REVISITADOS
Os geólogos tiveram o seu peneplano; os ecologistas visualizaram um clímax auto- perpetuável; os pedólogos propuseram um perfil de solo completamente maduro, que eventualmente perderia todos os traços de sua origem geológica e se tornaria uma espécie de organismo auto-equilibrado. Parece que todo Darwinismo social, e todos os modelos construídos pelos economistas do século dezenove, foram também baseados em um lento desenvolvimento em direção a algum tipo de equilíbrio social. Eu acredito que há uma evidência em todos estes campos de que os sistemas são abertos, não fechados, e que provavelmente não exista uma tendência consistente em direção a um equilíbrio. Ao contrário, no presente estado de nosso conhecimento e habilidade racional, devemos pensar em termos de uma massiva incerteza, flexibilidade e ajustamento.
Hugh M. Raup (1964) __________________
Este capítulo discute, de maneira conjunta, os resultados oriundos dos capítulos precedentes. Em um primeiro momento, aborda as conexões existentes entre os vales fluviais e as bacias de cabeceira, suas potencialidades e limitações. Posteriormente, apresenta as concordâncias geomorfológicas entre estes elementos. Na última parte são feitas algumas reflexões sobre as teorias do equilíbrio geomorfológico e a característica de instabilidade inerente à bacia do Ribeirão Mata Porcos.
7.1.1. Os agregados que compõem a cobertura pedológica são iguais aos dos depósitos fluviais?
A bacia hidrográfica, segundo vários pesquisadores, pode ser compreendida, em termos relativos, como uma espécie de bacia sedimentar do Quaternário, sobretudo do Holoceno, pelo fato de ser o lócus dos registros fluviais de eventos morfogenéticos relevantes, tornando possível a tarefa de reconstrução paleoambiental (MEIS e MOURA, 1979; THOMAS, 1994; TUNDISI e MATSUMURA, 1995). Entretanto a literatura esclarece que as características dos depósitos aluviais dos vales principais são, de uma forma geral, consideravelmente distintas das coberturas pedológicas de suas áreas-fonte, compostas essencialmente por bacias de cabeceira (BENDA e DUNNE, 1987; MONTGOMERY e FOUFOULA-GEORGIOU, 1993).
173 No caso da bacia hidrográfica do Ribeirão Mata Porcos, os registros deposicionais fluviais demonstram um predomínio muito superior das frações mais grossas – cascalho e areia grossa – em comparação ao percentual originalmente encontrado nas vertentes. Segundo Benda e Dunne (1997), Gregory et al. (1991) e Schumm (1977), a própria dinâmica hidrossedimentológica promove o selecionamento destes materiais, permitindo, por um lado, a deposição ocasional das frações areia e cascalho em barras de pontal e leitos, e, por outro, a deposição de finos em planícies por meio de inundações.
A restrição ao transbordamento fluvial gerado pelo confinamento das vertentes do vale, somado à alta energia dos cursos d’água, reduz consideravelmente os eventos de sedimentação mais fina, típicos de planícies de inundação (PICKUP, 1991; MARRIOTTI, 1996). Tal situação justificaria, ao menos em parte, o grau de seleção predominantemente grosso no caso investigado, e, explicaria, também em termos relativos, a redução proporcional de frações mais argilosas nos registros, haja vista que a deposição de material coloidal acontece em estado próximo à decantação (MARRIOTT, 2004; NANSON e CROKE, 1992), o que só ocorreria na existência de ambientes deposicionais mais aplanados, como, por exemplo, no Complexo do Bação, ou até mesmo em porções mais distais do Rio das Velhas (BARROS, 2012; MAGALHÃES JUNIOR, 2011).
Por outro lado, a presença expressiva de determinados minerais, como o quartzo, em detrimento de outros mais abundantes nas coberturas, como muscovita e caulinita, complementa as observações granulométricas feitas anteriormente. Este fato levanta a hipótese, usualmente aventada, da maior resistência dos tectossilicatos – como o quartzo – em detrimento de outros aluminossilicatos (TAN, 2011; CONKLIN JR., 2014) e sua subsequente preservação nos registros sedimentares ao longo do tempo, aumentando, assim, o percentual relativo destes minerais (MIALL, 1985; 2006).
