LASTRO DA MEMÓRIA
―
A verdade sabe contar.‖
(provérbio da Guiné-Bissau)
Contar é ritualizar. É dar voz ao ancestral. É abrir o corpo para o sagrado. É compactuar com a visão mágica. Palavra lapidada na boca do velho griô é palavra fulgurante. Jóia de mil brilhos. Pedra multifacetada. Ele tem muitos corpos: feiticeiro, bicho, caçador, sacerdote, rei, bruxo, chefe, guerreiro. O mundo começa na sua palavra. Dançar o céu, o mar, o rio, a nuvem, a sombra. Cantar os velhos ensinamentos. Narrar a natureza, o clã, a aldeia, os símbolos, a floresta, a savana, o deserto. Seu itinerário é reforçar laços. Ordenar o mundo. Perfumar a memória. Virar história.
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Talvez uma bênção recaia sobre quem empresta seus ouvidos a um contador tradicional de histórias africanas. E quem conta de alguma forma abençoa seus ouvintes. Asperge sobre a audiência essa gotícula do mar sem fim das histórias.
O contador africano tem, certamente, uma ligação forte com a água. As águas dos mares, as águas dos rios, as águas das chuvas. A ação do contador tradicional é como a água do rio, farfalhando sua correnteza; é como a água do mar, obedecendo ao desígnio das marés; é como a água das chuvas, purificando quem a recebe. Como uma concha mágica, que se leva ao ouvido, nossa história poderia começar com a expressão ―Kwesukesukela...‖, que quer dizer ―era uma vez, há muito tempo...‖, dita pela voz do contador tradicional, no que a plateia responderia ―cosi, cosi...‖, que significa, entre os povos da África do Sul, ―estamos prontos para ouvir‖. Um jogo de interações, um jogo- ritual. Os papéis estão estabelecidos, as divisões estão delineadas: quem conta e quem ouve. Contar história será sempre esse jogo de aproximações, esse ritual que ao mesmo tempo é culto e festividade.
Os griôs, os condutores do rito do ouvir, ver, imaginar e participar, são os artesãos da palavra. São os que trabalham a palavra, burilam, dão forma, possuem essa especialidade de transformar a palavra em objeto artístico. Há registros da atuação desses artistas desde o século XIV, onde já atuavam no Império Mali4. São eles os mantenedores da tradição oral africana, nos últimos setecentos anos, sem dúvida. De fato, a arte verbal dos griôs é tão antiga quanto a mais antiga das cidades da África Ocidental5 e as pesquisas arqueológicas podem nos fazer crer que tal arte já era mesmo praticada, na África, antes de Cristo.
4 Segundo a introdução de Thomas A. Hale, no livro Griots and griottes (2007, p. 1). O autor vem pesquisando o assunto desde 1964. Além de entrevistas in loco e ver atuar mais de cem griôs, na Nigéria, Mali, Senegal e Gâmbia, ou na Europa ou na América do Norte, seu trabalho é complementado com pesquisas em arquivos e bibliotecas europeias e norte-americanas. Também vale-se de contatos com viajantes, exploradores e administradores coloniais, bem como das mais recentes pesquisas de antropólogos e historiadores.
5 A África Ocidental é uma região no oeste da África que inclui os países da costa oriental do Oceano Atlântico e alguns que partilham a parte ocidental do deserto do Saara. Os países que são normalmente considerados parte da África Ocidental são: Benin, Burkina Faso, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Libéria, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo. Os países insulares dessa região e alguns do Golfo da Guiné, normalmente considerados parte da África Central, são, para alguns efeitos, incluídos nessa subregião: Camarões, Cabo Verde, Chade, República do Congo, Guiné Equatorial, Gabão e São Tomé e Príncipe.
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Uma das coisas mais marcantes da atuação de um griô é a possibilidade de reconstruir o passado.
Embora o uso da palavra griô tenha se generalizado nas últimas duas décadas e sirva para designar, em vários campos artísticos, o sujeito que pratica uma arte que tem herança africana, está ligada à tradição oral, funciona como ―peça‖ de resistência, tem o intuito de preservar e disseminar uma herança cultural e ainda quer promover uma tomada de consciência da cultura negra6. Na África, no entanto, a palavra tem significado diferente, muito mais restrito, do ponto de vista da legitimidade: o verdadeiro griô nasce numa família de griôs e aprende desde pequeno a ser um griô.
