Para introduzir nossa incursão na vida cotidiana, apresentamos a relação entre o cotidiano e a período moderno da história. Por pelo menos dois motivos: a concepção das políticas de habitação que analisamos (padrão arquitetônico, a homogeneidade das unidades habitacionais proposta pelos projetos, as técnicas empregadas) encontra subsídios nos ideais da modernidade107, por outro lado, diversos autores relacionam a modernidade no bojo de sua crise e o cotidiano. Este último aparecendo como surgido daquela, e ainda que não tenhamos elegido tal conceito para o curso dessa pesquisa, sua relevância é inegável, pela persistência em que apareceu no processo de revisão bibliográfica. Não podíamos ficar isentos a ele.
Sobre tal perspectiva Lefebvre nos diz:
São as duas faces do espírito do tempo. Ao cotidiano, conjunto do insignificante (concentrado pelo conceito), responde e corresponde o moderno, conjunto dos signos pelos quais essa sociedade se significa, se justifica, e que faz parte da sua ideologia.(...) Cotidiano e modernidade: duas realidades solidárias, tão poderosas quanto pouco conscientes antes de terem sido transpostas para a linguagem e para o conceito: a cotidianidade e a modernidade. (...) São simultâneas e relacionadas. (1991, p.30)108.
A crise da modernidade em Lefebvre reflete o cotidiano, e também a crise dele, e como conseqüência sua incapacidade de criação. Lembrando que a capacidade criadora era uma das propostas da modernidade, uma vez que para o autor, é no cotidiano que as necessidades são satisfeitas.
Ainda relacionando cotidiano e modernidade:
O cotidiano é o humilde e o sólido, aquilo que vai por si mesmo, aquilo cujas partes e fragmentos se encadeiam num emprego do tempo. E isso sem que o interessado tenha de examinar articulações dessas partes. É, portanto aquilo que não tem data. É o insignificante (aparentemente); ele ocupa e preocupa e, no entanto, não tem necessidade de ser dito, é uma ética subjacente ao emprego do tempo, uma estética da decoração desse tempo empregado. É o que se une à modernidade. Por esta palavra é preciso entender o que traz o signo do novo e da novidade: o brilho, o paradoxal marcado pela tecnicidade ou pelo mundano. É o audacioso
107 No âmbito desse trabalho entendemos modernidade como o período que se relaciona com o surgimento da
sociedade urbano-industrial, portanto, após a Revolução Industrial irrompida no século XVIII.
108 Ressalte-se que o estudo do autor tomado como referência principal no presente trabalho é A vida cotidiana no
mundo moderno, escrito na década de 1970, e traz já no título sua maior preocupação: a vida cotidiana na modernidade, uma vez que seus estudos precursores a respeito da vida cotidiana datam de 1946 e anos subseqüentes com os três volumes da obra A crítica da vida cotidiana.
109 (aparentemente), o efêmero, a aventura que se proclama e que se faz aclamar. É a
arte e o estetismo, mal discerníveis nos espetáculos que o mundo dito moderno apresenta e no espetáculo de si que ele apresenta a si mesmo. Ora, cada um deles, o cotidiano e o moderno, marca e mascara, legitima e compensa o outro. São as duas faces de uma realidade tão espantosa quanto a ficção: a sociedade em que vivemos. Uma não é de maneira alguma o significante, e o outro o significado. Essas
duas faces se significam reciprocamente109. (idem, p.31)
Para Petersen a emergência da temática da vida cotidiana está relacionada com a crise da modernidade, por pelo menos dois de seus efeitos: 1)De um lado, a crítica à epistemologia racionalista, às grandes narrativas legitimadoras, à hegemonia do discurso científico e o reconhecimento do estatuto gnosiológico de outras formas de conhecimento, como o senso comum, forma do pensamento cotidiano por excelência; 2) Por outro lado, a recusa às grandes sínteses, aos macrobjetos, às explicações de caráter estrutural, voltando-se ao fragmentário, fortuito, indeterminado, irracional e micrológico, que aparentemente são conteúdos da vida cotidiana. (p.49).
