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2. GENÇLİK ÇALIŞMASI VE SİYASAL KATILIM İLİŞKİSİ

2.11. SİYASİ PARTİYE ÜYELİK

Para iniciar esta última seção, trago um trecho da entrevista com Regina Santana, passagem esta que considero oportuna para efetuar minhas reflexões sobre a autonomia e profissionalização do São Gonçalo. Nela estão contidos elementos que fazem parte do processo em andamento pelo qual passa o grupo. Reforça assim, o efeito que a notoriedade desempenhou no encadeamento das mudanças ocorridas com o rito, e que se relacionam com o contexto pelo qual esta passando a Mussuca.

O São Gonçalo eu vejo como o cartão de visita da Mussuca, isso tem ônus e tem bônus... eles se vêem assim como guardiões da memória da Mussuca, eles se vêem como guardiões dos costumes da Mussuca, isso é muitíssimo interessante porque, eu sempre digo isso em relação ao São Gonçalo, ele parece um grupo de... eles se comportam como um “pop star”, eles não se comportam como um grupo folclórico, no sentido de que o grupo folclórico fica no cantinho, ta todo mundo acostumado a botar uma comida, uma quentinha não muito boa... ninguém vai saber quem são aquelas pessoas que estão dançando, mas quando você coloca o São Gonçalo para dançar, as pessoas ficam na expectativa: O SÃO GONÇALO VAI DANÇAR. Isso seja na universidade, seja na praça, e é impressionante o magnetismo que os homens do São Gonçalo apresentam... quanto mais eles fazem sucesso, mais eles se sentem fortes pra serem o São Gonçalo da Mussuca... homens jovens, bonitos, fortes... extremamente viris, e que utilizam isso com muita propriedade na comunicação com o público. Esse é um diferencial do São Gonçalo, isso dentro de Sergipe e fora também... eles acham que devem ser tratados melhor que todos os outros grupos, eu acho inclusive que os outros grupos não devem ser tratados com desprezo, como alguma coisa de reminiscência, não que o São Gonçalo não pareça reminiscência, parece ser o mais dinâmico do dinâmico, é por isso que o menino ele tá no São Gonçalo, ele vai dançar com a mesma sensualidade que dança a musica do axé... eu tenho certeza que o São Gonçalo é sim baluarte, e eles se sentem desse jeito. (Depoimento 2006).

Dois eventos são cruciais para descrever o nível de autonomia que o São Gonçalo da Mussuca apresenta na atualidade: o XXXIII Festival de Arte de São Cristóvão e a Procissão no povoado Cedro. O primeiro evento foi realizado em dezembro de 2005 e o segundo em maio de 2006.

Na primeira ocasião como me relata Erivaldo o secretário de cultura de São Cristóvão entrou em contato com o grupo do São Gonçalo da Mussuca para combinar os detalhes de sua apresentação naquele festival, o interlocutor deste contato foi justamente Erivaldo, que me descreve sua reação perante o que foi colocado pelo então secretário:

O secretário de cultura de São Cristóvão me ligou dizendo que tinha feito um acordo com Eraldo, o secretário de cultura de Laranjeiras... diz ele que acertou os grupos de São Cristóvão pra ir dançar no Encontro Cultural de Laranjeiras e que agente ia dançar no Festival de Arte de São Cristóvão... aí eu disse a ele que não era Eraldo que manda no São Gonçalo da Mussuca, e se ele quisesse que agente se apresentasse procurasse o grupo e acertasse as condições, porque agente não deve nada a prefeitura de Laranjeiras... a gente não quer mais esse negócio de se apresentar aonde a prefeitura de Laranjeiras bem quiser não... o grupo tem um cachê quem quiser acertar liga pra nós e acerta. Aquele Eraldo só quer saber de se promover à custa do São Gonçalo, mas não dá nada em troca (Depoimento, 2006).

Esta é uma demonstração de como o São Gonçalo da Mussuca tem se posicionado mediante sua relação com a prefeitura de Laranjeiras, a qual mantinha este grupo sob a relação de clientelismo, como já foi frisado. Esta perspectiva se configura em um sinal das mudanças (politização) que tem acometido o rito e a localidade. A busca dessa autonomia define uma postura do grupo que expressa sua visão da sociedade na qual está inserido. O fator da retribuição financeira que caracteriza parte desta autonomia é uma característica da sociedade atual, capitalizada e imediatista. Por outro lado, esse processo também se relaciona com o fato de que fora do contexto religioso, onde a motivação de realização do rito é o pagamento de promessa, nesta nova lógica, as apresentações abrem o espaço para que o grupo se sinta no direito de exigir um retorno monetário.

Pode-se considerar que nesta tendência, no que tange esse tipo de expressão cultural, o São Gonçalo da Mussuca é um precursor no estado de Sergipe. O tipo de capital que está sendo negociado também pode ser considerado um capital simbólico, pois, ele existe porque aquele que está sujeito crê que ele existe, é o produto do credo, do carisma e da representação (BOURDIEU, 2005). É com essa experiência no campo da negociação que este rito tem se apresentado para a sociedade. Admitindo e reconhecendo a posse do objeto de desejo, e cobiçado no campo cultural.

