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1.1 | A construção do lugar da autogestão habitacional no Brasil

 mutirão e autogestão: um debate em torno dos movimentos populares de moradia (1970-1980) Talvez tenha sido o famoso parágrafo de Francisco de Oliveira, em Economia Brasileira: crítica à razão dualista , que fundou uma série de pesquisas voltadas para a produção habitacional por meio de mutirão e mutirão com autogestão, no Brasil13.

Na obra, o autor aponta para um conjunto de práticas e processos econômicos, demográficos e urbanos, considerados arcaicos que, ao lado da regulamentação das relações de trabalho e de inúmeras intervenções na esfera econômica, cumpriram um papel fundamental para a implantação da base capitalista industrial. Desta perspectiva, a produção de habitação pelos próprios trabalhadores, a chamada autoconstrução, bem como as dinâmicas de urbanização e suas peculiaridades periféricas teriam importante papel na origem da formação desta estrutura produtiva, no período pós-30, quando o expediente de obtenção da casa própria passou a exercer um papel decisivo na redução do custo da reprodução da força de trabalho, indispensável para a nova hegemonia que se construía.

Uma não significante porcentagem das residências das classes trabalhadoras foi construída pelos próprios proprietários, utilizando dias de folga, fins de semana e formas de cooperação como o mutirão . Ora, a habitação, bem resultante dessa operação, se produz por trabalho não pago, isto é, supertrabalho. Embora aparentemente esse bem não seja desapropriado pelo setor privado da produção, ele contribui para aumentar a taxa de exploração da força de trabalho, pois seu resultado a casa – reflete-se numa baixa aparente do custo de reprodução da força de trabalho – de que os gastos com habitação são um componente importante – e para deprimir os salários reais pagos pelas empresas. Assim, uma operação que é, na aparência, uma sobrevivência de práticas

13Rossella Rossetto (1993) organiza e reproduz citações de autores diversos que revelam aspectos do debate

construído em torno do tema da autoconstrução, que darão substratos para a discussão sobre a produção autogestionária de moradias: Lima, MHB. Em busca da casa própria: autoconstrução na periferia do Rio de Janeiro . )n: Valladares, LP (org). Habitação em questão. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 69-88; Lab. Urb.

Barcelona. Teoria y esperiencia de urbanizacion marginal . )n: El crescimiento de lasciudades. sl: Gustavo Gili, sd; Burgess, R. Ediliziadelsettoreinformale? Uma critica Allá scuola di Turner . )n Rassegadi Architecttura e Urbanistica. n.49, ano XVII, aprile 1981, p. 18-31; Oliveira, F. A economia brasileira: crítica à razão dualista . In Seleção CEBRAP, n.2. São Paulo: Brasiliense, 1972; Pradilla, E. El problema de lavivienda em América Latina. Quito: Centro de Investigaciones Ciudad, 1983; Bonduki, N. e Rolnik, R. Periferias . Cadernos de Estudo e Pesquisa 2, São Paulo: Prodeur, FUPAM, FAUUSP, 1979; Bonduki, N. Programas alternativos de habitação popular: dilemas e perspectivas. Comunicação apresentada ao 10o. Encontro da ANPOCS. sl: (mímeo) sd;

Turner, J. L abitare a ter dimensioni: elementi per una redifinizione del problema della casa . )n Rassegnadi Architecttura e Urbanistica. n.49, ano XVII, aprile 1981.

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de economia natural dentro das cidades, casa-se admiravelmente bem com um processo de expansão capitalista, que tem uma de suas bases e dinamismo na intensa exploração da força de trabalho (OLIVEIRA, 1972: p.31).

De outro lado, havia uma discussão em torno de uma dimensão emancipatória relacionada ao mutirão e uma aparente desconstrução das práticas que conformariam a divisão do trabalho, e deslocariam tanto as injunções provenientes da dinâmica da reprodução e acumulação do capital como as dimensões do trabalho. Para Bonduki e Rolnik (1979), sobre a ideia de trabalho não pago, vinculada à autoconstrução, ao contrário do que ocorre quando o trabalhador vende sua força de trabalho ao patrão, a construção da casa seria talvez o único momento em que ele se apropriaria integralmente do valor do seu trabalho. A autoconstrução seria, desse modo, uma forma de produção individual de mercadorias, que justificaria o supertrabalho pela apropriação da casa como valor de uso.

