Para São Bento, havia um propósito espiritual no centro da vida monástica, como a busca de Deus e o cultivo das virtudes. No entanto, o projeto beneditino resultou, posteriormente, no desenvolvimento de práticas e, em uma linguagem contemporânea, de equipamentos culturais, como bibliotecas que não deixaram de ter menor significação que a leitura durante a Idade Média.
Lembremos a passagem do Capítulo 48 da Regra que se fundamentou, junto com a leitura, os possíveis usos dos livros na Quaresma:
In Quadragesimae vero diebus, a mane usque tertia plena vacent lectionibus suis, et usque decima hora plena operentur quod eis iniungitur. In quibus diebus Quadragesimae accipiant omnes singulos codices de bibliotheca [grifo nosso], quos per ordinem ex integro legant; qui codices in caput Quadragesimae dandi sunt183.
A palavra bibliotheca aparece somente neste trecho da Regra e merece breves observações já que traz particularidades e dificuldades, sobretudo quando analisada sob diferentes contextos e interpretações184.
Na perspectiva de uma história monástica, seria possível distinguirmos dois sentidos para palavra bibliotheca: “depósito de livros” e “corpus dos livros da Escritura Sagrada”.
A primeira interpretação dá facilmente conta dos detalhes do texto da Regra, mas oferece uma série de dificuldades pelo fato de não ser sobre a maneira de distribuir os livros que se legisla, mas sobre a qualidade ou proveniência dos livros, o que resulta em uma “misteriosa biblioteca”.
183 “Nos dias de Quaresma, porém, de manhã até o fim da hora terceira, entreguem-se às suas
leituras, e até o fim da décima hora trabalhem no que lhes for designado. Nesses dias de Quaresma, recebam todos respectivamente livros da biblioteca [grifo nosso] e leiam-nos pela ordem e por inteiro: esses livros são distribuídos no início da Quaresma”. SÃO BENTO, op. cit., Cap. 48, p. 103-105.
184 Não aprofundaremos as questões etimológicas e históricas da palavra bibliotheca já que
pressupõe estudos específicos e detalhados. No contexto da Regra, a palavra foi muito bem trabalhada por Mundó. Cf. MUNDÓ, Anscari. “Bibliotheca”: Bible et lecture du Carême d’après Saint Benoît. Revue Bénédictine, Belgique, année 65, t. 60, p. 65-92, 1950.
Mundó considera os seguintes argumentos que justificam a impossibilidade de se fechar a interpretação sobre a palavra, considerando que:
- 1° a interpretação ordinária da palavra bibliotheca, no sentido de depósito de livros, na Regra de São Bento, oferece sérias dificuldades;
- 2° os comentadores, a partir da época carolíngia e das traduções em línguas modernas, sempre a compreenderam no sentido de depósito de livros, criando, conseqüentemente, o cerimonial em parte ainda utilizado hoje. Entretanto, não se pode falar numa verdadeira tradição remontando a São Bento, mas antes numa maneira tradicional de se interpretar essa passagem, oriunda da interpretação etimológica dessa palavra e de seu sentido tomado nos léxicos dos autores clássicos; os modernos continuam a interpretá-la assim, pelo fato de que desde o Século XVI, essa palavra perdeu qualquer outra significação;
- 3° a palavra bibliotheca também tem um outro sentido para os autores latinos a partir de São Jerônimo, qual seja o de corpus da Sagrada Escritura ou
Bíblia. Se se fizer abstração dos preconceitos atuais expostos acima, o texto de São Bento pode significar tanto uma quanto outra coisa. O contexto, entretanto, e as dificuldades de interpretação tradicional permitem-nos justamente propor como provável que São Bento quer que os monges, durante a Quaresma, leiam de modo especial a Escritura Sagrada e não um livro qualquer de espiritualidade, retirado do depósito de livros;
- 4° há indícios notáveis desse fato na prática litúrgica e na espiritualidade, e estes coincidem com essa explicação;
- 5° a Bíblia de São Bento era materialmente dividida em nove códices, cujos nomes ele cita na Regra185.
A partir dessas considerações, não é certo que São Bento tenha falado de uma biblioteca, no sentido que tradicionalmente a conhecemos, pois quando fala de bibliotheca refere-se aos livros para serem lidos na Quaresma, que podem significar para ele a própria Bíblia.
185 MUNDÓ, op. cit.
Mas São Bento evidentemente admite a existência de uma biblioteca, e uma extensão daquela, desde que seja considerado que cada monge receba a partir dela um codex na Quaresma e que o leia do início ao fim, e não em fragmentos como em uma liturgia.