Uma definição rápida para o termo certamente diz que os griôs são uma espécie de historiador africano ou um contador de histórias de vilarejo7. É esta, sem dúvida, uma definição parcial. Talvez mesmo injusta. Um verdadeiro griô é muito mais que isso!
É curioso notar que a maior parte das pesquisas sobre a atuação dos griôs aparece na França, notadamente porque é na África Ocidental, mais especificamente nas regiões de colonização francesa, que vivem esses artistas performáticos.
A origem do termo griô já carrega em si uma série de controvérsias. Hale, um dos grandes estudiosos do assunto, diz que ―para alguns africanos ocidentais, a palavra griô é um insulto e afirmam que não se deveria usá-la, porque ela sequer aparece em uma série de línguas africanas; já para muitos afro-americanos, griô remete para uma inestimável e poderosa ligação simbólica com suas tradições culturais‖ (HALE, 2007, p. 8).
São muitas as teorias para explicar a origem do termo griô. A mais frequente é a que associa griô à palavra francesa guiriot, que lhe é anterior. Seu uso aparece pela primeira vez por volta de 1637. Outras possibilidades são as que derivam a palavra griô, de outros termos, como guewel (de origem wolof), gawlo (fulbe), jeli ou jali (mande), criado, grito ou gritalhão (portuguesa), djidiu (termo creole para judeu), guirigay
6 Especialmente nos Estados Unidos há uma proliferação de associações, clubes, bibliotecas, entidades, promotoras de estudos de literatura africana e literatura afro-americana que se autodenominam griots. Essas entidades também se espalham, atualmente, pelo Canadá, Martinica, Mali, Senegal, Paris etc. No mercado editorial, o termo é usado para designar produções textuais e visuais ligadas à diáspora africana e até para publicação de material de ensino de língua estrangeira, fazendo uso de textos sobre a África. Também são incontáveis os livros que usam em seus títulos a palavra griot para sinalizar livros sobre a África ou relacionados a ela de alguma forma.
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(espanhola), guirigaray (catalã), iggio ou egeum (berber e hassaniya arabic), qawal ou
guewel (arábica).8
De acordo com Hale (2007, p. 10) é interessante saber que em wolof, língua falada no Senegal e na Gâmbia, os griôs são chamados de gewel ou guewel e fazem parte do grupo de artesãos conhecidos pelo termo geral nyeenyo. Na língua mandinka do grupo mande do oeste, na região da Senegâmbia, o termo usado é jali9, sendo jalimuso para as mulheres e jalike para os homens. Nas línguas bamana e maninka do Mande central, a palavra para designar os griôs é jeli, e o plural é jeliw. As mulheres são
jelimuso e jelimusow. O mestre cantor, homem ou mulher, é conhecido como nara ou ngara. Na língua khassonké, do grupo da fronteira oeste do Mali, laada-jalolu são os
griôs provenientes de uma família de griôs; naa são os novos griôs ou os griôs itinerantes. O chefe griô é chamado de jali-kuntigo ou jalikuntio. Na língua soninké, do oeste do Mali, Mauritânia do Sul são conhecidos como geseré (plural geserun), por vezes também gessere. Outro termo usado aí é dyare ou jaare. Na língua songhay, dos povos do oeste do Níger e do leste do Mali, os griôs são chamados de jeseré (plural
jeserey). Os mestres-griôs são chamados de jeseré-dunka e seus descendentes, de timmé.