Não se trata de trabalho não pago ao nível da produção da casa, mas sim de um trabalho realizado como se o trabalhador fosse, neste momento, um produtor individual de mercadorias e não vendedor de sua força de trabalho para o capitalista. Se, numa primeira instância, a habitação resultante dessa operação é produzida como valor de uso, passa a ter um valor de troca quando é mercantilizada, através da venda e locação, muito frequentes (BONDUKI e ROLNIK, Periferias . )n: MAR)CATO, 1979: p.129).

Para o grupo Arquitetura Nova14, constituído pelos arquitetos Sérgio Ferro,

Rodrigo Lefèvre e Flávio Império, o tema foi sendo construído em conjunto com a questão do engajamento do arquiteto e da democratização da arquitetura, com uma nova estética, diversa daquela que valorizava a indústria e a industrialização das construções como meio de democratizar a habitação, tendo vínculo com a cultura popular e com outro projeto de construção da nação, para além da aposta nas dimensões virtuosas da hegemonia industrial, moderna e burguesa. Na produção intelectual desses arquitetos, podem-se encontrar os temas da autoconstrução em mutirão na chave das práticas de participação e democratização da habitação e da cidade, onde os mesmos, simultaneamente, procuravam

14 Ver: ARANTES, Pedro. Arquitetura Nova - De Artigas aos mutirões. São Paulo: Editora 34, 2004; KOURY,

Ana Paula. Arquitetura Nova - Flávio Império, Rodrigo Lefèvre, Sérgio Ferro. São Paulo: Romano Guerra Editora / Edusp / Fapesp, 2004.

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romper com a alienação dos trabalhadores em relação ao produto de seu trabalho (RIZEK e BARROS, 2006: p. 384).

Eram sobretudo arquitetos e assistentes sociais que partiam para as periferias e favelas procurando estabelecer um novo tipo de vínculo, uma militância prática-cotidiana, configurando certa organicidade com as comunidades e movimentos em formação. Era ainda um período de repressão aberta do regime militar e, por isso mesmo, definia por parte dos movimentos urbanos uma desidentificação com o aparelho do Estado, ao mesmo tempo em que demandava deste mais recursos para políticas sociais15.

Também teve destaque a obra do arquiteto inglês John Turner, (ousing by people 16, publicada em 1976, que articulou uma série de ideias que o autor vinha

formulando desde 1957 em torno das virtudes dos processos alternativos, baseados na participação comunitária, como os que ele havia assessorado no Peru, obtendo grande reverberação. LOPES e RIZEK (2005: 53) nos explicam a partir de um artigo do autor, de 198317, que:

Turner, fazendo eco à afirmação de que o melhor procedimento que o Estado pode adotar para a melhoria das condições habitacionais do povo é não produzir moradia, defende que a provisão centralizada tem que ceder lugar à autogestão local , considerando a incapacidade operacional que obstrui o Estado a corresponder, através da provisão direta de moradia – projetos entrega da chave , como denomina – às efetivas demandas da população pobre.

Para Turner, era necessária uma mudança de postura do Estado, dada sua incapacidade operacional. Assim, atribuía a ele apenas as ações administrativas e legislativas, delegando a ação de prover a habitação à própria população, por meio de empreendimentos auto-organizados, autoconstruídos e autoadministrados, sobretudo para satisfazer e controlar a necessidade essencial da moradia.

15 USINA CTAH (2008). In: http://www.usina-ctah.org.br/comentariosobreosmutiroes.html#sthash.qgqr

Mtam.dpuf

16 Versão para países de língua hispânica: TURNER, John F. C. Vivienda: todo el poder para los usuários.

Madrid: H. Blume Ediciones, 1977.

17 TURNER, John F. C. Da provisão centralizada à autogestão local: novas direções para a política habitacional. Artigo para a revista The Courier, 1983.

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No Brasil, essa polarização quanto à adoção ou não de processos alternativos na produção de moradia somava-se à oposição do setor empresarial da construção civil habitacional e à maior parte da burocracia estatal especializada em política habitacional, que eram contrários à utilização de recursos públicos para apoiar a autoconstrução, mutirão e outros programas heterodoxos, considerados atrasados e ineficazes. Por outro lado, vários países da América Latina, África e Ásia, sob estímulo do Banco Mundial e outros organismos internacionais18, vinham adotando esses programas como os mais

apropriados para atender a população pobre (BONDUKI, 2006: p. 233)

Neste mesmo momento, outros importantes trabalhos voltavam-se às condições urbanas e de moradia, em particular na periferia das cidades, objetivando desvendar processos que relacionassem o crescimento econômico e expansão industrial com a intensificação da pobreza, desigualdade, informalidade e espoliação urbana19. Esses

trabalhos traziam uma gama importante de dados, depoimentos e evidências empíricas, a que o próprio Francisco de Oliveira classificou como pioneiros, uma vez que revelavam uma preocupação em pensar um campo teórico especificamente urbano, a partir do urbano mesmo (OLIVEIRA, 1979: p.14).

