A gênese do conceito de degradação vem dos experimentos físicos realizados no século XIX, que conduziram à criação do segundo princípio da termodinâmica, concernente à entropia. Este foi descrito por Sadi Carnot (1796-1832), em 1824, para explicar que a energia mecânica se transforma irreversivelmente em calor e somente parte deste pode gerar trabalho (LIMA; RONCAGLIO, 2001).
Para Lima e Roncaglio (2001) a utilização do conceito de degradação para fins ambientais deu-se em função da sua imprecisão, pois assim poderia ser utilizado indistintamente para qualificar alterações, desgastes contínuos, destruição e perda física de inúmeros componentes ambientais. Por exemplo, a erosão dos solos, poluição do ar e das águas, desflorestamento, dentre outros.
Quanto ao significado conceitual de degradação ambiental, Unasylva (2011) explica que este é um conceito técnico e cientificamente difícil de ser definido e sua conceituação pode ter implicações políticas que dificultam chegar a consenso de sua qualificação. A definição posta é um dos temas comumente utilizados por cientistas, técnicos, políticos e cidadãos voltados para a comunicação da temática. Não chega a construir uma categoria ou conceito claramente definido, mas antes abrangem princípios e lógicas que guiam a compreensão e a investigação de um objeto (LIMA; RONCAGLIO, 2001).
O termo degradação ambiental ou da terra tem sido utilizado para qualificar alguns contextos com problemas ambientais, muito embora, em certos casos, seu emprego seja prolixo e impreciso (ALMEIDA; SOUZA, 2013). Atualmente, a degradação ambiental é concebida de várias maneiras (BRASIL, 1981; HILL et al., 2008; MATALLO JÚNIOR, 2009; AQUINO; OLIVEIRA, 2012). Não obstante, fundamentalmente, designa rearranjos, qualitativos ou quantitativos, nos fluxos de energia-informação e ciclagem de matéria nos sistemas ecológicos, através de transformações morfo-fisionômicas destes por processos naturais e/ou sociais.
Com base nisso, percebe-se que a degradação ambiental não se caracteriza pela destruição de um recurso (ALMEIDA; SOUZA, 2013) ou pela atuação de um processo degradativo isolado a um elemento natural, como erosão dos solos, desmatamento ou poluição dos rios. Trata-se de um conjunto de processos degradativos generalizados que transformam todas as estruturas dos sistemas ambientais, alterando gradativamente toda sua dinâmica, morfologia e funções ecológicas de modo contínuo.
Por isso, a degradação ambiental abrange as perdas das características físico- químicas e da produtividade biológica dos solos, desmatamentos, mudanças climáticas antropogênicas e até impactos sociais negativos. Estes promovem mudanças fisionômicas paisagísticas e em danos socioeconômicos que podem ser reversíveis ou não.
Não obstante, cabe destacar que o termo degradação ambiental adquire uma conotação diferente quando ocorre nas regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, onde o índice de aridez é inferior situa-se entre 0,05 e 0,65 (MATALLO JUNIOR, 2003; Lima et al., [200-?]). Logo, tal processo passa a ser denominado de desertificação, ou seja, um tipo de degradação ambiental presente nos espaços sob as condições climáticas citadas e desencadeadas em função da utilização de práticas de manejos inadequados pela sociedade.
Diante disso, desponta uma confusão conceitual sobre a temática, pois há quem pense que a desertificação é a fase extrema da degradação ambiental, sendo também uma situação eminentemente irreversível. Mas também, há trabalhos que conceituam a degradação da terra e desertificação, praticamente como sinônimos (MATALLO JÚNIOR, 2009). Contudo, há pesquisas que partem da premissa de que a desertificação é dada pela erosão dos solos (TRAVOSSOS; SOUZA, 2011). Enfim, há igualmente pesquisadores que utilizam uma barra separando o conceito de desertificação e o de degradação como se estes fossem conceitos distintos, conforme pode ser visto em Trigueiro, Oliveira e Bezerra (2009) e Aquino e Oliveira (2012).
Ao realizar-se uma análise crítica das visões conceituais mencionadas, detecta-se que a primeira perspectiva é imprecisa no que tange a degradação extrema, uma vez que não deixa claro qual o nível mínimo, normal e extremo do processo aludido. Ademais, desprezou a convenção proposta pela Organização das Nações Unidas (Lima et al., [200-?]) que particulariza a desertificação como um tipo degradação relacionada às zonas climáticas específicas e ao mau uso das paisagens pelo ser humano. A irreversibilidade é outro ponto polêmico, pois não é possível reconstruir um ambiente tal como foi antes da sua degradação,
visto que esta deixa marcas indeléveis na paisagem, mesmo esta sendo reconstituída de modo semelhante ao inicial.
