Recuperamos aqui a oposição proposta por Lefebvre habitar/habitat para compreendermos a maneira de morar do nosso território cotidiano, analisado no nível privado.
O habitat corresponde ao espaço concebido para a habitação. Em contraposição, o habitar corresponde à poesia implicada no ato de morar. Dito de outra forma, o habitat está para
propriedade efetiva , assim como o habitar para apropriação afetiva com o espaço habitado. No dizer de O. Seabra, a insurreição do uso151 no pensamento lefebvriano diz respeito ao uso do espaço, do tempo, do corpo, essencialmente porque abrigam dimensões da existência: o prazer, o sonho, o desejo, o riso. Daí nosso interesse pelas noções revisadas pela autora de apropriação e propriedade. A primeira tendo como referência qualidades, atributos,
usos, portanto; e a segunda relacionada a quantidades, a comparações quantitativas,
igualações formais, portanto, troca.
...
É preciso assinalar de antemão que não há pelos moradores uma percepção única quanto ao lugar de morar. Dessa maneira são referências a este espaço: Conjunto, Comunidade, Nosso bairro, Predinhos, COHAB, Mutirão. Este último aparecendo com mais freqüência, mas é necessário frisar que Mutirão refere-se nesse caso à totalidade do Conjunto Habitacional e não somente às casas construídas em regime de mutirão no âmbito do Programa de Produção de Unidades Habitacionais em Mutirão e Autogestão da administração de Luiza Erundina.
150 Cientes da vastidão de sua obra, os trabalhos escolhidos para nossa investigação respondem às nossas
perspectivas, pelo menos nesse momento de nosso percurso intelectual.
151A insurreição do uso. In MARTINS, José de Souza (org). Henri Lefebvre e o retorno à dialética. São Paulo:
131 Os muros de concreto que margeiam o Conjunto, trazem em sua extensão propagandas políticas, mas também propagandas de comércios e serviços das áreas próximas dali. São extensões dos muros que margeiam o terreno baldio ao lado do Conjunto.
Adentrando o Conjunto pela Rua Peixe Boi, temos acesso à Rua Sabiá Branco, conhecida pelos moradores como Primeira rua , vemos do lado esquerdo em toda a extensão da rua, a enorme fileira de casas autoconstrúidas, todas assobradadas, todas com recuo de frente e de fundo, a maioria com portões e garagens feitas pelos moradores (à margem do que propunha o projeto original), todas com a mesma pintura externa nas cores ferrugem e laranja152, em algumas delas há a presença de pequenas árvores e ou plantas, em toda a extensão da rua muitos carros estacionados, de um e de outro lado, de propriedade dos moradores do mutirão e dos moradores dos prédios, também enfileirados, com pintura externa marfim e detalhes azuis situados no lado direito da rua. Nas outras duas ruas, Quica D`Água, e Quero Quero, Segunda e Última rua , respectivamente, os outros prédios que compõem o empreendimento aparecem também enfileirados, pintados da mesma forma com a cor marfim e detalhes azuis. Nessas ruas, há também a presença de inúmeros carros estacionados, pois, são poucas as áreas dos edifícios inicialmente destinadas a estacionamento que cumprem essa função. Além disso, é necessário considerar a facilidade em adquirir um automóvel atualmente, o que explica também o número elevado de veículos nas ruas do empreendimento. Na maioria dos edifícios, nas áreas previstas para estacionamento, o que há são parcas construções onde funcionam as atividades de comércio e serviços do Conjunto Habitacional: desde os tradicionais bares e salões de cabeleireiro, até brechó, açougue, bicicletaria, oficina mecânica para o conserto de automóveis etc153. Uma moradora lembra-se do início das ocupações das áreas de estacionamento:
No começo ninguém tinha carro, então ninguém ligava para o estacionamento. A verdade é essa. Daí um mais esperto foi lá e fez uma garagem, outro também fez. Agora todo mundo tem carro, mas o estacionamento já está tomado. Não tem mais vaga, e quando tem uma para vender, eles vendem por 2 ou 3 mil reais. Fora o comércio né? Daí agora vários moradores têm carro novo, mas não tem lugar, ficam estacionados na rua, as crianças brincam com bola, pega nos carros, chega até a disparar alarme.
Um ou outro prédio está cercado por grades e portões, mas constituem a minoria deles.
