2. GENÇLİK ÇALIŞMASI VE SİYASAL KATILIM İLİŞKİSİ
2.3. KATILIMCILARIN GÖZÜYLE TOPLUMDAKİ GENÇLİK ALGISI
As duas associações que existem no povoado Mussuca, são resultadas, não só da mobilização política transcorrida com a presença do MN, mas também uma conseqüência direta desta discussão interna. A primeira organização a ser criada foi a “Associação de Desenvolvimento Comunitário dos Povoados Mussuca e Balde”51 (ADCPMB). Foi criada ainda na década de 80. Sua elaboração foi uma iniciativa de alguns moradores da localidade que tiveram o apoio da prefeitura do município. Este apoio trouxe uma problemática que consistiu no nível de relação que a instituição mantinha com políticos locais. Ainda na perspectiva das relações “tradicionais” encontradas na região, a associação serviu durante algum tempo como um canal de ligação de dirigentes políticos com aquela população. A participação dos moradores na organização, por vezes atendia a lógica empregada pelos seus administradores.
Uma questão me chamou muita atenção: como existindo, não só uma mais duas associações, que são entidades civis para o desenvolvimento comunitário, até os dias de hoje, não existe água encanada no local, mesmo estando a 19 km da capital do estado e a 3 km de uma adutora? A primeira vista interpretei como um sinal de pouca ação das associações. No entanto, quando passei a conviver com os moradores, pude perceber que existe uma aceitação, quase geral. A atividade de ir pegar água em um cano, que eles chamam de “caixa”, utilizado por todos, além de ter uma importância prática, que é a de lavar e não ter gastos com o uso da água, esta tarefa consiste em um momento de encontro dos moradores, onde aproveitam para colocar as conversas em dia. É assim, um espaço de sociabilização.
Foi justamente neste local que tive a informação das controvérsias existentes entre as duas associações. A ADCPMB é a mais antiga, mas no ano de 2003 foi criada a “Associação de Pescadores, Agricultores e Amigos da Mussuca” (APAAM). O processo de criação desta segunda instituição representa as controvérsias em toro da questão política na Mussuca. Criada por Marizete dos Santos (45 anos), que fazia parte da ADCPMB, passou a concentrar seus esforços na categoria dos pescadores e pescadoras do local, trabalhando para sua seguridade social e defendendo direitos desta categoria. O motivo, objetivamente, da cisão não me foi colocado. No entanto, Cleide dos Santos (29 anos), atual presidenta da ADCPMB, me relata o seguinte:
Eu entrei na associação em 1997, ainda muito nova não sabia de nada... me chamaram ai eu fui participar. Seu Damião que era o presidente na época queria que eu fizesse parte, mas eu não tinha muito interesse não... ai fui começando a participar das discussões, ia pra alguns eventos, reuniões... e ai fui conhecendo as coisas como funcionavam, passei a conhecer o andamento da associação... comecei a ver algumas coisas que eu não tava de acordo e ai comecei a me interessar mais... eram coisas de centralização, coisas que ficava meio que escondida. Foi quando comecei a me posicionar contra... teve gente que não gostou das minhas atitudes, mas eu tava ali pra ajudar a minha comunidade, era esse meu objetivo... mas tinha vezes que parecia que algumas pessoas não pensavam assim... briguei pra que o estatuto fosse homologado em 2002, pras coisas ficarem mais claras sabe... (Depoimento, 2007).
Em sua fala Cleide deixa intrínseca a razão pela qual Marizete se retira da ADCPMB, e funda em 2003 a APAAM. Haveria práticas que, não concordando e tendo conhecimento, pretendia ir de encontro. As duas lideres conservam algum tipo de ralação com políticos. Seja diretamente ou indiretamente, representam interesses externos na localidade. Marizete, partidária, inclusive já foi candidata a vereadora, não obtendo sucesso. Cleide diz não querer fazer parte de nenhum partido, mas confessa ter uma aproximação com uma vereadora do município, moradora do Cedro.
As duas organizações declaram ter como objetivo principal “trabalhar as causas sociais, para que a comunidade venha a se desenvolver”. De uma forma ou de outra já obtiveram alguns êxitos. Grande parte dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, pescadores e pescadoras conquistaram alguns direitos em virtude da ação das associações. Bem como questões particulares são recorridas a estas instâncias. O calçamento das ruas do povoado foi uma luta de uma delas, o transporte escolar municipal, dentre outros feitos são atribuídos como conquistas sociais destas organizações.
