Para Berger e Luckmann (1985), a legitimidade não é composta somente de valores, mas também de conhecimento. O conhecimento, para os autores, precede os valores na legitimação das instituições, e num primeiro momento, onde a legitimação é incipiente, o conhecimento é transmitido logo que os sistemas de objetivações linguísticas da experiência humana são transmitidos, passando pelo desenvolvimento de imagens sociais que são transferidas por meio da referência a diferentes tipos de conhecimentos até a legitimação total, onde os conhecimentos até então teóricos (significação) abrangem a ordem institucional em sua totalidade simbólica.
Segundo Baum e Powell (1995), as ações das organizações passam necessariamente pela explicação de como a legitimidade é alcançada, replicada e perdida, ou seja, se as organizações partem de um sistema mais amplo, seus objetivos devem estar alinhados com os valores sociais e normas que prevalecem dentro do sistema do qual fazem parte.
O conceito de legitimidade se configura, portanto, como fundamental para o novo institucionalismo (MEYER e ROWAN, 1977; ZUCKER, 1977; DIMAGGIO e POWELL, 1983; SCOTT e MEYER, 1983), pois é mediante sua atuação que garantirá a manutenção ou a mudança das instituições (HYBELS, 1995; MACHADO-DA-SILVA, FONSECA e CRUBELLATE, 2005). Assim, a legitimidade, para os autores institucionalistas (DIMAGGIO e POWELL, 1983/1991; MEYER e ROWAN, 1991; MEYER e SCOTT, 1983; ZUCKER, 1987), é mais que um recurso operacional, configurando-se como um conjunto de crenças constitutivas (SUCHMANN, 1995).
Suchmann (1995) divide a legitimidade em três tipos: pragmática, moral e cognitiva (FIGURA 2.2). A legitimidade pragmática envolve a percepção dos autointeresses vigentes entre uma determinada organização e seus stakeholders (partes interessadas) (SUCHMANN, 1995). Dessa forma, para Wood (1991), a legitimidade pode ser usada na avaliação prática das consequências das ações organizacionais diante de um conjunto de representantes, criado pelos diversos interessados, dado o comportamento organizacional.
A legitimidade moral, por sua vez, representa uma avaliação normativa positiva das ações organizacionais (ALDRICH e FIOL, 1994). Portanto, difere da
legitimidade pragmática no julgamento das decisões organizacionais, pois esta somente avalia se a atividade realizada foi a melhor ação possível e não foca o julgamento nos benefícios de determinada atividade. É importante lembrar que os julgamentos podem estar impregnados pelas crenças definidas pelo sistema de valores socialmente construídos no ambiente, o que pode inclinar a legitimidade para um lado ou para outro (SUCHMANN, 1995).
Além disso, a legitimidade moral se subdivide em quatro subtipos relacionados: (a) legitimidade consequente – refere-se ao julgamento restrito das ações realizadas pela organização, ou seja, está relacionada ao fato de que as organizações deveriam ser julgadas por aquilo que elas realizam, o que para Meyer e Rowan (1991), apesar de ser socialmente definida, a não existência de outros sentimentos concretos torna difícil sua descoberta empírica; (b) legitimidade processual – as organizações podem obter legitimidade abraçando técnicas e procedimentos socialmente aceitos (SCOTT, 1987). Esta tem sua legitimidade aumentada quando da ausência clara de medidas de mensuração de resultados (SCOTT, 1992), podendo ser observada no exercício de uma atividade profissional (ABBOTT, 1981); (c) legitimidade estrutural – relaciona-se à percepção valorativa das organizações por suas estruturas estarem localizadas dentro de uma categoria taxonômica moralmente aceita, justificada por Meyer e Rowan (1991) como as estruturas prescritas institucionalmente, i.e., por passarem uma mensagem positiva da ação positiva e adequada às exigências do ambiente da organização; e (d) legitimidade pessoal – refere-se ao carisma de cada um dos líderes organizacionais, relacionando-se ao fato de que atos praticados podem receber influência pessoal sobre as atividades das organizações, pois as características dos líderes podem desempenhar papel importante na desregulação de instituições antigas e no desencadeamento de novas, conforme DiMaggio (1997).