152 A exceção de duas, cujos moradores fazem questão de manter o aspecto cinza dos blocos, em protesto aos
conflitos quando da ocupação de quatro das casas prontas conforme apresentamos no primeiro capítulo. Quando todas as famílias receberam tinta da prefeitura para efetuar a pintura, essas quatro famílias não receberam, duas delas, no entanto, utilizaram-se de recursos próprios para acompanhar o padrão externo de todas as outras casas do Mutirão.
132 No final da Rua Sabiá Branco, onde outrora funcionava o Centro Comunitário das casas autoconstruídas por mutirão, atualmente há um aglomerado de casas também autoconstruídas, mas diferentemente das primeiras, sem auxílio da Prefeitura Municipal, sem apoio técnico, sem a solidariedade dos demais moradores. Segundo uma moradora de uma dessas casas, a assistência social da Prefeitura a orientou a ocupar dois cômodos do Centro Comunitário até que seu problema de moradia fosse resolvido, uma vez que ela passava por problemas de relacionamento com a sogra com quem morava. Seu caso nunca foi resolvido, e ao saberem da ocupação dos cômodos do Centro Comunitário por essa moradora, outras pessoas dividiram a área restante e passaram a construir ali casas de um ou dois cômodos. O mesmo aconteceu com a área contígua ao antigo Centro Comunitário e próxima à quadra de futebol154. A observação do croqui abaixo permite uma noção geral do empreendimento, nele também estão mapeadas todas as ocupações irregulares.
Na Rua Quero-Quero outro Centro Comunitário (construído por ocasião da edificação dos edifícios do Projeto Cingapura) está em funcionamento. Além de eventuais velórios e reuniões, acontece semanalmente a celebração de um culto evangélico no local. Motivo pelo qual os pastores responsáveis pelo culto e também os moradores freqüentadores reivindicam junto à Prefeitura Municipal a construção de uma igreja evangélica oficial para o Conjunto155. O
croqui abaixo nos dá a noção da área do Conjunto Habitacional Parque Continental atualmente.
154 Não sabemos quantas casas há nessa área do Conjunto, no entanto, os moradores fazem uma estimativa de
uma dezena de casas.
155 Vale acrescentar que já existe uma Igreja Evangélica no Conjunto, em virtude da ampliação de uma das casas do
B a s e : P r e f e i t u r a d o M u n i c í p i o d e S ã o P a u l o . S e c r e t a r i a d e H a b i t a ç ã o e D e s e n v o l v i me n t o U r b a n o - S E H A B
S u p e r i n t e n d ê n c i a d a H a b i t a ç ã o P o p u l a r - H A B I
F o n t e : D i a g n ó s t i c o I n t e g r a d o , 2 0 0 5
Croqui semescala
134
Foto 5: Área do Centro Comunitário do Mutirão invadida por algumas famílias, e a quadra de futebol do Conjunto. Em segundo plano, prédios Cingapura e em último plano, no canto superior esquerdo Centro Comunitário dos prédios Cingapura.
Doravante, examinaremos com maior atenção a vida cotidiana do Conjunto Habitacional Parque Continental, verificando como exatamente ocorre a apropriação do espaço do Conjunto por seus moradores, antes, porém, apresentaremos as contribuições de Agnes Heller156 para nosso estudo.
Em suas pesquisas sobre a vida cotidiana, Heller (1989, p.17) busca situar o conceito de vida cotidiana no conjunto das relações do ser humano com a sociedade. Para ela, toda sociedade tem uma vida cotidiana e todo homem, seja qual for o lugar por ele ocupado na divisão social do trabalho, tem uma vida cotidiana. Assim se expressa a autora:
A vida cotidiana é a vida de todo homem. Todos a vivem, sem nenhuma exceção, qualquer que seja o seu posto na divisão do trabalho intelectual e físico. Ninguém consegue identificar-se com sua atividade humano-genérica a ponto de poder desligar-se inteiramente da cotidianidade. E, ao contrário, não há nenhum homem, por mais insubstancial que seja, que viva tão-somente na cotidianidade, embora essa o absorva preponderantemente.157
É a vida do homem inteiro, ou seja, o homem participa na vida cotidiana com todos os
156 Agnes Heller desenvolveu estudos sobre o cotidiano, dos quais deteremos atenção em o Cotidiano e a História e
Sociologia de la Vida Cotidiana (ambas publicadas originalmente em 1970). Aluna e colaboradora de Gyorgy Lucaks (Pensador húngaro idealizador da Escola de Budapeste de orientação marxista) baseava-se nas teorias marxistas para suas análises, buscando subsídios para elaborar uma teoria da vida cotidiana.