Na língua bariba, do norte do Benin, são chamados de gesere; o chefe-griô, de gesere-
bà. Na língua fulbe, dispersa no oeste africano, de Senegal a Camarão, são chamados de
gawlo, mabo, farba (mestre-griot), com outras variações ao longo dessa região. Na língua moor, da Mauritânia, os griôs são chamados de iggiw ou iggio (plural iggawen); as mulheres são as tiggiwit (plural tiggawaten). Na língua mossi, de Burkina Faso, são os bendere e bendere naba para o chefe-griô. Na língua dogon, no leste do Mali, o griô é chamado de genene. Entre os hauça, do norte da Nigéria, oeste do Níger, são marok’a e marok’i (masculino singular) e marok’iya (feminino singular). Para os dagbamba, ao
norte de Gana, os griôs são chamados de lunsi, os tocadores de tambores que exercem a função dos griôs. Entre os tuareg, do norte do Mali e Níger, sul da Algéria, os griôs são
8 Hale é da opinião de que o termo griô advém do antigo Império de Gana, via tráfico de escravos berber para a Espanha e depois para a França, que teria feito o seguinte trajeto: Ghana-agenaou-guineo-guiriot- griot. Os escravos de Gana, importados para Marrakesh, no século 1, passavam para a Espanha, através de um local chamado Bab Agenaou (conhecido como Portão do Povo de Gana). Na Espanha eram chamados de guineos. Quando os navios franceses, seguindo a rota dos espanhóis e portugueses, chegavam na costa do Senegal e entravam em contato com os músicos e cantadores locais, ouviam dizer que eram ―justamente um grupo de guineos‖. A expressão se simplificou em guiriots e, mais tarde, em griots. Todo esse trajeto de ―fixação‖ do termo vai do século XI ao século XVII.
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chamados de enad (inadan é o singular), que são os ferreiros que desempenham a função de griô.
Essa profusão de nomes, regiões e povos chega a ser estonteante! O que vemos, em geral é que, mudando a língua, ou o grupo ou a região, os termos para designarem esses artistas da palavra e da tradição mudam também. Fica aqui o registro!
Para nós, bastaria saber que a vasta região do Mande figura como o foco central dos griôs e inclui o Senegal, a Gâmbia e o sul do Mali, estendendo-se para o norte até a Mauritânia, o norte do Mali central e Níger central. Inclui as fronteiras do sul, estendendo-se para a Guiné, o norte de Serra Leoa, o norte de Gana, o norte de Benin e o norte da Nigéria. Mas há também áreas de povos que não possuem griôs (os diola, do sul do Senegal) e sociedades que mantêm uma longa tradição hereditária e profissional de ferreiros que exercem a função de griôs. Embora se possa encontrar griôs em pequenas regiões ao longo da costa sul do oeste da África, os griôs dessa banda interior, que se estende do Senegal ao Lago Chad, dividem uma tradição comum de função social e de arte verbal que os distingue dos griôs mais ao sul. É na região do Mande, na parte oeste da África, que se concentra a região mais rica da tradição verbal e musical dos griôs, ligando o coração do Império Mali no norte da Guiné e sudoeste do Mali. Provavelmente a tradição griô que se conhece hoje seja resultante da dinâmica de difusão do Império Mali, durante a Idade Média europeia, e tenha vindo dessa região, espalhando-se pela Senegâmbia muitos séculos atrás. As maiores marcas dessa região são tocar o kora (um dos mais complexos instrumentos utilizados pelos griôs) e cantar as longas narrativas que celebram o passado, nessa região sul do Mali, norte da Guiné, Senegal, Gâmbia e Guiné-Bissau10.
A relativa uniformidade na atuação dos griôs no oeste e as diferenças acentuadas no leste pode ter resultado não apenas do domínio do Império Mali, mas do fato de a região ter sido o centro da civilização saeliana da Idade Média. Elementos do Império de Gana migraram do sudoeste para esta e outras regiões, carregando com eles uma rica herança cultural (Hale, 2007, p. 14). O Mali também recebeu influência songhay do leste, por vários séculos. E, depois, o rio Níger serviu como um condutor cultural em
10 Quando se caminha para o leste e para o norte a coisa muda de figura. Há regiões do Mali, em que as longas narrativas épicas não são praticadas. Há regiões no oeste do Níger em que os griôs não tocam o kora e as longas narrativas se transformam em narrativas mais curtas. Mais para o leste, os griôs hausá (marok‘a) cantam louvações, poemas e canções. Essas cortes musicais se pulverizam na medida em que nos aproximamos do século XX. Por outro lado, aumenta a participação de mulheres cantoras nesta atividade tradicional.
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ambas as direções. Os fulbe também expandiram essas duas áreas de influências, com as migrações ocorridas, durante séculos, em direção ao leste, trazendo de volta para Gana e circunvizinhos uma herança cultural e absorvendo outras influências ao longo do caminho. Essa relativa unidade de uma profissão ancorada na arte verbal, servida por famílias nobres, e por relações simbióticas da palavra com a música, é característica comum dos griôs que se expandiram por essa vasta região.