Essas questões embora estejam no âmbito etimológico, o que pode relativizar a interpretação e, possivelmente, a própria concepção de biblioteca para os beneditinos, não modificam o fato de que os monges sempre estimaram as Sagradas Escrituras a ponto de considerá-las seu Livro ou, melhor ainda, sua Biblioteca Espiritual.
A partir da palavra bibliotheca, nos centremos agora em sua expressão material e em sua institucionalização, símbolo máximo do cruzamento entre livros, leitores e leituras que, inseridos no claustro, foram a mola propulsora na definição do uso, da organização, da circulação e do acesso ao livro e, de certo modo, à informação na Idade Média.
Durante o medievo a cultura teve um forte caráter religioso devido ao domínio que exerceu a Igreja sobre todos os aspectos da vida cotidiana no mundo europeu, a partir do desaparecimento do Império no Ocidente e a consolidação do poder pontifício.
De certo modo, os mosteiros, na Alta Idade Média, substituíram as instituições imperiais na preservação e difusão de cultura, tornando-se, por exemplo, no Império Carolíngio, no decorrer do Séc. IX, verdadeiras redes de ensino. As bibliotecas eclesiásticas e principalmente as bibliotecas monásticas exerceram, portanto, este papel de elos de continuidade e fomento da cultura escrita no Ocidente.
O uso de livros e a preservação de registros do conhecimento tornaram- se freqüentes e imprescindíveis nas ocasiões em que a Igreja precisou constituir parte de leituras do Antigo e do Novo Testamento, de instrução Cristã e de edificação. Deste modo, toda a igreja que foi fundada se tornou o núcleo de uma biblioteca186.
186 LIBRARIES. In: THE CATHOLIC Encyclopedia. [S.l.]: O.S.B., 1999. v. 2. Disponível em:
Como vimos, é comum a associação entre a cultura monástica beneditina e o mundo das letras, já que os monges sempre estiveram aliados aos livros e à leitura.
Para que possa haver leitura continuada nos mosteiros, é preciso haver bibliotecas, e para isso, desde o começo, os monges começaram a colecionar manuscritos e fazer cópias de livros, trocando-os e pedindo-os emprestados a outros mosteiros. Foi assim que também a cultura clássica pôde ser preservada, apesar da desagregação da estrutura urbana e das instituições do Império Romano.
Ao pensarmos nas bibliotecas monásticas e no modo como fundamentaram a cultura medieval e livresca, alguns exemplos merecem ser lembrados187.
Numa época em que escritos da Antiguidade estavam ameaçados a desaparecer, a biblioteca da Cassiodoro significou uma verdadeira salvação à cultura antiga.
Vivarium foi o primeiro mosteiro identificado com o livro no medievo ocidental e a maior necessidade de sua comunidade foi justamente a biblioteca, de modo que Cassiodoro tão logo introduziu a prática de copiar manuscritos.
Cassiodoro se preocupava muito em adquirir livros; mandava-os reproduzir por escribas e traduzia os livros gregos que podia obter. Profundamente devoto, conhecia a importância dos livros religiosos, mas, como bom gramático, preocupava-se com a ortografia que os escribas deviam observar, e, quando comentava os salmos, o fazia como filólogo. Julgava, como
187 Assim como a leitura, as bibliotecas monásticas possuem uma história de longa duração, que
obviamente nos interessa, mas que deve ser tratada sob recortes específicos. Aqui pretendemos discorrer sobre aspectos das bibliotecas monásticas medievais que configuraram certos “modelos” de bibliotecas que, em maior ou menor proporção, foram seguidos pelos beneditinos no período pós-medieval, ao menos no que tange à sua composição temática, conceitual e organizacional. Bem sabemos dos riscos de escolhermos certas bibliotecas e aspectos em detrimento de outros no desenvolvimento deste capítulo, mas por outro lado também consideramos a impossibilidade de abarcarmos toda história das bibliotecas monásticas já que devemos levar em conta a proposta da presente dissertação.
Santo Agostinho, alguns anos antes, que não se podia estudar o texto sagrado sem o bom preparo que davam as artes liberais188.
Conhecido pela exigência e cuidado que demonstrava nesta atividade, Cassiodoro redigiu textos de iniciação cultural: Institutiones divinarum et
saecularium litterarum (Instituições das literaturas divinas e seculares) e De
orthographia (Sobre a ortografia).