O mais notável dessa produção teórica foi a desconstrução de explicações acomodadas – ou marginais – sobre a pobreza urbana. Aos poucos, a partir dos anos 1970, cresce a consciência de que a autoconstrução, praticada nas periferias urbanas, não é uma escolha calcada nas raízes do coletivismo rural, mas uma determinação dos baixos salários urbanos. A questão fundiária está no foco da fratura urbana. (...) Com persistência e aderência à realidade, vai se construindo uma representação da cidade periférica (MARICATO, 2012: p. 119 e 120)

18 A evolução dessas ideias e práticas, iniciadas durante a década de 1960 – notadamente no Chile e no Peru –

intensificou-se durante os anos 1970 com o impulso dado pelas conferências das Nações Unidas sobre o meio ambiente (Estocolmo, 1972) e sobre a habitação (Vancouver, 1976), seguidas da criação do Centro das Nações Unidas para os Estabelecimentos Humanos-Habitação, em Nairóbi. Os projetos de tramas de recepção (sites and services), e depois de regularização-reabilitação da habitação subintegrada existente (squatter/ slumupgrading), financiados pelo Banco Mundial, contribuíram para a difusão dos novos conceitos (SACHS, 1999: p. 150). Ver também: ROSSETO, Rossella. Organismos internacionais e a autoconstrução: análise e

reflexões sobre as políticas de habitação para população de baixa renda. Dissertação (Mestrado),

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo/USP. São Paulo, 1993.

19 Ver, entre outros: KOWARICH, Lúcio; BRANT, Vinícius C. São Paulo, 1975: crescimento e pobreza. São

Paulo: Edições Loyola, 1975. KOWARICK, Lúcio. Espoliação urbana. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. MARICATO, Ermínia; PAMPLONA, Telmo. A penetração dos bens modernos na habitação proletária. São Paulo: Publicações FAU-USP, 1977. MARICATO, Ermínia. A produção capitalista da casa e da cidade no

Brasil Industrial. São Paulo: Alfa-ômega, 1979. BONDUKI, Nabil; ROLNIK, Raquel. Periferias: ocupação do espaço e reprodução da força de trabalho. São Paulo: Prodeurb/FAU-USP, 1979. URPLAN-PUC. Construção de Moradias na periferia de São Paulo. São Paulo, Secretaria de Economia e Planejamento, 1979.

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Mas o fato novo nesse debate, no Brasil, ocorreu com a mudança de conjuntura no início da década de , quando novos personagens entraram em cena20 . Segundo

Brant (1981: p.13), a emergência dos movimentos populares em São Paulo, ainda na década de 1970, aconteceu de forma fragmentária, sobretudo por causa das dificuldades de comunicação e das condições de repressão extremada contra a expressão política dos interesses populares. Assim, os movimentos de base tiveram origem a partir do desenvolvimento de laços diretos entre as pessoas. Associações comunitárias, grupos políticos de crescimento molecular, comissões de fábrica, movimentos culturais, clubes de mães ou de jovens, grupos de oposição sindical, tendências estudantis, enfim, uma variada gama de movimentos localizados e dispersos, que se fundamentavam na confiança direta entre seus membros e na consciência de seu desamparo perante as instituições.

No plano das organizações por local de moradia, o papel da Igreja, por meio das Comunidades Eclesiais de Base21 da periferia da cidade – uma das mais importantes matrizes da organização popular (BRANT, 1981: p.14) – foi central e estruturador das formas de atuação dos movimentos de moradia no território, resumidas, no programa das Pastoriais, em três palavras: chão, embrião, mutirão , ou seja, acesso ao solo, construção dos núcleos e ajuda mútua (SACHS, 1999: p. 154).