De qualquer modo, alguns pesquisadores são contra o uso da palavra griô, por acreditarem que ela não faz justiça à grande variedade e à antiguidade profissional11 desses artistas da palavra. No entanto, também há uma visão negativa dessa classe chamada griôs e algumas tentativas de diminuir sua credibilidade e legitimidade. Alguns governos atuais, como já aconteceu na Nigéria, referem-se a eles como uma praga12. Outra das críticas frequentes ao uso da palavra griô tem relação com a predominância da cultura Mande na área oeste da África. As outras culturas do oeste da África são ―esmagadas‖ por esse predomínio mande, que prefere o uso das palavras jeli e jali.
Entretanto, com todas essas peculiaridades e diferenças, a palavra griô é a que mais resiste; é a que tem o uso mais generalizado e positivo, sobretudo nos países da diáspora africana, particularmente Caribe e Estados Unidos. Agora é quase impossível substituí-la por outro termo. No Brasil também o uso da palavra generalizou-se entre os pesquisadores e acabou apagando as peculiaridades anunciadas pelos outros termos. Aliás, em virtude do uso, o reconhecimento do termo griô é quase universal. O termo geral griô13 mantém a ideia de ligação ancestral, de uma atividade cultural das mais importantes e antigas, ligando diversos povos, africanos e não africanos. Ainda que o termo seja de origem francesa, os países de língua inglesa também o usam. O mais importante nisso tudo é aprender sobre a tradição oral africana e não perder de vista que, apesar do uso generalizado da palavra, há diferentes tipos de griôs, no passado e no presente, de acordo com a região, com o grupo étnico a que pertencem e, sobretudo, dotam a função dos griôs de diferentes atividades.
11 Hale, no referido livro, cita o pesquisador Mamadou Diawara e muitos outros pesquisadores, africanos e não africanos. Alguns substituem a palavra pela mais geral, bardo.
12 A imagem negativa decorre de atividades como cerimônias de casamento ou de nomeação, em que ―espertos griots‖ atuam como ajudantes das famílias nas celebrações, cobrando pelos serviços, arrecadando dinheiro de parentes, para incluí-los também nas preces. Essas ações viraram sinônimos de griottage, griotique e griotism.
13 Hale, um dos principais pesquisadores do universo dos griôs, alterna o uso da palavra com outras que ele considera sinônimos parciais: bardo, autores profissionais e artesãos da palavra.
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As primeiras menções aos griôs, como artistas a serviço de nobres, datam de 1068. Conta o autor árabe Al-Bakri, em O livro das rotas e reinos, que o rei de Gana tinha intérpretes e que as audiências eram anunciadas pelo toque de um tambor especial feito de um tronco oco. Em 1154, os geógrafos que andavam pela África descrevem os tocadores de tambores do Reino de Gana e tudo indica que esses tocadores ganenses de tambores já são o que conhecemos como geseré (soninké) ou jaare ou griô. Em 1337- 38, o estudioso, sábio e administrador sírio Al-Umari, que vivia no Cairo, descreveu a corte de poetas do Reino do Mali na obra chamada Masalik al-absar fi mamalik al
amsar. Com a andança de exploradores, missionários e administradores pela África, as
referências aos griôs vão tornando-se mais comuns, desde o século XVI, desde que o português Valentim Fernandes, o primeiro Europeu a descrever os griôs, o fez, em 1506-7, como está registrado a seguir:
Neste país e em Mandingo, existem judeus que são chamados gauleses e que são negros como as outras pessoas do país. Mas eles não têm sinagogas, e eles não realizam as mesmas cerimônias que outros judeus. Eles não vivem com os outros negros, eles vivem com eles mesmos, em sua própria área. Estes gauleses são quase sempre bufões e tocam viola e cavacos [instrumentos de cordas], e são cantores. E porque eles não se atrevem a viver nas aldeia, eles vivem atrás da casa dos nobres e cantam seus louvores até o amanhecer, até que ordenem que lhes seja dado uma porção de milhete, só então eles se vão. E quando os nobres saem de sua casa, os judeus vão à sua frente e cantam e gritam suas bufonarias. Eles são também tratados como cachorros pelos negros e não ousam entrar em suas casas, exceto com os chefes, e se eles aparecem na aldeia, as pessoas batem neles com varas. (FERNANDES, 1951, p. 15 apud HALE, 2007, p. 82)
Certamente essa descrição feita pelo português Fernandes é bastante distinta das nobres e reais descrições, que poderemos encontrar a respeito dos griôs, registradas pelo mundo de influência árabe ou nos épicos dos grandes impérios africanos14. Os leitores certamente ficarão perplexos, mas a passagem não deixa de ter importância para sublinhar o grande paradoxo que é determinar o status social de um griô desde os seus primórdios.