No geral é possível afirmar que a população encara como positiva a existência das associações. Tanto que o São Gonçalo, passou a querer se organizar tal como estas. Nas primeiras semanas de trabalho de campo passei a ter conhecimento desta intenção por parte de alguns integrantes do grupo. Se de um lado existe o êxito das associações, na interpretação de alguns, por outro o São Gonçalo está passando por uma crise de liderança. As três pessoas que são considerados “chefes” do grupo, estão sendo colocados em suspeita sua capacidade de liderar. Os senhores: Dedé, Eupideo e Sales. A questão é ainda mais complicada para o último deles, pois, além de ser “chefe” é o “Patrão”. E em grande parte dos depoimentos, e conversas que realizei com as pessoas,
teciam-se criticas a este líder. Sua liderança, como orientador da dança, recai na culpa pelas formas de dançar dos “figuras”, que não agrada os mais velhos, bem como para outros é considerado uma pessoa “sem pulso”.
Coisas do tipo: “... rapaz esses chefes já tão velhos, não dá pra mandar no São Gonçalo mais não”, são disparadas pelos dançarinos e tocadores novos. E quando a questão é a relação com a prefeitura que a situação de Seu Sales se agrava. Segundo Joseilton (26 anos):
Agente não tá mais nessa de fazer o que a prefeitura manda não, é só querer que agente se apresente sem receber nada... e manda pra cá e manda pra lá, eles querem fazer agente de boneco... se agente não tiver um líder que fique contra isso... é rapaz o negocio é complicado... Seu Sales é funcionário da prefeitura, ai não quer ir contra o que o prefeito e o secretario manda, só que se agente não dançar não tem São Gonçalo... né melhor agente transformar o grupo numa associação? Ai agente coloca alguém dos novos pra ser chefe também, é como se fosse um representante... mas fica só os velhos... Seu Eupideo coitado, quase não pode sair mais de casa, Seu Dedé nem se fala, esse é chefe de faz de conta (risos) (Depoimento, 2006).
A proposta do integrante é reunir a antiga forma de liderança com uma nova representação. Para Seu Sales isso não daria certo e fica totalmente contrario a sugestão: “Eles tão querendo esse negocio de fazer o São Gonçalo ser uma associação, isso não vai dar certo... todo mundo vai querer mandar, vai virar uma bagunça...” (Depoimento, 2006). E em seguida me faz uma proposta: “... o São Gonçalo precisa é de alguém que cuide das apresentações, mas que não faça parte... nem dançarino, nem tocador... nada o certo é alguém pra produzir o grupo... você não quer não?” (idem). Cheguei a tomar um susto com a sugestão, mas expliquei que não posso, de forma curta sem muitos esclarecimentos. Essa passagem me deixou inquieto, cheguei a pensar a voltar atrás e aceitar, mais seria um nível de envolvimento que não poderia assumir.
Considero esse fato uma procura do grupo, é a busca em se ajustar a uma nova lógica. A da profissionalização, pois, tudo indica que a autonomia já foi conquistada. Estes dois pontos tratarei no último item deste capítulo.
Sendo o rito uma linguagem do grupo que expressa suas relações perante a sociedade geral (LEACH, 1996), é passível de entender as implicações que se apresentam no entorno do São Gonçalo. Por outro lado, se Martine Segalen (2002: 97), entende que: “Em contrapartida, se o terreno cultural estiver pronto para acolhê-lo, o rito se inscreverá rapidamente no social”, considero uma alternância no caso estudado:
se o terreno social estiver pronto para acolhê-lo, o rito se inscreverá rapidamente no cultural. Quero sugerir com isso que primeiro o social imprime uma força no rito, e só depois ele passa a assumir um significado coletivo ou social.
A mudança social imprime uma nova configuração no rito, e este ao se adequar assume outras nuances, o que sucinta um não equilíbrio. Acreditar que haveria uniformidade na forma de encarar essa situação é uma maneira ingênua de abordar as ações humanas. A idéia do equilíbrio social, tão criticada por Leach, realmente é apenas uma estratégia de análise, atende apenas a uma abordagem específica de interpretação das condutas sociais.
Quando a situação social apresenta suas exigências de adequação, em um jogo de ganhos, perdas e empréstimos, o rito assume seu lugar no grupo social ao qual faz parte reivindicando seu espaço, foi assim com o processo de folclorização e da mesma forma com no contexto etnização, como apresento a seguir.