Para a Igreja, aquilo que o Chico (Francisco de Oliveira) considerava trabalho não pago era um excelente exemplo de solidariedade, de coesão social e de autoajuda dos mais pobres, devendo ser apoiado com recursos pelo governo, que, aliás, não deveria interferir muito, pois a

20 Sobre o tema ver: SINGER, Paul e BRANT, Vinícius Caldeira (orgs). São Paulo: o Povo em Movimento.

Petrópolis: Editora Vozes/ CEBRAP, 2a.ed., 1981. SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena: experiências, falas e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo, 1970-80. Rio de Janeiro: Paz e

Terra, 1988. GOHN, Maria da Glória. Lutas pela moradia popular em São Paulo. São Paulo: FAUUSP (tese de livre docência), 1987; Movimentos Sociais e a luta pela moradia. São Paulo: Ed. Loyola, 1991; O trabalho

de assessoria dos arquitetos aos movimentos populares. In. Sinopses, n.11, dez. 1998. SCHERER-WARREN

e KRISCHKE, P. Uma revolução no cotidiano? Os novos movimentos sociais na América Latina. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987. SILVA, Ana Amélia. (org). Moradia e cidadania: um debate em movimento. São Paulo: Revista Pólis, n. 20, 1994.

21 Segundo Singer (1981: p. 85), em São Paulo, os movimentos de bairro foram organizados pelas Sociedades

de Amigos do Bairro (SAB), sobretudo na década de 1950, e pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), já a partir da década de 1970, sob ideologias absolutamente distintas, ainda que pautadas pelas carências e urgências presentes nos territórios periféricos. Enquanto os movimentos organizados pelas SABs supuseram que as carências dos bairros periféricos e da população pobre se deviam à negligência dos governos cuja mobilização dos diretamente interessados poderia eventualmente superar, para as CEBs estas carências foram atribuídas à própria organização social capitalista, o que irá colocar em outro patamar as reivindicações locais e mais gerais. O que caracterizou os movimentos de bairro organizados pelas CEBs em contraste com o anterior (SABs), é que ele surge a partir de uma proposta para dentro, de conscientização e autoajuda. A ação para fora, ou seja, as reivindicações feitas ao Poder P’blico, decorreram desta atitude e assumiram caráter de exigência de direitos e não de dádivas a serem obtidas mediante barganha com os representantes do Estado (SINGER, 1981: p. 104-105). Outro ponto de diferença será o que remete à participação popular nas instituições governamentais. No contexto das SABs, Singer menciona pelos menos duas formas de cooptação dos movimentos, quer seja integrando formalmente seus representantes em órgãos públicos, ou se fazendo representar em Conselhos Comunitários que mais se configuraram canais de reivindicação do que espaços de decisão. Para as CEBs, a legitimidade da participação está vinculada diretamente à noção de controle social direto dos recursos e das ações do Estado (Idem: p.106-107).

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própria Igreja, seus agentes pastorais e assessores podiam ajudar a organizar os moradores (BONDUKI, 2006: p. 234).

No plano político, o avanço da democratização levou à criação de novos partidos de base popular e à eleição de governos locais de oposição (PMDB, PDT, PT), que buscavam, na área da habitação, construir propostas alternativas em relação ao processo centralizado, imposto pelo regime militar através do BNH.

A autogestão, incorporada ao mutirão, pareceu, assim, uma alternativa teórica e prática, uma vez que apontava para um horizonte político que poderia superar a alienação do trabalhador em relação ao produto do seu trabalho, tanto do ponto de vista material quanto no que se refere ao projeto e processo de produção, afastando o caráter espoliador, individualista, atrasado e de baixa produtividade do trabalho, característico da autoconstrução individual. Poderiam garantir uma divisão técnica do trabalho, a utilização de sistemas construtivos que aumentassem a produtividade, a compra coletiva no mercado do material de construção e outras vantagens que pudessem fazer a casa, assim edificada, valer seu valor, ou seja, o trabalho socialmente necessário para sua construção (BONDUKI, 2006: p. 236).

No entanto, sobre esse momento de desalienação, Oliveira também alertava:

a autoconstrução tem a aparência de um reencontro entre o trabalhador e o produto, o fruto do seu trabalho, esse é um fetiche que recobre um processo altamente alienante, sendo o contrário da desalienação, pois fecha as classes trabalhadoras num círculo de giz onde atuam como criadores de uma riqueza social, que volta a ser posta a serviço do capital na medida em que a força de trabalho continua a ser uma mercadoria para o capital (OLIVEIRA, 1979: p. 16).

