1.2.1. Hocaları
1.2.1.1. Seyda Molla Muhyeddin-i Havêlî
Desde o final do século 19, as pesquisas de Gilbert (1877), Davis (1899), Penck (1953) e King (1953) estabeleceram modelos conceituais dos sistemas de paisagem que definiram novas orientações às investigações geomorfológicas, e influenciam, inclusive, ainda hoje. A revisão destes conceitos pode auxiliar, mesmo que indiretamente, no reconhecimento de padrões de equilíbrio entre a esculturação fluvial e a influência de fatores internos e externos como litologia, tectônica e clima, como se segue.
Nesta perspectiva o Ciclo Geográfico (Geographical Cycle) de Davis (1899) é um exemplo clássico de modelo conceitual em Geomorfologia (TUCKER, 2004), na qual foram providas informações para uma série de relevos observados e construídas predições evolutivas. Para Davis (1899), o conceito de evolução da paisagem implica num processo irreversível de mudanças contínuas e inevitáveis em uma sequência ordenada de transformações, onde as formas mais recentes poderiam ser consideradas estágios em uma progressão levada até as formas mais antigas.
Dentro deste modelo, a passagem do tempo imprimiria mudanças na geometria da paisagem em que poderia ser inferida a passagem do tempo, com segurança, da mesma forma que as relações geométricas de um relógio (CHORLEY et al., 1984). No primeiro estágio, ou juventude (youth), um rápido soerguimento da litosfera produz uma região com divisores de drenagem mal definidos e separados por uma rede fluvial com poucos rios de expressão, mas com numerosos pequenos canais em forte erosão regressiva (Fig. 1.5 - B).
A erosão em direção às bacias de cabeceira, associada à incisão vertical de toda a rede de drenagem, aumenta rapidamente a variação altimétrica (relief) e durante toda a juventude produz vales em forma de V (Fig. 1.5 - C). Ao final do estágio de juventude, os rios principais já estão equilibrados (graded) e, como evidência, eles possuem curvas suaves e pequenas planícies de inundação nas porções mais a jusante (DAVIS, 1899).
Segundo Davis (1899), as mudanças observadas no desenvolvimento dos divisores guardam relação intrínseca com o desenvolvimento da rede de drenagem, e em especial das cabeceiras, sem o qual a evolução e redução dos interflúvios ocorre de maneira muito mais lenta:
“As partes mais altas do interflúvio, onde somente age o clima, sem a concentração de água em rios, desgastam-se muito mais lentamente. [...] Assim, a diferença altimétrica (relief) fica maior durante essas fases e [...] os rios principais aprofundam
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muito mais lentamente durante o resto de suas vidas. [...] No período subseqüente ocorre o “mais rápido desgaste das terras altas. No entanto, [...] as mudanças a partir dessa fase ocorrem muito mais lentamente que aquelas do primeiro período (DAVIS, 1899, p.486).”
Figura 1.5: O Ciclo Geográfico Ideal de Davis (1899) e seus estágios. Legenda: (A) No estágio inicial, o relevo é pouco expressivo e a drenagem insuficiente; (B) No início da Juventude, os vales são estreitos, as terras altas são planas e largas; (C) No final da Juventude, as vertentes do vale são predominantes mas alguns canais interiores permanecem nas terras altas; (D) Na Maturidade, a região consiste de vertentes e divisores estreitos; (E) No final da maturidade, o relevo é vencido e os fundos de vale se ampliam; (F) Na Senilidade, um peneplano cm monadnocks é formado; (G) Um soerguimento regionaç retoma o rejuvenescimento, ou um segundo ciclo de denudação, mostra ter atingido a maturidade Adaptado de Strahler (1965).
No início do estágio subseqüente, de maturidade (maturity), o relevo alcança sua diferença altimétrica máxima (maximum relief) e a rede de drenagem interrompe o seu crescimento, apresentando-se bastante integrada. Com o passar do tempo, as condições de equilíbrio (graded) atingem progressivamente os rios tributários. No meio do estágio de maturidade (Fig. 1.5 - D), os divisores estão estreitados, os rios principais são meandrantes com planícies significativas. Os fundos de vale são rebaixados de forma lenta, ao mesmo
36 tempo em que, o rápido rebaixamento das superfícies cimeiras e dos topos, proporciona a diminuição progressiva do desnível do relevo no final desse estágio (Fig. 1.5 - E).
No último estágio do desenvolvimento seqüencial do Ciclo Geográfico, na senilidade (old age), as vertentes e cristas dos divisores estão equilibradas (graded), assim como a paisagem apresenta rios com vales de inclinação suave com largas planícies. Muitas vezes, os vales fluviais possuem amplos cordões de meandramento sobrepostos por divisores arredondados, em processo de ligeiro rebaixamento (Fig. 1.5 - F). Finalmente, outro soerguimento pode causar a redissecação do peneplano e exibir um conjunto de formas de relevo nas quais diferentes estágios superimpostos uns aos outros (Fig. 1.5 - E).
Ressalta-se que muitas das ideias contidas no modelo conceitual de Davis (1899) foram amalgamadas a partir de concepções de seu predecessor, Gilbert (1877), vinte e dois anos antes. Com efeito, a ideia mais influente de Gilbert (1877) é a concepção de equilíbrio (graded), que é atingida quando o a carga sedimentar se iguala à capacidade de transporte e o rebaixamento fluvial cessa. Consequentemente, a erosão lateral torna-se relativamente mais importante, o que resulta numa paisagem aplanada que corta todas as estruturas geológicas. Estas conclusões foram essenciais ao desenvolvimento da teoria davisiana sem, no entanto, jamais terem sido aplicadas por Gilbert (TINKLER, 1985).