Também em relação à crise da modernidade, Barcellos (1995) remete ao imaginário dos anos 1980 marcado pela constatação da crise da Teoria do Conhecimento. Crise para ele gerada no interior de uma visão de mundo que dava unidade e sentido à realidade: o marxismo. Para o autor, a principal visão de mundo herdada da modernidade, inspirada do pensamento social contemporâneo, no século XX mostrou suas fragilidades e, as noções de território e cotidiano podem ser palavras-chave no esforço da renovação frente à crise do saber atual (p.40).
Martins (1998) preocupado que está com o interesse sociológico pela vida cotidiana, encontra a sociologia como uma expressão da modernidade. Para ele, estamos diante de um fascinante processo de reinvenção da sociedade, mas também de reinvenção da sociologia. (p.56). Para esse autor:
As grandes certezas terminaram. E com elas entraram em crise as grandes estruturas da riqueza e do poder (e também os grandes esquemas teóricos). Daí decorrem os desafios deste nosso tempo. Os desafios da vida e os desafios da ciência, da renovação do pensamento sociológico. Se a vida de todo o dia se tornou o refúgio dos céticos, tornou-se igualmente o ponto de referência das novas esperanças da sociedade. (op. cit, 57).
Ao discutir cotidiano e modo de vida, para Seabra (2004) a vida cotidiana como conceito refere-se aos conteúdos da vida na modernidade, os quais seguem sendo transformados pelas
109 Grifo nosso.
110 tecnologias do cotidiano e por elas modulados, caracterizando uma maneira de viver ou um modo de vida regido pela lógica da mercadoria (p.190).
Segue o mesmo raciocínio Carlos (2004), para quem:
A produção do cotidiano, hoje no mundo moderno, vincula-se a ampla difusão do consumo que criou o reino da mercadoria, na conseqüente penetração das relações capitalistas na esfera doméstica associada à necessidade de reprodução do capital através da reprodução das relações sociais que produz um modo de vida, um modo de consumo, um tipo de consumidor, valores e necessidades. (p. 63).
Souza (1997) ao analisar a proposta política de produção de habitação popular da Secretaria Municipal da Habitação de São Paulo no período de 1989 a 1992, o faz discutindo a modernidade, pois, esta a seu ver, nos remete ao cotidiano. Desse modo, traça as diferenças entre o projetado e o vivido, o primeiro versando sobre a racionalidade, a base do imaginário técnico que representa o ideário central da modernidade; e o segundo sobre o discurso dos moradores, baseado no vivido, no cotidiano, nas experiências de vida que se desenvolvem no limite da necessidade, ou que se dilatam, enfim, no limite tudo aquilo a que a modernidade não respondeu e que está em sua periferia , em sua orla (p.17).
Para ele:
Se de um lado o que estabelecia a dinâmica entre a vida das pessoas no novo lugar de morar era o cotidiano, do outro, era o pensamento técnico que norteava as concepções que embasaram as novas políticas habitacionais da Superintendência de Habitação Popular. Colocava-se assim a dicotomia entre o mundo técnico e o mundo vivido. Tal constatação nos remeteu de imediato para as reflexões sobre o processo de desenvolvimento da modernidade, recolocando a questão onde a
aparente divergência entre os dois mundos vislumbrados convergiam, ou melhor,
dinamizaram-se, na verdade, numa única lógica, ou em um único processo imposto por esta modernidade110. (op. cit, p.36) 111.
É fácil perceber a divergência entre o mundo técnico e o mundo vivido assinalada pelo autor. No entanto, queremos chamar a atenção para o fato de que justamente os ideais técnicos da modernidade expressos na territorialidade construída nas áreas de implantação dos conjuntos, influenciam diretamente na vida cotidiana e nas práticas socioespaciais dos
110 Grifo nosso.
111 O autor dedica importante parte de sua pesquisa para a discussão da relação entre modernidade e cotidiano.
SOUZA, Gustavo de Oliveira C. Do projetado ao vivido, a construção do lugar. O meio ambiente na produção
de conjuntos habitacionais. Tese de Doutorado. Departamento de Sociologia IFCH/UNICAMP. Campinas, 1997;
apoiando-se em autores como Edward Soja (1993), David Harvey (1993), Agnes Heller (1985), Michel Maffesoli (1978,1984 e 1994), Antony Giddens (1991), Jurgen Habermas (1987,1991).