Contudo, a despeito da seleção dos materiais, a comparação entre os aspectos mineralógicos dos depósitos fluviais e das coberturas pedológicas lança nova luz sobre as conexões existentes entre estes elementos.
A predominância de sílica, óxidos de ferro, caulinita e muscovita nos depósitos fluviais reflete a composição química da cobertura pedológica de todas as bacias pesquisadas, caracterizando-as como as principais fornecedoras de sedimentos. Neste sentido, uma das hipóteses condutoras deste trabalho, sobre a existência de possíveis conexões sedimentológicas entre os vales fluviais principais e as bacias de cabeceira do seu entorno, é confirmada.
174 Apesar da ocorrência de minerais existentes em todas as bacias de cabeceira, verifica- se a preponderância da mineralogia das coberturas dos filitos hematíticos na maioria dos registros sedimentares encontrados. Desta forma, as coberturas pedológicas desenvolvidas a partir desta rocha corresponderiam às áreas-fonte mais significativas, confirmando, uma série de estudos que demonstram a maior erodibilidade deste material de origem e seus compostos no Sinclinal Moeda (SALGADO et al., 2006; SALGADO et al., 2007; VARAJÃO et al., 2009). Isto reafirma, indiretamente, a preservação das litologias mais resistentes, localizadas nas abas leste e oeste do megassinclinal, de forma oposta ao rebaixamento da porção central, composta predominantemente por filitos, mais tenros aos processos denudacionais.
Em síntese: é factível afirmar que os registros deposicionais fluviais sejam compostos, essencialmente, por (i) materiais advindos das bacias de cabeceira à qual se encontram interligados, sem, contudo, (ii) manter o mesmo padrão granulométrico e mineralógico daquelas, em função da seleção por processos fluviais e geoquímicos comuns à hidrossedimentologia.
7.1.2. Concordâncias geomorfológicas referentes à instabilidade e estados transitórios
Além das características sedimentológicas, os elementos (CHRISTOFOLETTI, 1999), sistemas (VIANELLO et al., 2009; NICKOLOTSKY e PAVLOWSKY, 2007), ou objetos de estudos utilizados nesta pesquisa, apresentaram em sua quase totalidade características morfológicas relacionáveis. Vertentes declivosas, terraços escalonados, evidências de rearranjo da drenagem, capturas fluviais, dissecação de cabeceiras de drenagem e frentes de alteração geoquímica remontante são aspectos que denotam ajustes dinâmicos das variáveis que compõem os sistemas geomorfológicos investigados.
Causas externas, também denominadas variáveis extrínsecas (SCHUMM, 1977; 1981), como as influências tectônico-estruturais e a captura do Ribeirão Mata Porcos pelo Rio das Velhas, parecem ter fomentado ao longo do Quaternário uma série de respostas morfológicas a estas perturbações. Estas respostas apresentam duas características: uma geral, de desequilíbrio, e outra, variável, referente à busca por novas condições de equilíbrio.
Esta dicotomia, desequilíbrio-equilíbrio, inerente aos sistemas que compõem o Ribeirão Mata Porcos, denotam primordialmente a existência de um estado geomorfológico transitório, de ajustamento, onde as diversas escalas componentes se modificam em função de
175 outros sistemas vizinhos em que há troca de matéria – água, minerais e compostos solúveis – e energia – gravitacional e cinética.
Assim, as mudanças no nível de base do Ribeirão Mata Porcos, por exemplo, acarretariam o encaixamento dos cursos fluviais de hierarquia mais elevada, seguido pela continuidade remontante deste processo. Com efeito, não apenas os vales se modificaram, mas também as vertentes e as coberturas pedológicas drenadas por canais de hierarquia inferior, componentes das bacias de cabeceira. Efetivava-se um complexo de formas, processos e depósitos que atuariam desde a escala de bacia até a escala de vertente, do Pleistoceno ao Holoceno, confirmando, assim, outra hipótese aventada no início desta pesquisa: a conexão geomorfológica entre bacias de cabeceira e vales principais na elaboração do relevo.