Os demais conceitos de grande importância nos estudos pioneiros de Gilbert (1877) referem-se à lei dos divisores, da declividade e da estrutura. Sobre isso, o mencionado pesquisador afirma que:
“É igualmente verdade que qualquer rio onde há fornecimento integral de carga e tenha atingido uma condição de igual ação [em todos os seus trechos], a declividade dos canais menores será maior em relação aos mais volumosos. [...] Assim, a declividade expressa uma relação inversa se comparada à quantidade de água. Da mesma forma, […] a distribuição dos divisores depende, em parte, da dureza ou fragilidade da rocha [...] sendo mais declivosos onde as rochas são mais duras (GILBERT, 1877, p. 114 e 115).”
Associado a essas características, Gilbert (1877) menciona que, pelo fato dos divisores serem mais altos que as superfícies que os envolvem, a sua degradação é menos intensa pelo fato de não receberem as concentrações hídricas que se dirigem para as partes mais rebaixadas, o que tenderá a mantê-lo sobrelevado. Afirma também, que em consequência das mudanças dos cursos fluviais por aplanamento, aluvionamento e captura (abstraction), há mudanças abruptas nos divisores de drenagem.
Por outro lado, o desenvolvimento dos divisores sobre rochas de diferentes resistências suavemente inclinadas (monoclinais) dá-se através da mudança regressiva e gradativa de suas posições (recuo) por meio de processos degradacionais, mantendo-se a inclinação da estrutura
37 original. Nesta mesma linha conceitual, de desenvolvimento gradual dos divisores, Gilbert (1877) demonstra que a taxa de erosão em vertentes com o mesmo aporte hídrico e mesmo material (substrato) será dependente de suas declividades iniciais. Com efeito, se essas duas vertentes estiverem em lados opostos, e separadas pelo mesmo divisor, aquela que possuir maior declividade será degrada mais rapidamente e, consequentemente, se moverá em direção àquela mais suave, cessando o processo apenas quando houver uma simetria geral e/ou captura de drenagem (abstraction) (GILBERT, 1877).
Em meados da década de 1950, Lester Charles King estruturou seu modelo conceitual de evolução do modelado terrestre baseado nos conceitos de pediplanação e pedimentação (TWIDALE, 1992). Entretanto, assim como Davis (1899) e Gilbert (1877), a teoria de King possui fundamentos associados à morfogênese das porções iniciais dos canais fluviais e dos divisores de drenagem, mas com abordagens diferentes. Consequentemente, muitos geomorfológos contrastam os modelos de Davis (1877) e King (1953), postulando que os peneplanos são fomados primordialmente pelo rebaixamento vertical das vertentes (downwearing), com conseqüente redução da diferença altimétrica do relevo (relief), enquanto os pediplanos formam-se por retração lateral das vertentes (backwearing) mantendo as diferenças altimétricas (relief) relativamente elevadas (Fig. 1.6 e 1.7) até o estágio final de desenvolvimento (MIGÓN, 2004). Ademais, conforme Twidale (1992), convém ressaltar que esse modelo de retração de escarpas e vertentes de King (1953) não é original, tendo sido cunhado e aplicado anteriormente por Penck (1953).
Entretanto, King (1953) explica ainda dois modos possíveis de compreensão do desenvolvimento de vertentes. Ele discute veementemente que a retração de escarpas é prevalente, no entanto assevera que o rebaixamento (downwearing) é possível em terrenos de rochas frágeis e áreas cobertas por vegetação rasteira. Além disso, áreas com baixo gradiente altimétrico (relief) e presença de rochas frágeis, são reduzidas com concomitante achatamento dos interflúvios até o momento em que as vertentes atingem uma declividade estável e inicia- se o processo de retração lateral.
No que concerne às cabeceiras de drenagem, King associa o fenômeno de recuo lateral (backwearing) das vertentes à dinâmica do fluxo hídrico turbulento, como manifestado em voçorocamentos. Especialmente em King (1942) é mencionado o intemperismo, o movimento de detritos por gravidade, o escoamento difuso (sheet wash) e a retração de cabeças de voçorocas (gully heads), dos inúmeros córregos e ravinas como os processos responsáveis pela retração das encostas. King (1942) postula também que as cabeceiras de voçorocas (gully
38 heads) são os agentes mais importantes no desgaste e na retração lateral dos elementos da vertente.
Figura 1.6: Modelo de retração paralela (backwearing) de vertente segundo King. Destaque para o topo achatado e manutenção das declividades. Adaptado de Twidale (1992).
Figura 1.7: Elementos componentes de uma vertente segundo King (1942). A saber: A= cristas (crest) ;B= Face da escarpa (scarpface); C= vertente de detritos (debris slope); D= pedimento; a= tálus e b= solo. Adaptado de Twidale (1992).
Por fim, torna-se fundamental considerar que embora muitas das idéias propugnadas por Davis (1899), King (1953) e outros, não tenham sido corroboradas com o passar do tempo, a criação e o progressivo refinamento de modelos conceituais permanecem como partes fundamentais da Geomorfologia, sendo utilizados ainda hoje (BROWN, 1996).
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