• Sonuç bulunamadı

A elaboração e a execução de um projeto político se faz por meio das políticas públicas que irão orientar a coordenação de recursos humanos, técnicos e financeiros das estratégias a fim de atender às demandas sociais (SPOSITO; CARRANO,2006). A elaboração de políticas públicas envolve um processo político complexo que muitas vezes estará mais preocupado em satisfazer os interesses econômicos de determinados gupos ou em legitimar bases morais de outros do que propriamente em estabelecer práticas baseada em evidências científicas. Mesmo quando se escolhe uma linha teórica se escolherá a que melhor se encaixa naquele momento político (CONNOR, 2007).

As Diretrizes Nacionais para a Atenção Integral à Saúde de Adolescentes e Jovens na Promoção, Proteção e Recuperação da Saúde foram concebidas a fim de sensibilizar gestores e profissionais da saúde em relação aos cuidados de saúde para essa população (BRASIL, 2010). Esse documento sinaliza que, para o atendimento qualificado, haverá necessidade de uma rede de cuidado com participação de vários atores não só porque, ao considerar o papel dos determinantes sociais nos processos de adoecimento, reconhece-se os limites do campo da saúde mas também porque juridicamente os adolescentes estão sob responsabilidade de uma rede de adultos das mais variadas instituições como a família, a escola e o Estado (LOPEZ; MOREIRA, 2013).

Quanto mais fácil e mais barato for usar álcool, mais cedo e em maior quantidade os adolescentes beberão. Alguns países vem desenvolvendo políticas visando restringir o acesso dos adolescentes ao álcool através do aumento dos preços das bebidas e fiscalizando a venda para essa população. Também a política de tolerância zero para quem dirige embriagado tem se mostrado eficaz para redução de acidentes causados por motoristas embriagados. Essas políticas de base populacional voltadas para restrição do acesso ao álcool e regulamentação das propagandas são as intervenções com maior custo-benefício na

redução dos danos causados pelo álcool. As estratégias educativas serão pouco eficazes sem todas essas outras medidas (WHO,2014; WHO, 2015). Há que se estimular uma cultura de responsabilidade cívica para a efetiva aplicação dessas ações (OLIVEIRA; PAIS, 2010).

Os problemas relacionados com o álcool devem ser encarados como um problema de saúde pública que requerem medidas preventivas nos níveis individual e populacional. Medidas que aumentam os impostos sobre o álcool, restringem o acesso ao álcool e punem quem dirigir embriagado se mostram ser as opções políticas mais eficazes. Os problemas relacionados ao uso problemático de álcool continuam a ser um grande desafio para medicina e saúde pública porque as ações de base populacional têm sido negligenciadas em favor de abordagens individuais que tendem a ser mais paliativas que preventivas (ROOM;

BABOR; REHM, 2005).

As ações terapêuticas e preventivas para adolescentes que fazem uso problemático de álcool podem apresentar pouca efetividade se não forem adaptadas às características cognitivas e sociais dessa população. Programas preventivos seletivos para grupos de maior risco realizados em escolas parecem trazer melhores resultados se comparados a programas preventivos universais (BROWN et al., 2008; GOTTFREDSON; WILSON, 2003). Há poucas evidências científicas sobre a efetividade de programas de prevenção universal para adolescentes que usam álcool, principalmente se apresentarem padrão de

binge (FOXCROFT et al., 2002; ANDERSON; BAUMBERG, 2006).

Os adolescentes constituem grupos heterogêneos quanto ao uso de álcool e por isso precisam de setting diferentes não só em relação às características sociodemográficas mas também quanto aos hábitos e suas expectativas sobre o álcool. Os motivos pelos quais se bebe são responsáveis por uma substancial parte da variabilidade dos padrões de uso de álcool. Dessa forma, os programas preventivos específicos para determinados grupos são mais efetivos (CARPENTER; HASIN, 1998; COX; KLINGER, 1988).

Os profissionais da saúde, assim como os gestores públicos e a sociedade de forma ge- ral são ambivalentes em relação ao uso de álcool (RONZANI; FURTADO,2010;CORRADI- WEBSTER,2009). São tolerantes ao estímulo da mídia e ao uso de álcool pelos adolescentes em casa e nos lugares públicos e se mostram intolerantes ao alcoolista que precisa de cuidado e ao adolescente de ressaca que é trazido pela mãe à unidade de saúde.

Capítulo 3. Caracterização da problemática 49

de escolhas farão parte do cotidiano do trabalho. As práticas de saúde se darão em torno dessa diversidade. Ao considerar a abstinência como a única estratégia possível para aquele indivíduo, se perderá toda uma gama de possibilidades de cuidado. É necessário acolher, sem julgamento, o que aquele usuário demanda e a partir desse encontro traçar caminhos possíveis (SAÚDE,2004).

O modelo dominante na atenção básica ainda é o biomédico, cujo interesse principal é curar doenças. As situações de consumo prejudicial de SPA no seu território pouco interes- sam e quando interessam é para reproduzir o discurso da “Guerra às drogas” (CORDEIRO et al., 2014). Para além de eliminar a doença, se deve buscar o bem-estar relacionado à concepção de qualidade de vida, decorrente da interação do aspectos físicos, psicológicos, socioeconômicos, culturais e políticos (LAURO; LEITE; VARGAS,2014).