A segunda concepção apresentada está equivocada, visto que a ocorrência da degradação ambiental em qualquer parte da Terra independe de limitações quanto aos aspectos climáticos ou do índice de aridez de uma determinada paisagem. Deste modo, o processo referido é mais geral e compreende a desertificação como um caso particular das regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas.
A terceira denominação é demasiadamente reducionista porque coloca a erosão dos solos como o fator principal para incidência da desertificação nas regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas. Na realidade, a desertificação é a degradação ambiental, sob os climas supracitados, causada ou intensificada pelas ações antrópicas. Desta maneira, o primeiro é um tipo peculiar do segundo processo discutido.
Já a quarta designação é generalista e possivelmente ambígua. Inicialmente porque os trabalhos não indicam quais os segmentos das áreas de estudo estão degradados ou desertificados, ou seja, inexistem os limites da ocorrência do primeiro e segundo processo. Outrossim, é ambígua, pois mesmo entendendo a diferença entre os conceitos discutidos, não delimitam sua expressão o que induz o leitor ou o próprio pesquisador a pensar que são aplicados como sinônimos.
Tal questão pode está correlacionada com dificuldade de delimitar a área degradada, porém não desertificada. Isto porque, para a ocorrência da primeira qualidade, é necessário a degradação de um elemento ambiental, sem que haja a degradação generalizada do ambiente (degradação ambiental ou desertificação). Entretanto, este fenômeno não é habitual, dadas às inter-relações sistêmicas estabelecidas entre os elementos naturais das paisagens, portanto geralmente a alteração de um elemento repercute sobre os demais.
As questões levantadas estão concatenadas com a adaptação do conceito de degradação ambiental para o de desertificação nas regiões informadas e também por ser uma nova ressignificação/abstração conceitual cunhada para atender questões políticas estratégicas das Nações Unidas em 1992. Isto posto, “a definição é propositadamente vaga quando trata de caracterizar a degradação das terras e os fatores que podem causar a desertificação [...]” (SAMPAIO; ARAÚJO; SAMPAIO, 2005, p.92).
Por isso, Oliveira (2006) diz que este termo tem um significado complexo, controverso frequentemente sendo empregado erroneamente e de difícil compreensão, dada à
imprecisão de seu significado. Ademais tal conceito é impreciso, subjetivo e revestido pela perspectiva antropocêntrica, por isso carecendo de um aprofundamento conceitual crítico e histórico para seu melhor entendimento e desenvolvimento enquanto uma categoria de análise.
Logo, através da revisão bibliográfica empreendida para este trabalho, compreende-se a degradação ambiental como um conjunto de processos socioambientais inter-relacionados que atuam na degradação ou modificação da condição “natural” ou habitual da paisagem ou sistema ambiental até que estes alcancem um novo equilíbrio dinâmico físico, químico e biocultural. Portanto, trata-se de um fenômeno complexo desencadeado pelas ações antrópicas, sendo mais abrangente que a desertificação.
A degradação ambiental é causada por diversos fatores e processos sociais e naturais provocados pelo ser humano enquanto faz suas transformações paisagísticas. Dentre os principais fatores causadores do processo em questão desponta: a visão economicista do mundo juntamente com as abordagens analítica e a reducionista; a pecuária extensiva; o superpastoreio; sobrepesca; monocultura com uso de inseticida, herbicida e excesso de adubação química. Além destes, há também a deposição de efluentes industriais ou domésticos nos cursos fluviais; queimadas; devastação das florestas; atividades mineradoras; uso de tecnologias rudimentares, ausência de práticas de manejo e ordenamento territorial (CAMARGO, 2003; CONTI, 2008; TUNDISI; TUNDISI, 2011; PESSOA; RIGOTTO, 2012; IPCC, 2014).
Já os principais processos que agem em prol da degradação ambiental são: assoreamento; erosão; lixiviação; poluição; contaminação; acidificação; desmatamento; incineração dos compostos orgânicos. Destacam-se também a mineração; adição de espécies exóticas nos sistemas ambientais; urbanização desenfreada; crescimento populacional; favelização e muitos outros (DREW, 1986; CUNHA; GUERRA, 1996; ARAÚJO, 2003; HILL et al., 2008; BOGAN et al., 2009; SOUZA; OLIVEIRA, 2015; SOUZA; ARTIGAS; LIMA, 2015).
Enfim, acredita-se que a mitigação da degradação ambiental dá-se a partir da adoção de planos de manejo que respeitem a capacidade de carga dos sistemas ambientais, através do emprego de tecnologias verdes e eficientes e por meio de mudanças paradigmáticas. Estas devem prezar pela concepção de transformar o mundo respeitando a coexistência entre todos os seres vivos, sejam estes humanos ou não.