7.3. Estado de equilíbrio ou múltiplos estados de equilibro?
Se os sistemas geomorfológicos se ajustassem de forma determinística, qualquer modificação em uma das variáveis externas – como o clima, a tectônica ou capturas – geraria sempre as mesmas respostas em qualquer ambiente, em qualquer lugar do mundo (RENWICK, 1992; KENNEDY, 1992). No entanto, a situação real envolve um alto grau de aleatoriedade e não-linearidade dos processos, assim como foi possível constatar na relação entre bacias de cabeceira e vales principais no Ribeirão Mata Porcos.
O processo de dissecação, ou “rejuvenescimento” do relevo (DAVIS, 1899), não implicou numa relação linear de predomínio da morfogênese em detrimento da pedogênese, ou “rejuvenescimento”, da cobertura pedológica na escala de vertente, muito embora as coberturas sejam pouco desenvolvidas em sua maioria. Pelo contrário, a dissecação parece ter permitido o desencadeamento de condições hidroquímicas, que geraram uma frente de transformação geoquímica das coberturas, demonstrando o caráter não-linear e, portanto, não determinístico dos sistemas envolvidos. Dito de outro modo, as respostas de determinados componentes do sistema geomorfológico às perturbações externas – como, por exemplo, o encaixamento do sistema fluvial – ocasionou um tipo de resposta no nível freático, que por sua vez se comportou de forma diferenciada em função de outras condições iniciais – como a litologia e a cobertura pedológica anterior –, gerando, por fim, múltiplas morfologias de resposta a um mesmo pulso inicial.
176 Feitas estas considerações, e tendo em mente a tradição marcante das teorias que postulam a existência de uma busca única por equilíbrio, e de forma irreversível – como colocaram Davis (1899), Penck (1953), e King (1956) – é importante retomar a pergunta- título deste tópico, levantada no início da década de 1990 por Phillips (1992): Há uma tendência a um estado de equilíbrio ou a múltiplos estados de equilibro?
Com base nos casos analisados, a resposta, por mais inconclusiva que se pareça, é a de que ambas ocorrem conjuntamente. Ao mesmo tempo em que há uma tendência ao estado de equilíbrio de uma forma geral – jamais atingida no Ribeirão Mata Porcos e em nenhum outro sistema geomorfológico de meso-escala no mundo (PHILLIPS, 2006; HOOKE, 2007) – há, igualmente, diversos estados de equilíbrio apropriados às escalas e componentes do sistema. Assim, embora haja uma perceptível tendência de aproximação de um estado de equilíbrio – verificado pelo aprofundamento das coberturas, diminuição da dissecação e da granulometria dos terraços fluviais na escala da bacia hidrográfica –, cada bacia de cabeceira está conduzida, e conduzindo, seu próprio estado de equilíbrio, sustentando a hipótese, atualmente em voga, de tendências a múltiplos estados de equilíbrio (HUGGETT, 2007a; KENNEDY, 1992).
Finalmente, duas importantes reflexões podem ser estabelecidas.
Uma, segundo o qual as condições de equilíbrio só ocorrem em determinadas escalas componentes do sistema, como, por exemplo, na escala microscópica ou, no máximo, na escala de vertente (RHOADS, 1992; SCHEIDEGGER, 1992), como ocorrem em alguns latossolos (PHILLIPS, 2005).
E, a segunda, de abrangência mais significativa para o caso em questão, postula que as bacias de cabeceira, os vales fluviais principais e as suas variáveis componentes ao se modificarem de forma distintas dão origem, quase sempre, a relevos poligenéticos (HUGGETT, 2007a; CHURCH, 1996).
Como consequência, a partir destas premissas teóricas e os dados empíricos estabelecidos neste trabalho, é coerente afirmar que se há uma gênese conjunta entre eles o elementos componentes do Ribeirão Mata Porcos, esta se processou de forma variada no tempo (ao longo do Quaternário) e no espaço (morfolgicamente entre vales e cabeceiras), caracterizando, assim, uma evolução geomorfológica eminentemente poligenética.
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