Se, por um lado, as matrizes teóricas que iriam direcionar e dariam substrato à produção de moradias a partir de procedimentos autogestionários, no Brasil, seriam pautadas em experiências externas22 (as formulações teóricas de Turner e a experiência

22Conforme LOPES e RIZEK (2005, P. 54), a região Nordeste parece ter sido influenciada de forma mais efetiva

pelas ideias de Turner (ainda de forma muito incipiente no Projeto Taipa, de Acácio Gil Borsói, em Cajueiro Seco ou mesmo pelo grupo ThABA, com as experiências em tecnologias construtivas no Ceped, em Camaçari, na Bahia, até a presença da agência francesa GRET, em Fortaleza, através da ação de Yves Cabannes), enquanto Sul e Sudeste parecem ter maior lastro na experiência uruguaia (o movimento cooperativista no Rio Grande do Sul, de forma mais genérica; e no caso de São Paulo, principalmente, como resultado da atuação do engenheiro Guilherme Coelho, que, a partir de uma intensa exposição de um filme super-8 das Cooperativas Uruguaias, consegue contaminar o imaginário das periferias e de engenheiros e arquitetos paulistanos no início dos anos 80). No Uruguai, a Lei 13.728/1968 (Ley Nacional de Vivienda), que encaminharia as

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das Cooperativas Uruguaias), por outro lado, o contexto que é criado e que cria as condições para o surgimento de um Movimento de Moradia que demanda tais procedimentos não se assemelha, em absoluto, às condições sociopolíticas que subjazem àquelas formulações (LOPES e RIZEK, 2005: p. 57). Um campo conflituoso vai marcar, assim, essa autogestão à brasileira 23 que, por um lado, cobrará política pública e

disputará os fundos públicos e, de outro, recusará a intervenção do aparelho estatal como agente implementador. Na medida em que a prática se estabeleceu como programa, as disfunções e incompatibilidades se explicitaram:

lá, organização sindical; aqui, movimento popular; lá, um plano e uma lei que regulam a produção autogestionária de moradia em todo o país; aqui, programas que não compõem sequer uma política habitacional local; lá, cooperativas que, juridicamente, permitem o mútuo coletivo, a propriedade comum e sua comercialização regulada; aqui, associações comunitárias que mal e mal mantêm sua condição como agente promotor que apenas atua como mediador temporário entre o agente financeiro e o mutuário final (LOPES e RIZEK, 2005, p. 58).

 de alternativo a oficial: os arranjos institucionais que se desenharam em nível municipal, estadual e federal Buscando responder às pressões econômicas decorrentes de um cenário econômico de crise e contornar os desgastes políticos do período mais duro do regime militar, o governo federal propôs uma revisão da estrutura orientadora das ações do BNH24, redirecionando a aplicação dos recursos para as necessidades habitacionais das

famílias com renda inferior a cinco salários mínimos, o que ocorreria a partir de 1975, com a produção de grandes conjuntos habitacionais populares sob a responsabilidade das COHABs e pelos programas denominados reformistas SAC(S, : p.141-159) ou

alternativos , no âmbito do PLANAHAP (Plano Nacional de Habitação Popular).

recomendações já formuladas no Plan Nacional de Viviendade 1962, acabaria compondo talvez a principal referência para a construção desse imaginário autogestionário de produção de moradias. A experiência uruguaia surgia, naquele momento, com uma carga política muito mais acentuada, principalmente pelo fato de vincular-se, operacionalmente, às organizações sindicais do país.

23 A expressão é utilizada por USINA CTAH (2008).

24 Segundo BOLAFFI (1979), o pedal acelerador para reativar a economia nunca foi o setor da construção civil,

e sim, o setor da indústria de bens de consumo duráveis, em especial a automobilística. Afirma que, se fosse diretriz do governo investir na produção habitacional respondendo a tal propósito, a recuperação econômica seria mais lenta, porém mais duradoura. Segundo o autor, o regime sustentou falsos problemas para garantir os interesses políticos e da hegemonia da classe dominante, sendo o chamado problema da habitação um artifício adotado para enfrentar um problema econômico conjuntural.

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Destinados à produção de lotes urbanizados, à compra de materiais de construção e à assistência técnica, apoiando desta maneira as iniciativas de autoconstrução já existentes, os programas alternativos responderam oportunamente às pressões por maior participação da população nos programas públicos. Para Sachs,

o Profilurb, o Promorar e o João-de-Barro podem ser vistos como tentativas de respostas mais bem orientadas para as necessidades da população. Mas, ao mesmo tempo, revelam o descompromisso do Estado na produção de habitações sociais, insistindo no potencial subempregado da mão-de-obra não qualificada (SACHS, 1999, p. 156).

Assim, em 1975, o BNH lançou o Programa de Financiamento de Lotes Urbanizados (PROFILURB), a fim de estabelecer uma ação preventiva contra o crescimento das favelas, através da produção de tramas saneadas . Em , o programa foi modificado e, além da infraestrutura implantada, seriam financiados também os núcleos hidráulicos da unidade habitacional. Em 1979, foi criado o Programa de

Benzer Belgeler