Ao travar contato com a idéia da autopoiese de Maturana e Varela, Luhmann logo percebeu um rico contexto para se trabalhar, resolvendo aplicar tais noções, com as devidas adaptações151, para os sistemas sociais. A palavra deita suas origens nas expressões gregas autos (por si próprio) e poiesis (criação, produção).
Inspirado pela autopoiese dos sistemas vivos, este autor passa a definir os sistemas sociais a partir da sua diferenciação com o ambiente que o circunda, isto é, passa a dividir a sociedade em vários subsistemas, cada qual distinto um do outro, pela função que exerce, pelo código e pelo programa que comandam a autoprodução dos seus elementos.
Assim, cada sistema é definido pelo tipo específico e exclusivo de operações que realiza, considerando operações como acontecimentos instantâneos que geram uma diferença no sistema, tanto que após a sua realização aquele já não é mais idêntico ao que era anteriormente àquela.
Como bem explica Gustavo Valverde:
As operações realizadas pelo sistema consistem basicamente na seleção de informações do ambiente e no processamento interno
151 Segundo Marcelo Neves, “A concepção luhmanniana da autopoiese afasta-se do modelo
biológico de Maturana, na medida em que nela se distinguem os sistemas constituintes de sentido (psíquicos e sociais) dos sistemas orgânicos e neurofisiológicos. Na teoria biológica da autopoiese, há, segundo Luhmann, uma concepção radical de fechamento, visto que, para a produção das relações entre sistema e ambiente, é exigido um observador fora do sistema. No caso de sistemas constituintes de sentido, ao contrário, a auto-observação torna-se componente necessário da reprodução autopoiética.” (NEVES, Marcelo. A Constitucionalização Simbólica. São Paulo: Acadêmica, 1994, p. 114.)
dessas informações, o que significa reconhecer que cada sistema possui um critério e uma forma de selecionar e processar informações, que lhe possibilita operar de maneira própria e delimitar-se frente ao ambiente.152
Portanto, o que não é ambiente é sistema e um subsistema deve ser considerado ambiente em relação aos outros. Por exemplo, o subsistema jurídico é ambiente em relação ao subsistema econômico, já que sua função, seu código e programas são diversos de tais fatores componentes deste último.
Os elementos são as unidades que compõem os sistemas, produtos das respectivas operações, mas, ao mesmo tempo, também são responsáveis pelas futuras operações do sistema. Com isso se quer dizer que os elementos produzidos se tornam estrutura para criação de novos elementos dentro do próprio sistema. Tal dinâmica torna o sistema um movimento circular e incessante de produção de elementos, que revelam a sua exclusiva operação.
O sistema é, portanto, um conjunto de elementos que se une por ser produzido pela mesma espécie de operação, a qual o distingue dos elementos que o circundam, que, por sua vez, passam a fazer parte de um outro sistema com seus pares.
Ao agrupar os elementos em conjunto, a teoria dos sistemas visa a reduzir a complexidade presente no mundo, o qual sem qualquer estruturação, se apresenta em suas infinitas possibilidades. Logo, todo sistema é uma redução seletiva das incontáveis probabilidades do ambiente, sendo esse desequilíbrio de complexidade presentes no ambiente e nos sistemas, que permitem que estes se distingam daquele.
Tal constatação deixa claro que “o homem vive em um mundo que possui muito mais possibilidades do que aquelas que o sistema psíquico-
152 VALVERDE, Gustavo Sampaio. Coisa julgada em matéria tributária. São Paulo:
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orgânico é capaz de processar, na sua função de reproduzir consciência e vida.”153
Mesmo com sua complexidade minimizada, as operações podem ou não ocorrer dentro de um dado sistema, o que o torna contingente. Tal contingência se explica pelo fato de o homem, que embora faça parte do mundo circundante, gozar do seu arbítrio para agir. Com isso, as condutas sociais, praticadas pelos indivíduos e esperada pelos outros, podem ou não se realizar.154
Fica claro, então, que Luhmann não ignora que as condutas sociais são praticadas pelo homem, porém isto não o insere no sistema social. A intenção do autor, ao excluir o indivíduo de dentro desse sistema é pôr em relevo que o que distingue o sistema social dos demais sistemas não é a presença humana, mas, sim, as comunicações que dentro dele, e só nele, se realizam. O homem de dentro do sistema psíquico apenas irrita o sistema social, para que este, no seu interior, realize comunicação.
A contigencialidade se revela também à medida que percebemos que as possibilidades que não foram selecionadas e processadas por um dado sistema podem vir a sê-lo a qualquer momento, o que faz com que este se mantenha em constante renovação.
Como prova da importância do ambiente para o sistema, Marcelo Neves afirma:
153 VALVERDE, 2004, p. 41.
154 Tal forma de definição dos sistemas fez de Luhmann grande alvo de críticas, já que, em
coerência com suas premissas, o mesmo excluía o homem do sistema social, colocando- o em um outro sistema, que ele denominou de psíquico. Contudo, deveras injustos foram esses ataques, vez que, ao assim pensar, ele não menosprezava o homem, pelo contrário, em seu raciocínio, se o homem fazia parte do ambiente que circundava o sistema social, isso queria dizer que aquele era muito mais rico em possibilidades do que a sociedade, que ao ser sistematizada, empobrecia em complexidade, em relação àquele. Para o Direito, esta exclusão foi importante para deixar claro que a normatividade não advém da natureza humana, colocando, com isso, um ponto final na discussão jusnaturalista.
Portanto, na teoria dos sistemas sociais autopoiéticos de Luhmann, o meio ambiente não atua perante o sistema nem meramente como “condição infra-estrutural da possibilidade da constituição dos elementos”, nem apenas como perturbação, barulho, ‘bruit’, constitui algo mais, “o fundamento do sistema”. Em relação ao sistema atuam as mais diversas determinações do meio ambiente, mas elas só são inseridas no sistema, quando esse de acordo com seus próprios critérios e código-diferença, atribui-lhes sua forma. (grifos do autor)155
Fica claro, então, que afirmar que um sistema é autopoiético não significa dizer que ele ignore o ambiente e se mantenha incomunicável. Pelo contrário, o entorno é imprescindível até mesmo para a sua identidade, já que os sistemas se definem a partir do princípio da diferenciação em relação ao que está à sua volta. Sem falar que é a partir da irritação provocada pelos outros subsistemas que os sistemas produzem seus elementos.