3Yazı Tiplerini Yazdırma (yalnızca HL-2250DN / HL-2270DW)3
SICAK YÜZEY
Vimos que ciências são línguas. Percebemos, também, que cada língua revela uma realidade, por conseguinte, cada Ciência se mostra única e irrepetível a partir da articulação lingüística em que é criada.
Flusser costumava dizer que o intelecto dispõe de uma coleção de óculos para observar a realidade. Os óculos são, metaforicamente, as línguas em que cada uma das realidades possíveis é criada. Tantas quantas forem as línguas,
143 JAKOBSON, 1969, p. 70, 71.
144 VAILLANT, André. Le Préface de l’évangeliare vieux-slave. Revue des études Slaves.
serão as ciências (ou, ao nosso ver, os sistemas); logo, serão as realidades. Cada língua revela um modo único de enxergar uma dada realidade (dado bruto) e esta forma peculiar de observar fará nascer uma situação ímpar, somente possível a partir da mirada por aqueles óculos. Cada vez que substituímos um óculos por outro, estamos diante de um novo mundo.
Essa metáfora nos leva a outra questão, que é o sistema de referência a partir do qual as realidades são criadas. Isso porque Flusser também concorda que “o significado de cada símbolo torna-se compreensível somente dentro do conjunto do sistema inteiro.”145
Portanto, cada sistema lingüístico monta o seu mundo com seus significados, os quais podem até ser semelhante aos signos de outro sistema, mas com este não se confunde, já que as regras e estruturas a partir das quais são criados são distintas, fazendo com aqueles só façam sentido naquele universo.
Transpondo essa idéia, para a outra metáfora utilizada por Flusser de que ciências são línguas, podemos dizer que o universo composto por cada ciência é só seu; as técnicas, os termos por ela utilizados não se aplicam às outras ciências, tal como lá funciona, ou podem até, esporadicamente, se aplicar, mas isso se tratará de uma mera coincidência e não de um processo dedutivo que universaliza aquele raciocínio.
Nesse mesmo sentido Bakhtin, ao afirmar que o objeto das ciências humanas é o homem enquanto produtor e produto de textos, aduz que cada ciência humana tem um objeto textual específico, já que pontos de vista diferentes sobre um só texto constroem “textos” e, portanto, objetos diferentes.146
145 FLUSSER, 2004, p. 43.
146 BARROS, Diana Luz Pessoa de. Contribuições de Baktin às teorias do discurso. In:
BRAIT, Beth. (Org.) Baktin: dialogismo e construção de sentido. 2. ed. Campinas: Unicamp, 2005, p. 26.
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Ao tratar do fenômeno da tradução, Flusser afirma que, quando passamos de uma língua para outra, pairamos um instante sobre o abismo do “nada”, isto é, nem estamos ancorados em uma língua, nem em outra, ocorrendo o que ele chama de aniquilamento do pensamento.
Esse instante no “limbo” se dá, pensamos nós, porque a tradução não é capaz de transformar uma língua em outra, haverá sempre um abismo entre elas, que é inultrapassável, as línguas permanecem onde estavam e tal como estavam, mesmo após a tradução; o que este fenômeno permite, quando exista estruturas e regras semelhantes entre elas, é que se construa uma ponte capaz de comunicá-las.
Essa incapacidade de se superpor uma língua a outra por meio da tradução também foi reconhecida por Jakobson, que, ao distinguir tal fenômeno em três espécies147, todas vistas sob o ângulo lingüístico, entende que, na tradução interlingual que é aquela que “consiste na interpretação dos signos verbais por meio de alguma outra língua”, “não há comumente equivalência completa entre as unidades de código […]”148
É bem verdade que herdamos certos vocábulos de outras línguas, quando as traduzimos ou as adaptamos para a nossa vivência, mas, ao assim fazermos, devemos nos lembrar das idéias de Luhmann, com relação à comunicação entre os sistemas – mais bem estudado a seguir – que bem se coaduna com a metáfora do abismo entre as línguas de Flusser, de que o vocábulo apreendido passa a ser nosso, é absorvido pelo nosso sistema (o tradutor), o português, o Direito, etc. O que não conseguimos absorver com o nosso código fica no ambiente, para o primeiro autor acima citado, ou na outra
147 O autor afirma que a tradução pode ser intralingual quando ocorre a interpretação dos
signos verbais por meio de outros signos da mesma língua; interlingual, já falada no corpo do texto acima; e inter-semiótica, que consiste na interpretação dos signos verbais por meio de sistemas de signos não verbais. (JAKOBSON, 1969, p. 64, 65).
língua (a traduzida), para o segundo. Tal idéia fica clara, quando o filósofo tcheco afirma:
O paralelo com a biologia é perigoso. O português não descende do latim como o pinto da galinha. Línguas são sistemas abertos que se cruzam com grande facilidade e promiscuidade […] Ávida, toda língua absorve elementos de qualquer outra, assimila e digere aqueles que pode, e deixa como corpos estranhos, porém integrados, aqueles elementos que é incapaz de assimilar.149
Embora Flusser pareça não considerar a Filosofia uma ciência, pensamos que o raciocínio por ele desenvolvido ao dela falar se aplica ao que aqui estamos desenvolvendo, o que reforça ainda mais a nossa certeza que o seu discurso sobre as ciências bem se adéqua a qualquer sistema lingüístico. Vejamos:
Os pensamentos filosóficos são, como qualquer outro pensamento, frases de uma dada língua. São significativos e podem ser compreendidos somente dentro do conjunto dessa língua. Referem-se à realidade implícita nessa língua. Se traduzidos para outra língua, adquirem um novo significado, ligeiramente ou mais que ligeiramente diferente do significado original, porém certamente não pretendido pelo pensador. Devemos dizer, pois, que há tantas filosofias quantas línguas que contém pensamentos filosóficos.150
V.IV Direito e Economia: línguas impossíveis de serem plenamente