FIGURA 16 – Instituitiones divinarum et saecularum litterarum
Fonte: POMBO, Olga. O enciclopedismo medieval. Lisboa: Universidade de Lisboa, 2006. Disponível em: <http://www.educ.fc.ul.pt/hyper/enciclopedia/cap2p2/encmed.htm>.
Acesso em: 05 abril. 2008.
188 RICHÉ, Pierre. As bibliotecas e a formação da cultura medieval. In: BARATIN, Marc;
JACOB, Christian (Org.). O poder das bibliotecas: a memória dos livros no Ocidente. Rio de Janeiro: UFRJ, 2000. pt. 3, p. 246-256.
Em Institutiones, Cassiodoro definiu o trabalho que cabia ao monge e indicou os livros necessários à sua formação. O tratado teve um peso e importância que por muito tempo não foi reconhecido ou observado: deu nova concepção às bibliotecas, mas, sobretudo, às práticas de leitura e dos leitores.
A obra também fala dos conceitos de organização e do uso da biblioteca de Vivarium, que foi estabelecida com a doação dos próprios livros de Cassiodoro. Ainda menciona a necessidade de competentes copistas, encadernadores, adequadas luzes para leitura noturna, relógios de sol e de água, e um scriptorium organizado com políticas de cópia estabelecidas189.
Após a morte de Cassiodoro, a maioria dos livros foi, provavelmente, destinada à biblioteca do Latrão e, em épocas diferentes, foram levados à França e à Inglaterra para serem copiados. Há referências dessas viagens durante a época de evangelização da Inglaterra, como, em particular, o caso de Beda, que viajou à Roma com a finalidade de se abastecer de livros, das quais muitos eram obras de gramática190.
Portanto, Cassiodoro tornou-se referência no desenvolvimento intelectual da Europa ao longo da Idade Média por estabelecer o primeiro
scriptorium medieval, além dos princípios e práticas de organização de
bibliotecas que permaneceram até a invenção da Imprensa191.
Aqui vale uma comparação entre o livro como fator de cultura em Cassiodoro e São Bento.
De acordo com Giulia Crippa, nos mosteiros beneditinos a lectio estava restrita à Regra, aos livros litúrgicos, à Bíblia e a poucos textos religiosos, formando um conjunto de volumes reduzidos, unicamente de natureza religiosa e de características simples. Ainda, nas antigas comunidades beneditinas, estava ausente a tradição gramatical e retórica, recusadas por São Bento192.
189 THOMPSON, Lawrence S. Monastic Libraries. In: ENCYCLOPEDIA of library and
information science. New York: Marcel Dekker, 1976. p. 233-262. v. 18: Mexico to Musures.
190 CRIPPA, op. cit.
191 THOMPSON, James Westfall. The medieval library. Chicago: University of Chicago Press,
1939. p. 594–595.
Por outro lado, na comunidade fundada por Cassiodoro, o mosteiro era uma escola onde se ensinavam tanto as ciências sagradas como as profanas, fundamentadas em uma concepção livresca e filológica da cultura.
Em Institutiones,
[...] além da rica mensagem cultural percebe-se a presença de elementos novos e destoantes com a impostação geral do discurso. Por exemplo, quando Cassiodoro é forçado a justificar a ignorância dos irmãos analfabetos ou incultos, ou quando deve fornecer uma interpretação alegórica da escrita (como no capítulo XXX, de antiquariis et commemoratione ortographiae, p. 1145, em que se lê: “Aquilo que é de Deus de outra maneira se vê publicar, coisa que é lícita. Assim, dito mais figurativamente, do onipotente compus na operação”. Todavia, a proposta de Cassiodoro não é voltada aos incultos, não busca qualquer leitor: volta-se, principalmente, para uma elite de poucos cultos ainda capazes de entendê-lo. Da escrita ele dá uma interpretação puramente instrumental, em função da divulgação da mensagem cristã e da cultura tradicional: em uma palavra, antiga193.
De fato, o projeto de Cassiodoro teve um caráter cultural, enquanto São Bento propôs um projeto espiritual, pela sua fidelidade à vida cenobítica e por não ter inicialmente pretensão de servir à cultura intelectual dos monges, limitando-se ao ora et labora.
É claro que um paralelo exato não pode ser feito entre a Regra de São Bento e as Institutiones de Cassiodoro, como se elas fossem o mesmo tipo de texto. Um é uma regra monástica, o outro um programa de estudos para os monges. Mas cada um, embora de diferentes pontos de vista, nos informam
sobre a vida e preocupações dos monges da época194.
