O ambiente, tão importante para o novo institucionalismo, conforme já ressaltado, ao longo da evolução dos estudos organizacionais teve seu entendimento alvo de profundas e importantes mudanças. Até meados da década de 1960 somente o ambiente interno era foco da atenção dos gerentes. No entanto, após esse período, em virtude de várias mudanças em torno das considerações do funcionamento do sistema de mercado e de sua interação com a sociedade, as organizações começaram também a considerar o ambiente externo no qual estão inseridas, uma vez que passaram a ser percebidas como imersas no contexto social do qual fazem parte.
Assim, o ambiente externo passou a ser reconhecido como elemento influenciador dos resultados das empresas, impondo restrições e exigindo adaptações. Neste caso, o novo institucionalismo torna-se imperativo e tem aumentado suas contribuições nos últimos anos, a notar pelo crescente número de estudos que utilizam a teoria institucional como importante base explicativa para a forte relação existente entre organização e ambiente, conforme pode ser percebido nos trabalhos de Farashahi, Hatsi e Molz (2005); Rossini (2006); e Garrido Filho (2008).
Por essa ótica, o ambiente externo, constituído pelo ambiente institucional, representa o enriquecimento do que se compreende como ambiente técnico, ampliado ao domínio do simbólico (CARVALHO, VIEIRA e LOPES, 1999). O ambiente técnico pode ser caracterizado como o local cuja dinâmica de funcionamento se baseia na troca de bens e
serviços, de modo que as organizações sejam recompensadas pelo controle da eficiência e eficácia do processo de trabalho. Já o ambiente institucional é caracterizado pelas regras e exigências instituídas, com as quais as organizações devem se conformar para obter suporte e legitimidade (MEYER e SCOTT, 1983). Para Scott (1995), a distinção entre os ambientes reside na diferença de significado atribuído à racionalidade. No primeiro, a racionalidade é que permite a eficiência da organização, enquanto no segundo são os procedimentos que representam essa racionalidade que irão conferir legitimidade a ela.
Apesar da distinção, alguns autores (POWELL, 1991; SCOTT e MEYER, 1991; MACHADO-DA-SILVA e FONSECA, 1993; MACHADO-DA-SILVA, FONSECA e FERNANDES, 1999; SCOTT, 2001; AUGUSTO 2006) chamam atenção para o fato de que os ambientes não devem ser entendidos como distintos, mas como duas facetas do mesmo ambiente. Ou seja, eles não são mutuamente exclusivos; ao contrário, são interativos e interdependentes (HAVEMAN e RAO, 1997; DOBBIN e SUTTON, 1998; LAWRENCE, 1999; CARNEY e GEDAJLOVIC, 2002).
O ambiente institucional, então, regula as possibilidades dos indivíduos e o comportamento competitivo das organizações quando delimita as oportunidades e incentivos sociais na busca por resultados econômicos favoráveis. Também influencia os elementos de preferências motivacionais dos indivíduos e organizações, na medida em que as instituições a sua volta restringem as opções de escolha (ALVES, 2007). Nesta ótica, as organizações, dentro da perspectiva do novo institucionalismo, não necessariamente aceitam o conjunto de crenças institucionalizadas simplesmente por existirem ou serem tratadas como certas, mas por serem geralmente recompensadas com o aumento de legitimidade, de recursos e capacidade de sobrevivência (MEYER e ROWAN, 1977).
Para McGuire (1963), o ambiente contemporâneo leva os empresários e gerentes a conduzirem seus negócios considerando novas variantes, procurando lucros dentro de um novo contexto resultante da evolução da interação organização/ambiente, o que atualmente vem sendo cada vez mais reforçado. Nesta linha de análise, a responsabilidade social empresarial pode ser vista como resultado das pressões do ambiente sobre as práticas das organizações que afetam negativamente a sociedade. Ademais, as organizações, diante das exigências do ambiente, precisam considerar a opinião dos stakeholders, uma vez que a manifestação das pressões ambientais passa necessariamente pelas ações dos atores envolvidos neste processo (ALVES, 2007).
