2.4. FİZİKİ YAPI VE SINIFLANDIRILMAS
2.4.4. Sheldon Sınıflandırması
Já observamos que a resolução do MST de incorporar à sua práxis a organização da produção foi uma de suas medidas mais inovadoras. Melhor examinada a questão, inferimos que essa política, a qual significa uma ruptura com o habitus estabelecido, tem transcendência social, pois se dissocia tanto do que preconiza o capital, quanto das práticas consagradas nas demais organizações populares.
A ideologia liberal tem um dos seus pilares na operação categorial que divide a sociedade em instâncias econômica, política e social. Admite-se, evidentemente, que estas instâncias interagem fortemente. Contudo, no limite elas são consideradas autônomas, além do que nenhuma delas tem, para todos os efeitos, primazia sobre as demais. Dado que são autônomas se lhes atribuí características e funções específicas. Dessa forma, a democracia é da ordem da esfera política. O capitalismo pertence à esfera econômica. Assim sendo, na esfera de atividade econômica, a democracia não faz parte, uma vez que aqui devem prevalecer, antes de tudo, os critérios de eficiência, fato que nessa visão pressupõe a organização hierárquica do trabalho (WEBER, 1970, p 229-282).
Ao menos uma parte importante do pensamento presente no MOP, jamais compartilhou essa visão da sociedade moderna. Paradoxalmente, no entanto, por centenas de anos essa mesma parte vem compactuando tacitamente com essa concepção em suas atividades práticas, o que costuma ser justificado em nome da tática e da estratégia.
Comentamos, na primeira parte deste trabalho, algumas das decorrências dessa prática. Acrescentemos, ao já observado, que uma outra conseqüência dessa prática é a bipartição básica tradicional do MOP em organizações para a economia (sindicatos) e organizações para a política (partidos), do que decorre mais ou menos fatalmente que o primeiro tipo de organização tende a adernar para uma práxis economicista e o último para uma práxis
politicista.
Ao juntar-se numa organização única o econômico e o político - o que se constitui em uma das dificuldades para se classificar o Movimento25 -, o MST afasta-se da impostação tradicional e lança um ponto de partida para que, em sua práxis, recomponha-se a unidade dialética entre o econômico e o político, cuja matriz primordial está dada na produção da vida material, em determinada articulação de forças produtivas e relações de produção.
Que conseqüências resultam dessa impostação? Enumeremos as principais: a) o controle, no âmbito de sua jurisdição, da matriz primordial da organização social, isto é, da organização do trabalho e da produção; b) a promoção imediata de alterações na organização dessa matriz; c) a elaboração de uma cultura correspondente baseada na práxis do trabalho cooperativo e associado.
Em suas considerações críticas a respeito da tradição socialista, Mészáros (2002) defende que, em última análise, a reversão das revoluções socialistas ocorreu porque o sistema do capital nunca foi atacado adequadamente onde era imprescindível que isso ocorresse, ou seja, na esfera seminal da organização da produção. É sob este ângulo que a ação econômica do MST afigura-se mais valiosa. O controle da organização da produção pelo Movimento, abstraindo-se por ora as suas várias limitações e contradições, possibilita a promoção de transformações radicais não simplesmente na esfera do aspecto político, do social ou do cultural, - o que em geral significa dar fôlego à pauta burguesa de dividir para imperar -, mas no próprio cerne do sistema do capital, o âmago constituído pela dialética das forças produtivas e relações de produção, a partir do qual se erigem as demais instâncias da sociedade.
25 - Movimento, movimento-organização, movimento com características sindicais e partido político agrário
As relações de produção dominantes são, com efeito, o alvo perene da ação contestadora do MST. Na fase em que ainda não tinha assumido a organização da produção, essa contestação dava-se reivindicando o direito à existência e à expansão da pequena propriedade agrária familiar, em detrimento da predominância da grande propriedade capitalista. Posteriormente à assunção das tarefas econômicas, essa contestação prossegue mantendo a proposição originária, mas acrescentando-se a ela diversas formas de cooperação entre os pequenos produtores e, sobretudo, a formação de cooperativas de trabalho associado.
A instauração de uma economia em parte divergente da capitalista, ao alcançar um certo estágio de desenvolvimento, coloca para o MST a questão da cultura e, no que importa aqui mais especificamente, da educação escolar. Na fase inicial de sua trajetória, quando o MST atua nas esferas do movimento social e da política, ele podia pensar a formação de seus membros segundo um padrão conhecido das organizações populares, que normalmente buscam a capacitação política de seus militantes e quadros. No entanto, quando ele pretende, além da luta política, também consolidar e estimular o desenvolvimento de formas de produção alternativas, a capacitação política torna-se insuficiente, e o MST apercebe-se da necessidade de começar a cuidar também da educação de tipo escolar.
Nesse movimento, no qual o MST percorre o caminho que vai da esfera da produção para a esfera da educação escolar formal, observa-se a potência seminal do mundo do trabalho. A pedagogia inerente à prática do trabalho associado proporciona aos membros do MST uma certa consciência a respeito da existência das categorias relativas ao trabalho associado, bem como de suas virtualidades sociais, econômicas e transformadoras. Mas a existência dessas categorias imanentes, por si próprias, é insuficiente, de sorte que demandam ao Movimento a necessidade de elaboração de um aparato reflexivo específico, capaz de resgatar e incorporar, com os recursos científicos, técnicos e culturais que lhe são próprios, os saberes acumulados pela humanidade, com o que se chega ao universo da escola, da ciência e da tecnologia.