A fragmentação da sua consciência parece uma lacuna que tem se preenchido com suas vivências, à medida que se depara com uma coerção social. O São Gonçalo da Mussuca pode ser encarado como um fenômeno da cultura popular onde o caráter de ambigüidade52 começa a não mais fazer sentido. Como bem salientou Renato Ortiz (1980:79):

A relação entre as manifestações da cultura popular e a sociedade global se define como uma relação de poder. Na medida em que uma sociedade se reproduz através da força e do consenso, tem-se que a sociedade global se caracteriza como um espaço das lutas sociais. A hegemonia dos grupos e da classe dominante tende desta forma a delimitar e penetrar o espaço das classes subalternas. A relação de poder que se observa nos remete assim às relações concretas de poder entre grupos e classes sociais.

Fica cada vez mais claro que parte do grupo passa a desempenhar uma reflexão crítica, no que se referem suas relações com instituições de poder. Considero o fato de

52 Na concepção de Renato Ortiz a ambigüidade se refere à dicotomia que se apresenta nos fenômenos da

se declarar “dos tempos da escravidão”, ou seja, o auto-reconhecimento de um pertencimento étnico, uma base sólida que lhes garante a estabilidade necessária para se posicionar perante suas relações com outros agentes. Este nível de consciência não representa uma homogeneidade no grupo. Alguns agentes internos, e por assim dizer representantes, assumem o papel de elaborar essa nova forma de organização. Funcionam como um tipo de “intelectual tradicional”, agindo como mediadores do grupo mediante as novas imposições da dinâmica social.

Não estou com isso atribuindo uma onipotência a capacidade de leitura social dos sujeitos. Mesmo porque o processo em que estão inseridos continua em andamento, e a posição que neste instante é tomada poderá trazer pontos negativos ao curso do rito. Este papel que poderia caber ao líder do grupo, como tradicionalmente acontece neste tipo de algoritmo, desvinculado deste promove sua deslegitimação enquanto tal.

A continuidade dos fatos responderá as dúvidas que porventura emergem do processo de autonomia e profissionalização do grupo. Particularmente reconheço a importância deste tipo de envolvimento, e posição que o São Gonçalo da Mussuca tem apresentado. Convicto da subjetividade que envolve minhas interpretações, me direciono às considerações finais onde discorro as ultimas ponderações, que finalizarão esta etapa de conhecimento desta marca identitária em questão.

Considerações Finais

O trabalho realizado investigou a participação da dança de São Gonçalo do povoado Mussuca – e tem propriedades para discursar a respeito do rito em 2006 - no processo de construção de uma identidade étnica local vinculada ao passado escravocrata no estado de Sergipe. Para tanto se levantou aspectos presentes na memória coletiva e individual do grupo, bem como a situação em que foi encontrado o objeto em seu meio social e nas suas relações com atores externos. O rito foi abordado do ponto de vista teórico, como uma linguagem do grupo acerca da ordem social que fazem parte, seguindo a proposição de Edmundo Leach (1996). Procurei alcançar os elementos que indicam esta prática social como uma marca identitária desta população.

O processo estudado apresentou diversos aspectos que definem as relações do grupo com agentes externos, bem como suas relações internas. Foi percebido que existe de fato uma relação dialética entre o rito e o povoado, o que pressupõe a justaposição de aspectos presentes na estrutura social, que representam sinais da cultura investigada.

A presença de diferentes versões sobre diferentes aspectos, obedece ao campo da discussão sobre a etnicidade que foi abordada. Os contrastes de ordem locais se constituíam em um arcabouço semântico que não se fazia presente nos primeiros passos da pesquisa. Apenas quando foi possível se adentrar de maneira mais consistente nos pontos não-compartilhados, é que foi permitido perscrutar, de forma mais objetiva nas inconsistências que se configuram nestas relações sociais.

No tocante aos agentes externos e suas aproximações com o grupo, ficou claro que esta coletividade não se apresenta de forma passiva, na negociação dos interesses que implicaram em mudanças sociais significativas, tanto para o rito como para a própria Mussuca. O que de certo modo, vai de encontro à noção de que estas expressões culturais precisam de uma proteção perante a dinâmica da sociedade geral. Se o grupo muda, de alguma forma vai refletir no rito. E o sentido inverso foi demonstrado que ocorre. O que importa, para os estudos desta natureza são as motivações, os efeitos das interações dos grupos envolvidos, que definem as posturas de seus membros.

Certamente existem percepções diferentes destas alternâncias, o que não representa uma forma aleatória de participar da dinâmica cultural, apresentada neste estudo. Consciente ou inconscientemente os sujeitos são acometidos pelas implicações geradas no contexto, pois, ao fazerem parte de uma coletividade vivenciam o quadro social.