Adicionalmente, estudos mais recentes do novo institucionalismo ressaltam, também, a importância do papel dos atores (indivíduos e organizações) e de seus interesses,
tanto na configuração como nas respostas ao ambiente institucional (DIMAGGIO, 1988; TOLBERT e ZUCKER, 1999; POWELL, 1991; KOUT, WALKER e ANAND, 2002), complementando a consideração já consolidada, que percebe o ambiente institucional como também influenciador de ações organizacionais, por acreditarem que a concepção mais antiga acaba por menosprezar o papel das organizações e seus atores, enquanto somente seguidores inconscientes dos roteiros impostos pelo ambiente institucional. Portanto, chamam atenção para o papel dos indivíduos e das organizações como agentes-chave no processo de institucionalização.8
Dessa forma, segundo as recentes contribuições do novo institucionalismo, aceita-se como fazendo parte da relação organização/ambiente duas abordagens de análise, a externa e a interna, dependendo dos níveis em que cada uma assume que a instituição opera (ZUCKER, 1987). Na abordagem externa, os estudos focalizam o nível macro, que enfatiza o papel do ambiente institucional na influência das ações organizacionais (JEPPERSON, 1991; HOFFMAN, 1999; LOUNSBURY, 2001) e admite, deste modo, que as instituições são localizadas fora das organizações (ZUCKER, 1987). Já na abordagem interna, os estudos enfatizam os papéis dos atores (indivíduos e organizações) no nível micro, tanto na modelagem do ambiente institucional quanto na interpretação e reinterpretação das regras e normas institucionalizadas (OLIVER, 1991; POWELL, 1991; GOODSTEIN, 1994; SCOTT, 2001), sendo as instituições encontradas também dentro das organizações (ZUCKER, 1987).
Contudo, as duas abordagens consideram o ambiente institucional provedor de contextos que restringem o comportamento organizacional, mas o percebem de diferentes maneiras (QUADRO 2.1). A abordagem interna visualiza as organizações como enfrentando o mesmo ambiente, e a diferenciação se dará na capacidade de respostas estratégicas de cada uma, conforme palavras de Scott (1991, pág. 105): “... a variação nas respostas estratégicas ao mesmo ambiente pode engendrar diferenciação, mais do que isomorfismo”. E para “especificar as condições sob as quais cada um destes ocorre, requer-se uma focalização no processo institucional interno.”
Em contraposição, a abordagem externa foca sua atenção nos atributos do ambiente institucional, que podem gerar diferentes estruturas e processos dentro das organizações, configurando-o como composto por múltiplos modelos institucionais, os quais
8 Nesta perspectiva, alguns autores se preocupam em analisar a organização individual e suas estratégias em
resposta ao ambiente institucional (COVALESKI e DIRSMITH, 1988; ALDRICH e FIOL, 1994), outros focam a ação dos indivíduos enquanto passíveis de ações que reflitam seus interesses, e para tal provocam mudanças institucionais (DIMAGGIO, 1988; BECKERT, 1999; FLIGSTEIN, 1997), e outros, ainda, estudam as ações cognitivas dos gerentes na forma como respondem ao ambiente institucional (KARNOE, 1997).
prescrevem que diferentes comportamentos organizacionais existem simultaneamente dentro do mesmo campo organizacional, base para múltiplas fontes de legitimidade (SCOTT, 1994; RUEF e SCOTT, 1998). Para Zucker (1987, pág. 446), os “elementos institucionais implementados comumente surgem de dentro da organização ou da imitação de outra organização similar e não do poder ou de processos coercitivos localizados no Estado ou em qualquer outro lugar.”
Partindo destas considerações, na abordagem interna, o contexto do campo é de extrema relevância (BOURDIEU, 2006), pois à medida que as regras são instituídas entre os atores, elas também oferecem categorias, fronteiras e tipificações que constituem a identidade do campo (habitus), o que acabará por influenciar ou direcionar a ação dos atores, ou seja, as respostas organizacionais. Nesta noção, cada campo centra-se sob interesses específicos e próprios dos atores que a ele pertencem.
FIGURA 2.1: Abordagem externa e interna do novo institucionalismo
Fonte: Augusto (2006, pág. 93).
Dessa forma, acredita-se que as duas abordagens deixam mais robustas as considerações que compõem o novo institucionalismo, ao considerar a interpretação dos contextos do nível macro dos ambientes institucionais por meio do detalhamento das ações no nível micro, apontando para as várias traduções possíveis que este tem do ambiente macro (HIRSCH e LOUNSBURY, 1997), em busca de diferenciação e/ou legitimidade.