157 Grifo da autora. P at rí ci a M ª d e Je su s, Ja n/ 20 08 .
135 aspectos de sua individualidade, de sua personalidade. Nela, colocam-se em funcionamento todos os seus sentidos, todas as suas capacidades intelectuais, suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, suas paixões, idéias, ideologias. O fato de que todas as suas capacidades se coloquem em funcionamento determina também, naturalmente, que nenhuma delas possa realizar-se, nem de longe, em toda sua intensidade. O homem da cotidianidade é atuante e fruidor, ativo e receptivo, mas não tem tempo nem possibilidade de se absorver inteiramente em nenhum desses aspectos, por isso não pode aguçá-los em toda sua intensidade. (p.17)
A vida cotidiana é, em grande medida, heterogênea, e isso sob vários aspectos, sobretudo no que se refere ao conteúdo e à significação ou importância de nossos tipos de atividade. São partes orgânicas da vida cotidiana: a organização do trabalho e da vida privada, os lazeres e o descanso, a atividade social sistematizada, o intercâmbio e a purificação. (p.18).
De acordo com ela, a vida cotidiana além de heterogênea é também hierárquica e essa hierarquia não é eterna e imutável, mas se modifica de modo específico em função das diferentes estruturas econômico-sociais. O trabalho nem sempre ocupou lugar dominante na estrutura da vida cotidiana, pois em tempos pré-históricos toda ela se constituía em torno do lazer, da atividade social.
A vida cotidiana não está fora da história, mas no centro do acontecer histórico: é a verdadeira essência da substância social (p.20) (Grifo da autora).
A característica dominante da vida cotidiana é a espontaneidade. (...) A espontaneidade caracteriza tanto as motivações particulares (e as formas particulares de atividade) quanto as atividades humano-genéricas que nele têm lugar. O ritmo fixo, a repetição, a rigorosa regularidade da vida cotidiana (que se rompem quando se produz a elevação acima da cotidianidade) não estão absolutamente em contradição com essa espontaneidade, ao contrário, implicam-se mutuamente. (...) Mas a espontaneidade não se expressa apenas na assimilação do comportamento consuetudinário e do ritmo da vida, mas também no fato de que essa assimilação faz-se acompanhar por motivações efêmeras158, em constante alteração, em permanente aparecimento e desaparecimento. (p.30)
Na vida cotidiana, o homem atua sobre a base da probabilidade159, da possibilidade:
entre suas atividades e as conseqüências delas, existe uma relação objetiva de probabilidade. Jamais é possível, nesta vida, calcular com segurança científica a conseqüência possível de uma ação. Nem daria, visto a riqueza das atividades. (ibidem)
Na obra Sociologia de la Vida Cotidiana, Agnes Heller (1994, p.19) explicita melhor o
158 Grifos da autora. 159 Grifos da autora.
136 conceito de vida cotidiana ao aprofundar a distinção entre as atividades voltadas para a reprodução do homem singular160 e, aquelas voltadas para a reprodução do social do seguinte modo:
Para reproduzir a sociedade é necessário que os homens particulares se reproduzam a si mesmos enquanto homens particulares. A vida cotidiana é o
conjunto de atividades que caracterizam a reprodução dos homens particulares, os
quais, por sua vez, criam a possibilidade de reprodução do social. 161
A heterogeneidade é uma das características das atividades cotidianas: constituem-se nas múltiplas atividades rotineiras necessárias para a reprodução humana. O indivíduo, ao nascer, se depara com determinados tipos de relações e de atividades sociais que já estão hierarquicamente estabelecidas, desde as que são socialmente consideradas imprescindíveis para a vida em sociedade até as consideradas prescindíveis. Por conseguinte, para fazer parte do meio em que vive, o ser humano precisa assimilar um sistema de referências próprio desse ambiente, um conjunto de relações e atividades consideradas necessárias à sua auto- reprodução por aquele contexto social. Tais atividades heterogêneas, não requerem do indivíduo uma direção consciente, na medida em que são desenvolvidas de forma espontânea e natural , sem que o homem tenha noção do processo através do qual as assimila.