A aquisição da autonomia do rito, a qual teve uma influência direta da mobilização política do grupo social, tem sido levado em consideração na relação que estabelecem com os diferentes agentes externos. Entre 2005 e 2006, quando solicitados, seja pela prefeitura de Laranjeiras, governo do estado, professores, ou mesmo pesquisadores; nem sempre se colocam a disposição para se apresentarem, ou permitem se colocar na posição de objetos de estudos. O curioso é que quando me deparei com o discurso de Marizete, referente a suas criticas aos interessados em se aproximar do rito e/ou do povoado, pensei se tratar de uma postura radical. Com o convívio, entendi que se trata tanto de manter um afastamento, mas também um argumento usado para garantir alguma contribuição pelas suas colaborações. E na medida em que outros mecanismos – como o processo oficial de reconhecimento “quilombola” - podem ser acionados para tanto, essa postura fica ainda mais possível.

Por outro lado, a declaração de pertencimento étnico que pode ser considerada como um advento iniciado pelos contatos que o rito estabeleceu, considero ser um dos fatores primordiais que conduziram a Mussuca a solicitação do reconhecimento étnico perante o Estado. Considero também, neste sentido, uma conquista para esta população a quebra de relações viciosas originárias deste passado histórico, pelo qual reivindica seu pertencimento. Paradoxalmente o cenário atual demonstra que os papéis antes exercidos pelos proprietários, a certa medida, estão sendo assumidos por novos agentes, que certamente tem seus interesses nessa relação.

Concomitantemente a essas contendas geradas pela questão política e étnica, se conflagraram polêmicas que até então estavam adormecidas. Lideranças locais legitimadas no modelo tradicional de se estruturar, assumido pelo grupo histórica e culturalmente, demonstram a não-aceitação da forma que está sendo conduzida às mudanças no bojo deste grupo.

Portanto, a utilização de forças materiais ou simbólicas, por parte do grupo que se assume descendente deste passado escravocrata, acaba por reforçar a divisão estrutural do espaço. O que também é acrescido por aqueles que se opõe a tal posição. Dessa forma, cria-se uma diferenciação clara, tanto na forma de se relacionar com a sociedade geral, mas também com o estilo de vida que assumem. Isso não significa, porém, que não compartilham espaços e interesses comuns, mas mesmo nestes momentos as fronteiras, como indica Barth (2000), se tornam invisíveis, funcionando como limites de contatos e outros tipos de constratações.

Sendo o parentesco um critério de aproximação ou afastamento neste processo, se cria um contraste mais visível interna, do que externamente. Em outras palavras, duas pessoas de facções divergentes, mas que moram na mesma localidade, acabam facilitando sua relação com os “de fora”, mais do que com os “de dentro”, desde que seja do lado oposto.

A manutenção da lógica da hereditariedade no São Gonçalo, dessa maneira, acaba sendo um dispositivo eficiente na manutenção dessa fronteira. E à medida que se restringe a uma ou duas famílias, as chances de se relacionarem diminuem. Porém, este mecanismo está claro para ambos os lados.

Como um dos lados é a face privilegiada, sua auto-estima se eleva. É preciso o acontecimento de algum fenômeno novo para que essa ordem se altere, ou se equilibre. E creio que esse evento ocorreu. Em dezembro de 2006, foi lançado o CD “Vozes da Mussuca”. E as conseqüências deste acontecimento foram diferentes para as partes, as quais se faziam representar nesta produção. Produzido por um agente externo, reuniu três expressões culturais do povoado: O Samba de Pareia, O São Gonçalo e o Terreiro Senhor São Lázaro. Este último representa a “Mussuca de baixo”, ao passo que as outras duas atrações, representam a “Mussuca de cima”. O lado de cima do povoado ficou insatisfeito, também pela presença do “xangô”, e principalmente porque a mão de Dona Regina (responsável pelo terreiro) serviu como imagem para a capa do CD.

Desconhecendo a lógica interna, o responsável por esta arte não fez idéia daquilo que promoveu na localidade. A notoriedade do terreiro aumentou, de tal forma que começa a ameaçar as atenções que sempre foram voltadas para o Samba e o São Gonçalo. Notoriedade esta que sempre se valeram para balizar suas relações internas, e principalmente externas. O desenrolar desse rearranjo? Os caminhos e decisões tomadas pelos atores em questão irão configurar esse processo. Cabe-me apenas, neste instante, pontuar minha intervenção, abrindo caminhos a serem seguidos.

Acendendo esta luz no palco das interações na Mussuca encerro essa tarefa, na idéia de ter apresentado aquilo que as circunstâncias me proporcionaram. Devo confessar que fico instigado em prosseguir com o mergulho que estive realizando nesta cultura. À medida que conhecia mais suas sensações, emoções, visões das coisas, etc., estava realizando um auto-conhecimento. Deparei-me comigo mesmo em muitas situações. Sendo assim, em todo momento estou presente no texto, desnudando minhas faces e me apresentando para os leitores.

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