Mas, nos primórdios do século XVII, os griôs aparecem com muita frequência e de maneira bastante detalhada nos escritos de mercadores e missionários, como o do jesuíta Manuel Alvares, quando esteve no Senegal, em 1616. Impressionado com sua
14 Segundo nosso autor de referência maior, Thomas A. Hale, esse tratamento distinto se deve às diferenças que se pode encontrar na classe de griôs conhecida como gawlo, de origem fulbe, difundida em diversos grupos étnicos no oeste da África. O status desses gawlo varia, dependendo do grupo étnico.
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arte e sua habilidade para inspirar os soldados, ele diz: ―ninguém faz isso melhor do que os judeus... Eles são pessoas de muita arte e muita graça... As mulheres vestem-se de maneira diferente, as roupas fornecidas pelos reis. Eles são trovadores, cantores, e atuam como incitadores em tempo de guerra‖ (―Etiópia Menor‖) (HALE, 2007, p. 84).
Em The golden trade, um livro de 1623, o comerciante britânico Richard Jobson, viajando pelo rio Gâmbia, oferece-nos outros detalhes sobre as atividades dos griôs:
de qualquer maneira, as pessoas são afetadas pela música, ainda que só de maneira ordinária eles admirem os músicos, tanto que quando algum deles morre, eles não concedem a ele funeral, como outras pessoas o fazem, mas colocam seu corpo sem vida, esticado, numa árvore oca, onde eles são deixados para se consumirem. Sempre que um estrangeiro quer tocar um instrumento musical, os africanos costumam dizer, como um desprezo, que ele tocou com um Judas. (HALE, 2007, p. 84)
No século XVIII o contato entre a Europa e a África se expandiu consideravelmente e, agora, os viajantes já demonstram uma outra compreensão das funções, status social e papel dos griôs. Um livro escrito por um oficial da marinha francesa, que explorava a costa do Oeste da África, De Lajaille, em 1784-85, diz:
Griôs, homens e mulheres, são tidos como infames e são privados de funeral quando eles morrem: suas bufonarias são grosseiras e indecentes; cada aldeia tem o seu. Eles são bem tratados durante a vida, de modo a evitar os insultos que eles despejam contra quem eles têm queixas. O medo que eles inspiram proporciona a eles alguma consideração, mas é só aparente, já que a vingança aparece depois de sua morte. Seus corpos são normalmente amarrados no galho de uma árvore. No Senegal, eles são enterrados como as outras pessoas. (DE LAJAILLE, 1802, p. 163; HALE, 2007, p. 95)
No século XIX, viajantes europeus, aventureiros, missionários, exploradores, soldados e administradores não paravam de chegar à costa oeste da África, sempre em número crescente. Seus registros de viagem trazem importantes considerações para entendermos cada vez mais o papel social e as funções dos griôs, especialmente no que diz respeito à manutenção do passado:
As griôs são o palhaço fêmea. Elas são numerosas, e não são tão amáveis como as ―almehs‖ do Egito; assim como elas, no entanto, elas cantam histórias, dançam, narram divertidas aventuras, fazem previsões astrológicas, e são, do mesmo modo, agentes do amor concupiscente. Estes griôs e griottes são igualmente maus músicos e poetas. Eles podem ser vistos em grupos, nas cortes do reis e príncipes negros, e entre os grandes e os ricos, aos quais oferecem muitos elogios exagerados e louvores da mais abjeta bajulação, pelo que são bem
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recebidos e bem recompensados. (GOLBERRY, 1802; p. 297-8; HALE, 2007, p. 99)
No começo do século XX, principalmente na África francesa, surgiram vários estudos sobre os griôs. Um dos mais detalhados pertence a H. Lavallière, comandante