111 moradores dessas áreas. Daí a convergência do que parece divergente. Um processo é resultado e resultante do outro. Ainda para esse autor, as reflexões sobre a modernidade remetem a um debate central que se instaura no interior das ciências sociais, expresso pela polêmica da superação da modernidade pela pós-modernidade, ou seja, um debate que se dá no interior da razão moderna e não fora dela. Tal polêmica aponta para uma crise estrutural nas ciências sociais que vê seus alicerces fundados na razão abalarem-se por uma crescente leitura dos aspectos irracionais nas estruturas societárias contemporâneas112. Eis no nosso entender o respaldo do estudo do cotidiano.
Antogiovanni (2005) preocupa-se com os embates entre as modernizações no campo (solicitadas em nome do desenvolvimento 113) e as manifestações de resistências de comunidades tradicionais ocorridas nos territórios cotidianos. Podemos inferir que a modernização no campo é também proveniente da modernidade? Souza (1997) traz para o debate aspectos da teoria da modernidade de Habermas, onde esse autor diferencia modernização e modernidade como segue: a modernização trata-se de uma racionalização ocorrida nos subsistemas econômico e político; enquanto que a modernidade cultural é um movimento de autonomização no interior do mundo vivido, das chamadas esferas de produção: a moral, a ciência e a arte114. (apud Souza, 1997, p.38). Para Habermas modernidade cultural e
modernização societária são dois aspectos da modernidade, sem os quais esta não pode ser compreendida115.
Vimos brevemente como se relacionam modernidade e cotidiano. O que converge para nosso debate, no sentido de esclarecer que o cotidiano como conceito e categoria de análise, é um advento da sociedade urbana e, portanto, é uma construção social de um dado espaço e tempo específico.
Carlos Vainer (2005), trazendo para o debate a mobilização e a imobilização das pessoas na contemporaneidade, identifica a pressão porque passa a academia no sentido de produzir novos conceitos, novas idéias, novas teorias e questiona até que ponto o que é novo e o que é novidade no debate acadêmico. Para isso, apresenta dois tipos de novidade: um
primeiro que diz respeito a novos fatos sociais, como por exemplo, novas leis ou novos
contratos sociais de migração que passam a denominar, ver, e analisar de maneira diferente um
112 Idem. Grifos do autor.
113 No âmbito de sua pesquisa tal modernização é incitada pela Aracruz papel e celulose no Estado do Espírito
Santo. ANTOGIOVANNI, Lídia Lúcia. Territórios reticulados e os constrangimentos aos territórios do cotidiano. In:
Anais do X Encontro de Geógrafos da América Latina. Universidade de São Paulo. São Paulo, 2005. p. 1018 a
1030.
114 Grifos do autor. 115 Idem.
112 mesmo grupo de indivíduos que vive as mesmas dinâmicas e processos desde sempre: trabalhos clandestinos, empregos ilegais, etc. O segundo tipo de novidade, diz respeito a um processo de reconfiguração da nossa capacidade perceptiva: como se determinados processos ou práticas presentes desde há muito tempo na realidade social viessem à tona. Para o autor, esses novos olhares podem decorrer do surgimento de movimentos políticos e culturais que sinalizam ou denunciam dimensões antes não perceptíveis e não percebidas.
A partir disso, cabe o questionamento: o estudo do cotidiano como categoria de análise é uma dimensão em algum momento da história não perceptível e sempre esteve presente na realidade social e o que mudou foi justamente nossa capacidade de interpretar/perceber tal fato? Ou corresponde ao primeiro tipo de novidade sinalizado por Vainer? Odete Seabra (2004) ajuda a responder as questões. Para ela, o que atualmente estudamos e entendemos como cotidiano é o que os clássicos da ciência geográfica (Max Sorre, La Blache, Pierre George, Jean Brunhes) denominaram de gênero de vida. A autora reconhece que à época desses clássicos, as derivações conseguidas atualmente com o estudo cotidiano não eram possíveis. Isto porque, o cotidiano que estudamos atualmente somente pode ser analisado à luz da modernidade.
Desse modo, interpretamos o cotidiano como o primeiro tipo de novidade proposto por Vainer, ou seja, o cotidiano como novo fato social regido pela modernidade, que o diferencia sobremaneira dos gêneros de vida, tão ricamente analisados pelos geógrafos clássicos.
Voltemos agora nossa atenção para Henri Lefebvre e suas formulações sobre o cotidiano.