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No que diz respeito ao aprendiz-surdo, a situação em que se encontra possui características especiais: o português é para eles uma segunda língua, pois a língua de sinais é a sua primeira língua, só que o processo não é o de aquisição natural por meio de diálogos espontâneos, mas o de aprendizagem formal na escola. O modo de ensino/ aprendizagem da língua portuguesa será, então, o português por escrito, ou seja, a compreensão e a produção escritas, considerando-se os efeitos da modalidade e o acesso a elas pelo surdo (SALLES et al.,2004, p. 115).

A interpretação e a construção de sentido das informações escritas na língua não é um processo trivial devido a complexidades linguísticas específicas de cada língua (FARIAS, 2006). Os surdos configuram-se como um grupo falante de uma língua minoritária, “ainda pouco reconhecida, que precisa aprender a língua oficial do país, uma língua oral que não pode ser aprendida por meio de interações sociais face a face, mas sim por meio do ensino da leitura e da escrita“ (SILVA, 2010). Essa situação agrava-se devido a estratégias inadequadas de ensino da leitura na fase escolar, que minimizam o acesso a informações textuais em português, e à dificuldade de se incorporar as questões culturais específicas da língua portuguesa.

Dentre as vantagens da Educação Bilíngue em relação às outras duas abordagens educacionais (o Oralismo e a Comunicação Total), podemos destacar que a Educação Bilíngue: respeita a diferença linguística do surdo, uma vez que considera a Libras como L1 dos surdos; reconhece a comunidade e cultura surdas; reconhece a importância do desenvolvimento psicológico e cognitivo do aluno surdo ao aprender sua língua natural (LS) e considera importante a criança surda ter contato com a LS nos primeiros cinco anos de vida para que se possa desenvolver a cognição. A LS tem, então, além da função social e comunicativa, também uma função cognitiva, pois possibilita o desenvolvimento do pensamento (abstração, generalização e outros). A linguagem exerce uma função organizadora e planejadora.

Por outro lado, estudos sobre crianças surdas, filhas de surdos, demonstram que estas apresentam desenvolvimento linguístico, cognitivo e acadêmico comparáveis ao de crianças ouvintes, filhas de pais ouvintes. O que apontam para a importância dos surdos serem expostos a LS o mais cedo possível. (STUMPF, 2008; SACKS,2010)

Os problemas sociais e de desenvolvimento para uma criança surda que não aprende LS foram comprovados e apontados por Sacks (2010). O conteúdo de educação dos surdos é bem escasso em comparação com as ouvintes pois gasta-se muito tempo ensinando a criança surda a falar (5 a 8 anos de ensino individual intensivo). Como a criança demora aprender a LP e não aprende Libras, ela fica sem oportunidade de usar a linguagem, um dos principais recursos para solução de tarefas. Logo, a criança não saberá como recorrer ao planejamento para solução de problemas, pois sem uma língua ela perde a capacidade de proposicionar. Uma criança sem uma língua não é capaz de “proposicionar” interna ou externamente, como é colocado

2.5. Os surdos e suas relações com a linguagem 77

está relacionado a se expressar, a dizer às outras pessoas e para si mesmo o que pensa. O neurologista compara a surdez à afasia quando o raciocínio do surdo torna-se incoerente e paralisado. Os surdos sem língua tem sua inteligência, “embora presente e talvez abundante, fica trancada pelo tempo que durar a ausência de uma língua” (SACKS,2010, p. 29). O contato da criança surda com sua cultura desde sempre é essencial, “(...) a pedagogia surda precisa estar presente o quanto antes possível na realidade cotidiana da criança surda” (STUMPF,

2008, p. 18).

Uma família ouvinte bem orientada e que tenha acesso à aprendizagem da LS, junto com o seu bebê, não vai necessitar de recursos extraordinários para dar-lhe uma boa educação. A regulamentação da lei da Libras no capítulo da saúde prevê a orientação às famílias em relação à especificidade linguística dos surdos. Está faltando organização ou sensibilidade. A Língua de Sinais precisa ser adquirida pelas famílias com bebês surdos; se a família tem a Língua de Sinais, ela não vai ter nenhuma dificuldade maior em educar seu filho (STUMPF,2008, p. 25).

A privação do contato com uma língua quando criança (LS no caso dos surdos) e problemas enfrentados no contexto escolar dos surdos desde os primeiros momentos de aprendizagem até a vida adulta tem sido fatores chave que podem impedi-los de vivenciar os direitos de cidadania tanto no Brasil, quanto em outros países. Um aspecto essencial na educação de surdos demonstra a importância da LS para os surdos:

“as pessoas profundamente surdas não mostram em absoluto nenhuma inclinação inata para falar. Falar é uma habilidade que tem de ser ensinada a elas, e constitui um trabalho de anos. Por outro lado, elas demonstram uma inclinação imediata e acentuada para a língua de sinais que, sendo os que a aprendem (como primeira língua) e possui a beleza e excelência intrínsecas, às vezes superiores às da fala” (SACKS, 2010, p. 25).

Enumeramos alguns fatores que são causas de problemas de comunicação dos surdos e na sua relação com a LP (sua L2 no Brasil): (1) fracasso do sistema escolar para surdos, razões e origens; (2) formas diferenciadas e equivocadas na alfabetização tanto de crianças quanto adultos surdos; (3) enfase na oralização e alfabetização em LP e não em sua L1, a Libras; (4) falta de conhecimento das habilidades e necessidades dos surdos, sua cultura, sua história por parte de profissionais (professores) que estão envolvidos na educação de surdos; (5) a história da educação de surdos; (6) dificuldade em adquirir a L2 (LP) devido ao aprendizado tardio da L1 (Libras); (7) diferenças nas estruturas gramaticais da LS e LP; (8) a maioria dos surdos são filhos de pais ouvintes que não conhecem a LS.

Há relatos de surdos que vivenciaram o oralismo e suas consequências em relação ao aprendizado da LS e da LP (SACKS,2010). Em relação a leitura orofacial, a perda para os surdos no processo comunicativo é destacada:

Devido ao bloqueio auditivo, o domínio do surdo na língua oral nunca poderá se equiparar ao domínio da sua língua de sinais, ainda que faça uso da leitura labial, visto que, essa técnica habilita, quando muito, a perceber apenas os aspectos fonoarticulatórios da fonologia da língua. Muitos dos fonemas presentes na fala não são perceptíveis à leitura labial (como /k/ e /g/, por exemplo), e ainda outros possuem o mesmo movimento labial (como /p/, /b/ e /m/; ou /t/ e /d/). Daí a enorme necessidade da mediação do intérprete de língua de sinais (sur10, 20104

citado porABREU,2010, p. 3).

Alguns trabalhos já realizados mostram evidências das dificuldades linguísticas dos surdos bilíngues pré-linguísticos. Sobre isso, Goldfeld aborda as dificuldades de entendimento da língua portuguesa devido ao processo de significação das palavras (GOLDFELD, 2002). A pesquisa de Kozlowski reforça que a LS não possui um sistema próprio de escrita, devendo os indivíduos surdos utilizarem a forma escrita da língua portuguesa na realização da leitura e escrita, como segunda língua (KOZLOWSKI, 2002)

Benzer Belgeler