Como vimos, a cultura beneditina desenvolveu-se não somente pela Regra de São Bento, mas, sobretudo, pela sua interpretação e leitura pelos
193 Ibid., p. 05-06. 194 LECLERCQ, op. cit.
monges. Isto resultou, posteriormente, em práticas que vão ao encontro daquelas propostas por Cassiodoro, sobretudo, no apreço aos livros e às bibliotecas.
O espírito e a cultura monástica medieval deve não somente a São Bento e Cassiodoro, mas a muitos outros monges e religiosos que traçaram bases à formação de bibliotecas e suas relações com o livro, a leitura e o conhecimento. Lembremos de alguns nomes mais conhecidos: Agostinho, Boécio, São Columbano, Isidoro de Sevilha, Beda, Bento de Aniano, Alcuíno, Rabano Mauro, Pedro, o Venerável, São Bernardo de Claraval, Hugo de São Vítor, Alselmo de Canterbury, dentre outros.
Já entre as bibliotecas monásticas mais importantes da Idade Média podemos destacar: Monte Alto, na Turquia; Monte Cassino, Bobbio, Pomposia, Fonte Avellana e Subiaco, na Itália; Saint-Gall, na Suíça; Corbie, Cluny, Fleury- sur-Loire, Saint-Joseph-sur-Mer, Saint-Denis e Saint Martinho de Tours, na França; Montserrat, na Espanha, Canterbury, Glanstonbury, Durham, Lindsfarme, Exeter, Nursling, Wearmouth, Croyland, Whitby e Peterborough na Inglaterra; Mont-Saint-Michel, Bec e Saint-Évroul, na Normandia; Saint Colomba, na Irlanda; Fulda e Hirschau, na Alemanha; e Salzburg, Kremsmunster, Admont, Lambach, Garsten e Mette, na Áustria.
Cluny também foi responsável pela criação de bibliotecas de tamanhos consideráveis na França, que chegaram a superar mil exemplares, destacando- se ao lado das bibliotecas inglesas de Canterbury e St. Albans. Nesta região, na segunda metade da Idade Média, também as Ordens Mendicantes tiveram grande atuação com bibliotecas em Oxford e Londres, como foi o caso dos Franciscanos.
Expressão de um movimento transformador e marcante à formação da cultura letrada no medievo, as bibliotecas tornaram-se instituições sagradas, ou essencialmente religiosas, a que tinham acesso apenas aqueles que fizessem parte de alguma ordem, de um corpo religioso ou sagrado. O livro tornou-se, assim, um objeto sempre presente, porém distante.
Portanto, a biblioteca "[...] foi assim, desde os seus primeiros dias até os fins da Idade Média, o que seu nome indica etimologicamente, isto é, um
depósito de livros, e mais o lugar onde se esconde o livro do que o lugar onde se procura fazê-lo circular ou perpetuá-lo195".
Como ilustração deste panorama vemos, por exemplo, que durante séculos a conservação e a composição de livros foram essencialmente monásticas, pois os monges precisavam de livros em grande quantidade, transformando os mosteiros em focos da vida intelectual, científica e artística.
Os mosteiros tornaram-se grandes centros de civilização do Ocidente Medieval, já que, instalados sobretudo no campo, foram meios de produção econômica, artesanal, intelectual, e ainda espiritual, já que os monges foram cristianizando lentamente os povos mais longínquos, que até então foram pouco atingidos pela nova religião; como mesmo afirma Jacques Le Goff:
Mas o grande centro de civilização da Alta Idade Média era o mosteiro – e, cada vez mais, o mosteiro isolado, o mosteiro rural. Com as suas oficinas, ele é um conservatório das técnicas artesanais e artísticas; com o seu scriptorium-biblioteca, um repositório de cultura intelectual; e, graças aos seus domínios fundiários, à sua utensilagem, à sua mão-de-obra (tanto dos monges como dos variados tipos de seus dependentes), um centro de produção e um modelo econômico – e, é claro, um foco de vida espiritual [...] os mosteiros fazem penetrar lentamente o cristianismo e os valores que ele veicula no mundo dos campos, até então pouco tocado pela nova religião – mundo das longas tradições e das permanências, mas que passa a ser o mundo essencial da sociedade medieval196.
Como repositório da cultura intelectual, o scriptorium197 foi o espaço
destinado à cópia de livros manuscritos, cujo objetivo era o enriquecimento das bibliotecas monásticas.