No paradigma da promoção da saúde se objetiva a capacitação da comunidade para que possa atuar na melhoria de sua qualidade de vida e saúde. O conceito de promoção da saúde incorpora a importância e a influência das dimensões políticas, culturais e socioeconômicas nas condições de saúde, exigindo então ações intersetoriais. Além das estratégias comuns a serem adotadas, recomenda-se a utilização da participação juvenil como estratégia específica para a promoção da saúde e como forma de garantir os direitos dos adolescentes assegurados no Estatuto da Criança e do Adolescente (VENTURA; JR, 2003; RABELLO,2010). A promoção da saúde não deve estar sob a responsabilidade exclusiva do setor de saúde e sim de uma rede de cuidado organizada em práticas intersetoriais e multidisciplinares, desenvolvidos por meio de parcerias e de corresponsabilidade (LAURO; LEITE; VARGAS,2014).

Os processos de trabalho na Estratégia de Saúde da Família (ESF) se organizam por programas para atenção aos grupos de risco e aos problemas de saúde já instalados. A atenção aos adolescentes fica resumida a ações específicas, focadas nas metas de diminuição da gravidez e das doenças sexualmente transmissíveis. Dessa forma ficam invisíveis os adolescentes com uso problemático de SPA, problema esse com forte presença nos territórios periféricos de atuação da ESF (COELHO,2012; TEIXEIRA; MONTEIRO, 2015).

Como já visto anteriormente as adolescentes e as pré-adolescentes que fazem uso de SPA geralmente enfrentam muitos outros estressores psicossociais e podem não ter a rede de apoio necessária que pode melhorar suas chances de recuperação a longo prazo.

É importante que se olhe essa população com mais atenção e se proponha intervenções específicas que poderão não só melhorar o curso e prognóstico do uso de SPA mas também diminuir a probabilidade de resultados negativos em uma futura prole. É importante também que se avalie a existência de comorbidade psiquiátrica (TAREEN,2015;AMARO et al., 2001).

Como no geral a equipe da ESF conhece seu território é bem importante que as adolescentes que estejam sofrendo ou em risco de serem vítimas de violência física, sexual e psicológica sejam mais cuidadas já que constituem um grupo de alto risco para abuso de SPA. Um programa intersetorial seria necessário a fim de ajudá-las para que aprendam habilidades de enfrentamento, não precisando assim, de SPA para amenizar tal desamparo que foi aprendido em função das situações de abuso que sofreram (TAREEN, 2015; AMARO et al., 2001).

Quando se pretende cuidar na APS de adolescentes que estão enfrentando proble- mas decorrentes do uso de SPA é necessário lembrar que há fatores de risco que não são específicos de um gênero tais como: frágil apoio psicossocial, baixas condições socioeconô- micas, dificuldade de auto-controle, baixo desempenho escolar e ambiente familiar ruim. Mas é necessário conhecer os riscos específicos das meninas tais como: auto-imagem nega- tiva, baixa estima, ansiedade, depressão, tendência a interiorizar stress, imagem corporal negativa e os transtornos alimentares (TAREEN,2015;AMARO et al.,2001).

Os profissionais da saúde e educação precisam estar sensibilizados para as questões relativas às SPA de um modo geral. Os discursos desses profissionais ainda estão impreg- nados de preconceitos, em parte, em função do despreparo para lidar com o tema, mas também como forma de tornar invisível uma situação concreta, complexa e muito próxima de toda a sociedade (SOUZA, 2009).

No geral as unidades de saúde não estão programaticamente organizadas para corresponder às necessidades de saúde dos adolescentes. As especificidades deste segmento da população são peculiares, tanto no modo de procurar como no de utilizar os serviços de saúde (SALOMãO,2007). Como eles estão num processo constante de mudança exigem práticas em saúde integrais e contextualizadas (SILVA et al., 2014; LEITE et al.,2014). As ações educativas em saúde na escola ou nas unidades de saúde deveriam se adequar ao dinamismo inerente dessa população. Espera-se que no século XXI a educação em saúde

Capítulo 3. Caracterização da problemática 51

seja cada vez menos pautada no modelo biomédico, estruturado a partir de recomendações normativas, de controle e eliminação de enfermidades (LAURO; LEITE; VARGAS,2014).

É importante que os profissionais da saúde possam desconstruir a ideia de que os adolescentes são mal-educados, sem limites e irresponsáveis. Somente uma postura menos aversiva, nada autoritária e aberta ao diálogo poderá trazer os adolescentes para os serviços de saúde (LIMA et al., 2013; FERRARI; THOMSON; MELCHIOR, 2008). Esse serviços devem proporcionar ao adolescente um ambiente confiável e acolhedor para que possa falar de sua vida, seus planos, medos e desejos, fazendo-o se sentir protagonista e corresponsável do seu cuidado. A proximidade com o serviço é um importante fator protetivo pois qualquer risco poderá ser percebido precocemente (FERRARI; THOMSON; MELCHIOR, 2008; LIMA et al., 2013; VIEIRA et al., 2011; CAVALCANTE; ALVES;

BARROSO, 2008).

As atividades educativas em saúde devem se focar nas necessidades expressas pelos adolescentes e realizadas numa linguagem adequada (LEITE et al.,2014; BRASIL,2006). Em se tratando de ações preventivas há que se cuidar para que o discurso profissional seja o mais abrangente e honesto, não se focando por exemplo, nos problemas causados pela SPA sem que os efeitos prazerosos sejam abordados (TEIXEIRA; MONTEIRO, 2015). As tecnologias leves em saúde, como rodas de conversa e escuta acolhedora qualificada se mostram muito adequadas para os adolescentes (LEITE et al.,2014).

Benzer Belgeler