A legitimidade cognitiva, diferentemente dos outros tipos de legitimidade, que visam avaliar o interesse e/ou o desempenho organizacional, está baseada na compreensibilidade. A compreensibilidade da legitimação trata da busca dos participantes para organizar suas experiências, uma vez que entende o mundo social como um ambiente caótico, sendo a legitimidade cognitiva originária da disponibilidade de modelos culturais que fornecem explicações às ações dos indivíduos nas organizações (SUCHMANN, 1995). Para Freitas (2005), consiste na aceitação da organização como necessária e inevitável sob o ponto de vista de um determinado arcabouço cultural, que, em última instância, é dada como certa.
FIGURA 2.2: Tipos de legitimidade
Fonte: Suchmann (1995).
Os três tipos de legitimidade, na maioria das vezes, coexistem e se inter- relacionam, e à medida que transitam de uma para outra (da pragmática para a moral e para a cognitiva), a obtenção ou manipulação do fator legitimidade se torna mais difícil, uma vez que os dois últimos fatores dependem de um arcabouço cultural consistente.
Para Berger e Luckmann (1999), a construção da legitimidade se caracteriza como um processo, e assim sendo permite transformação, pois sua compreensibilidade se aprofunda e se torna perceptiva à medida que o tempo passa (COLYVAS e POWELL, 2006). No estágio inicial, a legitimidade se apresenta de forma incipiente, alertando somente para a forma como as coisas devem ser feitas, e estas rotinas assumem uma qualidade persistente e durável. No estágio seguinte, há o desenvolvimento de imagens causais das rotinas que se quer legitimar, i. e., passa-se a adotar causas para o não uso das rotinas. Já no terceiro estágio, a legitimidade é expandida por meio da referência a diferentes tipos de conhecimentos. E no último estágio do processo, há a criação de um universo simbólico, no qual símbolos, crenças e práticas assumem força moral, onde a legitimidade é total (BERGER e LUCKMANN, 1999).
A legitimidade só se manterá caso obtenha aprovação coletiva, ou seja, ela independe de observações particulares (SUCHMANN, 1995). Sendo assim, a legitimidade é um produto socialmente construído, na medida em que o comportamento das organizações e as crenças dominantes num determinado campo social são congruentes. Selznick (1957) já alertava que as tarefas podem ser imbuídas de significado social, destacando que os aspectos técnicos não são os únicos elementos constituintes das atividades organizacionais.
Portanto, as empresas contemporâneas, num primeiro momento aquelas que operam em mercados globais, perceberam que sua permanência em um mercado mutável, como é o atual, também depende da imagem que elas passam para a sociedade, por isso estas empresas cada vez mais tentam associar sua imagem à ideia de responsabilidade social,
Pragmática Moral Cognitiva LEGITIMIDADE Consequente Processual Estrutural Pessoal
buscando assim um diferencial competitivo, permanência no mercado ou, ainda, se manterem atuantes dentro da cadeia produtiva, uma vez que tal abordagem vem ganhando um espaço cada vez maior na mídia, na sociedade, entre empresários e organizações. Em outras palavras, vem se tornando legítima ao alcançar um forte protagonismo.
Meyer e Rowan (1991) ressaltam o fato de as profissões, políticas e programas serem criados junto com produtos e serviços que são compreendidos como gerados racionalmente. Tal procedimento consente que várias organizações apareçam, bem como forcem as já existentes a incorporar novas práticas e procedimentos em busca de legitimidade, como é o caso da RSE.
Dessa forma, para as abordagens que aceitam como relevantes as instituições, o aspecto fundamental não é se uma determinada organização adota práticas "eficientes" ou não, mas o fato de que se sustentarão as que adotarem práticas consideradas legítimas, pois as práticas ilegítimas oferecerão pressão e ameaçarão sua continuidade (SOUSA, 2006). Desse modo, as ações legítimas passam a se multiplicar no ambiente das organizações como um recurso que garante sua permanência. Por essa ótica, torna-se imperativo que as organizações conformem ou tentem conformar suas estruturas e práticas aos valores sociais e ambientais percebidos como legítimos (aceitos socialmente), que podem levar as organizações a assumirem posturas homogêneas, provocadas também pela força dos mecanismos isomórficos.