195 MARTINS, Wilson. A palavra escrita. 3. ed. il. rev. atual. São Paulo: Ática, 1998. p. 71. 196 LE GOFF, op. cit., 1983, p. 156-157.
197 Do latim, scriebe, scriptum, escrever. “O termo “scriptorium” ou “sala de escrever” sugere que
Nos mosteiros beneditinos, o scriptorium no formato de grande salão de escrever foi bastante característico, ao passo que as Ordens Cistercienses e Cartusianas eram favoráveis a celas menores ou scriptoria individuais, celas estas às vezes construídas em torno do calefator - cômodo onde os monges podiam se aquecer.
Também em relação aos scriptoria beneditinos, temos a seguinte descrição:
A oficina dos escribas era um compartimento espaçoso, em regra sobre a sala do capítulo; mas, quando não se reservava nenhum recinto especial para este trabalho, faziam-se, por vezes, para os escritores dos conventos, gabinetes separados, sempre abertos para a arcada do claustro, com uma janela própria para cada escriba; só em casos especiais se lhes destinava uma sala particular para trabalhar. Para evitar perdas irreparáveis causadas por incêndios proibia-se a luz artificial, pelo que todo o trabalho tinha de se fazer durante o dia; proibia-se também o acesso ao scriptorium a qualquer pessoa, exceto aos altos dignitários do convento, para impedir a interrupção do trabalho dos escribas198.
Como sublinha Guglielmo Cavallo, a cópia de livros, que tornou o mundo do microcosmo cultural monástico possível, foi investida no Ocidente de uma dignidade nova que os autores da Idade Média colocaram em evidência pela celebração do copista, cuja tarefa deixou de ser, já a partir de Cassiodoro,
aquele propósito; mas, embora fosse esse o caso mais freqüente, ainda assim estava longe de ser uma regra geral. Tais “apartamentos” para escrever eram encontrados em St. Martin de Tours, St. Gall, Fulda, St. Albans e em outras partes. Freqüentemente, o scriptorium e a biblioteca ficavam na mesma sala. Os livros ficavam fechados em armários ou prateleiras, dispostos verticalmente junto às paredes, de forma a receberem luz. Longas mesas e escrivaninhas separadas eram colocadas no centro do salão e, às vezes, havia escrivaninhas entre as estantes de livros. Fornecia-se acomodação para três a vinte escribas, embora doze fosse o número mais comum. A localização de uma sala comum de escrever variava [...]. Quando o scriptorium era completamente separado da biblioteca, demonstrava-se menos consideração com o conforto dos escribas; e havia freqüentes reclamações sobre corpos que se esfriavam e dedos que ficavam dormentes ou enrijecidos, e até mesmo sobre tinta que se congelava”. THOMPSON, op. cit., 1939, p. 594 – 595.
198 McMURTRIE, Douglas C. O livro: impressão e fabrico. 2. ed. Lisboa: Fundação Calouste
manual e mecânica para ser verdadeiramente intelectual, quer dizer espiritual, no sentido religioso do termo199.
FIGURA 17 – Scriptorium
O Scriptorium de Echternach. Miniatura de um códice. Brema. Staatsbibliothek, ms. B 21. Fonte: BATSELIER, Dom P., O.S.B (Dir.). San Benito: Padre de Occidente. Barcelona: Editorial
Blume, 1980.
199 CAVALLO, op. cit., 2003.
Coleções de livros famosos, tais como de St. Gall são provas do alto nível da cultura monástica de livros e do modo como o estatuto do copista foi modificado.
Os scriptoria e as coleções de livros tiveram características padronizadas nos primeiros mosteiros medievais. O bibliotecário (armarius) tinha sob sua responsabilidade o scriptorium e o cuidado com os manuscritos: dividia as tarefas, fiscalizava o desempenho dos monges, realizava o ditado de algum manuscrito, quando deste deveriam ser elaboradas diversas cópias, e também, distribuía todo material necessário, o pergaminho, as penas, o corta-penas, as tintas, os buris e as réguas.
Como já observamos no início do capítulo, ao final da Antigüidade e início da Idade Média se deu um processo de transformação na estrutura e forma das obras escritas, que culminou no predomínio do códice, que se adaptou às características próprias do pergaminho, ainda que este não tenha implicado no desaparecimento total do rolo.
Esta mudança constituiu por sua vez um grande impulso para as atividades de ornamentação das obras que se reproduziam, devido ao fato do pergaminho ser um material melhor que o papiro para se fazer iluminuras, letras ornamentadas e iniciais caligráficas, muito embora as primeiras