As atividades não-cotidianas, ao contrário, são aquelas que servem à reprodução do gênero humano como um todo e, conseqüentemente, servem também à reprodução do homem particular. Trata-se da esfera da vida humana em que se desenvolvem a ciência, a arte, a filosofia, etc. Para alcançá-la, o homem precisa estar em relação consciente com a atividade que realiza, bem como com o objeto dessa atividade, diferentemente daquilo que ocorre com as atividades cotidianas que são assimiladas e realizadas de forma natural e espontânea , não consciente. Assim, enquanto estas se caracterizam pela naturalidade e espontaneidade , as atividades não-cotidianas se caracterizam pela intencionalidade.
Cumpre ressaltar ainda que o significado do conceito de vida não-cotidiana se explicita na sua relação com o conceito de vida cotidiana e se define a partir dele. A vida não-cotidiana requer a intencionalidade (uma relação consciente com o conteúdo e a forma das atividades, próprias dessa esfera mais elaborada da vida humana). Assim, são raros os casos dos
160 Heller, na sua obra Sociología de la vida cotidiana, utiliza-se da expressão homem singular para referir-se a todo
homem. Segundo a autora, o homem singular, sendo simultaneamente ser particular e ser genérico, pode tender tanto para a particularidade como para a genericidade. Para referir-se à predominância da particularidade no ser humano, Heller utiliza-se da expressão homem particular, e, para referir-se à predominância da genericidade, utiliza- se da expressão indivíduo, distinções essas que não estão claras na versão espanhola aqui utilizada. Neste trabalho o emprego da palavra indivíduo refere-se indistintamente a todo ser humano, adjetivando-a quando necessário.
137 indivíduos que conseguem superar os limites da particularidade (que é um dos pólos constitutivos de sua individualidade) e dirigir suas ações prioritariamente para o humano- genérico (para o outro pólo que constitui a sua individualidade a genericidade), ou seja, para as atividades que estão diretamente voltadas para a reprodução da sociedade. É preciso esclarecer, porém, que não é possível traçar um limite rígido entre o comportamento cotidiano e o comportamento não-cotidiano (a elevação ao humano-genérico), pois todo indivíduo é, simultaneamente, ser particular e ser genérico162.
Heller aborda o significado do não-cotidiano de modo a ressaltar sempre a passagem da cotidianidade para a genericidade, nas várias dimensões da vida humana em sociedade, tais como o trabalho, a política, a moral, a ciência e a filosofia. Desse modo, ao tratar das características do cotidiano que se manifestam nas várias dimensões da vida, como, por exemplo, a heterogeneidade, a espontaneidade, o pragmatismo e a hipergeneralização, a autora as relaciona com as do não-cotidiano que rompem com os limites destas características da vida cotidiana: a homogeneização, a intencionalidade, a reflexão e a causalidade.
Apoiando-se em Lukács, a autora (op. cit, p. 27) afirma que, para ultrapassar os limites da heterogeneidade da vida cotidiana e promover a elevação do homem particular ao humano- genérico, garantindo o processo denominado homogeneização, se faz necessária a combinação simultânea de três fatores, a saber: a concentração de toda a atenção do homem particular sobre uma única tarefa; a suspensão de qualquer outra atividade durante a execução da tarefa escolhida; e o emprego da inteira individualidade humana na resolução da referida tarefa.
O indivíduo, na sua vida social, tem a possibilidade de identificar-se tanto com a esfera do cotidiano quanto com a esfera do não-cotidiano. A grande maioria das pessoas, porém, a vive dentro dos limites da esfera cotidiana, dadas as relações sociais que as condicionam ao exercício de diversas atividades restritas do âmbito cotidiano. Tais atividades absorvem grande parte do tempo e energia do indivíduo, fator que lhe impossibilita intensificá-las uma a uma.
Vejamos como isso se dá na prática.
162 Suas preocupações, seu modo de relacionar-se com o mundo e com as coisas estão ligados às suas aspirações
individuais, particulares que dizem respeito a si mesmo, também e concomitantemente são aspirações genéricas, de todo homem, como por exemplo, o trabalho socialmente necessário para reproduzir-se.
138
Foto 6: Panorâmica do Conjunto: do lado esquerdo edifícios Cingapura e do lado direito casas
do Mutirão. Note-se uma das casas em reforma.